PROMESSA
Viegas Fernandes da Costa
A calçada indicando o rumo, seguia, como um autômato, vazio. Jamais caminhara por aqueles lados da cidade, escuros caminhos, que sempre temera. Mas qual a diferença, agora?
Os postes projetando luz baça e grandes sombras, dobrou a esquina e prosseguiu pelo beco, bastante estreito. Fazia frio, muito frio, e espantosamente carregava consigo um maço de cigarros. Quanto tempo? Vinte anos? Talvez, mas acenderia um agora. Parou, segurou o cigarro entre os lábios e com uma das mãos em concha protegeu a pequena chama que o fósforo alimentava. Encheu os pulmões de fumaça, olhou ao redor. Ingressara talvez em uma daquelas velhas histórias em quadrinhos: Gothan City? Manhattan? O cenário de prédios, tijolos à vista, muita sujeira. Não, não abandonara a pequena cidade em que sempre vivera, estava lá, como sempre estivera, mas agora... Bem, agora tudo mudara, que importa todo resto? Todo aquele barro proferira sua sentença, do – lo – ro – sa, e o que restara dele sobrevivia agora neste corpo e neste beco.
Parou!
O convite imundo da espelunca no letreiro da porta. “Há vagas”, estava escrito. Que importa? Estava frio, estava cansado, perdido. Entrar? Pagar um quarto? Arrumou seu casaco, puxou o zíper até o pescoço e entrou. No balcão a velha puta assistia ao filme da madrugada. Havia algo de familiar naquele rosto gordo, o buço vicejando sobre o lábio.
“Um quarto!”
“Sozinho?” – estranhou. “Não me vá sujar as paredes?”
“Quanto?”
“Quarenta, sem café, sem sabonete, sem jacuzzi!” – e soltou uma gargalhada vulgar.
Pagou, pegou a chave, segundo andar, quarto doze. A porta esperava ser soprada para cair, só casca daquilo que um dia fora tábua. O assoalho gemia.
“Não me vá sujar as paredes!” - ouviu ainda a velha gritar lá de baixo, e novamente a gargalhada vulgar. Mas que importa? Que importa meu deus?
Uma cama, um criado mudo, uma cadeira e uma pia de porcelana branca a um canto do cubículo. Os lençóis arrumados e sujos, úmidos! Não quis abrir a janela. Apagou a luz, despiu-se e se deitou. O contato da sua nudez com os lençóis sujos e úmidos subitamente o deixou excitado. Uma excitação mecânica, física, bizarra.
Estava vazio!
“Não te assusta...” – sussurrou-lhe a voz ao ouvido, doce, amorosa. “Estou aqui!” – disse, e levantou-se. Andou pelo quarto, e no escuro pôde ver-lhe a silhueta. Sim, pensou, era ela, estava lá, e sentiu-se tranqüilo.
“Posso te ver?”
“Não, ainda não. Quero apenas que saibas que estou aqui, que me sintas.”
“E todo aquele barro? Aquelas flores? Todo aquele rito? Tua boca colada? Teus olhos fechados? Tudo aquilo?”
“Sim...?”
“E agora estás aqui...”
“Sim...”
Aproximou-se devagar, sem fazer barulho. Pegou-lhe a mão e a guiou até seus seios.
“Reconheces?”
“Sim, são teus.”
“São teus” – e se deitou também na cama estreita. Acariciou-lhe o peito, o ventre, o sexo intumescido.
“Tu não me tocas além de onde minhas mãos colocarem as tuas. Tu não me beijas. Tu não me cheiras. São as regras.”
“Tanta saudade!” – e os lábios dela cobriram os seus. Sentiu-lhe os seios em seu peito, suas coxas em suas pernas. Ela se movimentava sobre seu corpo e foi sentando sobre seus quadris. Com as mãos encaixou seu sexo duro, e sentiu-lhe o conforto quente e viscoso do prazer. Sim, ela estava lá! Seu membro deslizava firme e lentamente para dentro dela, e ela o recebia com gemidos e palavras de amor. Não, velha puta, não sujaria as paredes, não sujaria nada! Gozaria e seria feliz, velha puta! Passaria o resto dos seus dias gozando, inundando de porra todo aquele seu vazio! Ela voltou! Porra, ela voltou!
Os movimentos eram mais rápidos agora, e ambos diziam-se coisas incompreensíveis, gemiam, urravam. Ela segurando-lhe firmemente os braços junto ao colchão.
“Tu não me tocas! São as regras!
E ele gozava! Gozava o que não gozara em toda a sua vida! O prazer, meu deus, o prazer! E a escuridão dando lugar a toda aquela claridade leitosa que o envolvia e transportava, que desfazia-lhe o corpo e o fazia correr como rios de leite para um grande mar...
!
“Olha cara, já ta na hora de ir! Tu me pagou uma diária, já tás aqui dois dias! Tu paga e some, ou te arrebento!” – a velha puta na porta vestia uma camisola curta e transparente que mostravam suas pernas de grossas e azuladas varizes e os enormes e flácidos seios que balançavam, descompassadamente, sobre sua gigantesca barriga à medida em que gritava.
“Para onde ela foi?”
“Ela, que ela? Não tem ela, cara, não tem ninguém! Tu já ta aí dois dias, gritando de hora em hora, espantando freguesia!”
“Ela, droga! Cadê ela, p – o – r – r – a !?”
“E esse cheiro, meu deus! Que cheiro de podre é esse? Que merda é essa?”
“Olha velha, ou tu fala, ou tu já era!” – ameaçou, nu, de pé, o dedo em riste.
“Já te disse, biruta, não tem ela, não tem ninguém. E não me ameaça não, porque tá pra nascer o corno que vai me ameaçar!”
Olhou ao redor. Desesperado andou até a janela, abriu-a e olhou para fora, para baixo, para cima. Como chove naquela cidade! Por todo lado o musgo, a umidade, as ruas escorregadias e perigosas.
“Ela tava aqui, tinha voltado!”
“Tu me deve mais quarenta.”
“Eu senti, Dona, eu senti o calor dela, o sexo dela, as mãos dela” – soluçava. As mãos esfregando a testa, puxando os cabelos. Apontava a cama: “Aqui ó, nós dois, ela sussurrando no meu ouvido e depois gemendo, gemendo de prazer.”
“Tá cara, tu paga e vai embora. Se tem ela, procura lá fora, porque já foi. Aqui só tem nós. Se queres, se tas precisado, posso dar pra ti, sei como é, ainda não desaprendi. Mas se não, então deu, porque já to de saco cheio de ti.”
“Quarenta né? Dois dias, fiquei dois dias?”
“É!”
Vestiu suas roupas com pressa. Do bolso da jaqueta tirou uma nota de cinquenta, pagou a dona do hotel e saiu. Na rua deixou suas pernas tomarem o caminho, ele mesmo era todo angústia e dúvidas. Ela estivera lá, sim, claro que sim. Sentiu-lhe a pele, sentiu-lhe o calor, ouviu-lhe a voz. A marca das suas mãos ainda anunciadas nos vergões em seus braços. Estava escuro, é verdade, mas vinte anos devem servir para reconhecê-la, como não? O mesmo gemido de sempre, as mesmas coxas em seus quadris, os mesmos seios. Mas onde se enganara então? Vira a boca colada, o esquife, todas aquelas pessoas chorando, os círios e depois todo aquele barro. Sim, alguém brincara consigo. Como chegara àquela espelunca? E aquela puta velha? Fora dopado, claro, algum espertalhão se aproveitando do seu vazio, da sua dor. Ainda volta, vai querer algo, aproveitar-se da situação. Se armou aquilo... mas tão real, meu deus! Não, não...
N – Ã – O !!!!!
“Senhor? Posso ajudar?”
“Ajudar?”
“Sim, senhor. Está tudo bem? Devo chamar alguém?”
“Onde estou?”
“No Paraíso Eterno.”
“Paraíso Eterno?”
“Sim, o cemitério.”
Olhou para o homem, baixinho, capa e boné para se proteger da chuva. Saíra da pequena guarita para dar assistência quando viu aquele sujeito chegar e cair de joelhos, gritando.
“O Paraíso Eterno, claro” – respondeu. As pernas o trouxeram. Procurou nos bolsos o documento de identidade da esposa. “Minha esposa, gostaria de visitar seu túmulo.”
O pequeno homem pegou o documento nas mãos e retornou para a guarita. Consultou o nome do documento no computador.
“Não há ninguém com este nome sepultado aqui.”
“Como não há ninguém? É minha esposa, foi sepultada aqui, velada naquela capela ali” – e apontou o pequeno prédio à esquerda do portão.
“Mas este nome não consta no cadastro.”
“Procure direito, droga!”
“Não grite, senhor.”
“Desculpe, estou nervoso.”
“Compreendo. Consultei novamente e nada consta. Mas já que afirma que sua esposa está aqui, podemos ir ao túmulo. O senhor me mostra onde fica e então arrumo no sistema” – e abriu o portão eletrônico para que o outro pudesse entrar.
O cemitério fora reformado, modernizado, as sepulturas mais antigas localizavam-se nos fundos da área, onde ficava a primeira entrada, quando ainda pertencia à comunidade protestante. Com a drástica redução de fiéis, fora vendido, porém os túmulos mais antigos deveriam ser preservados, conforme contrato. Por isso o funcionário estranhara quando percebeu que caminhavam justamente para aquela parte do cemitério.
“Faleceu há muito tempo, a sua esposa?”
“Há alguns dias.”
“Tem certeza disso?”
“E como posso não ter certeza?”
“Esta é a parte antiga, há mais de dois anos que não sepultam ninguém aqui.”
“Estás pensando que estou louco ou que estou mentindo? É aquela, a que tem o anjo.”
“Aquela? Não pode ser.”
“Como não pode ser?”
“Aquela sepultura está vazia. Há muitos anos uma jovem desapareceu e enterraram ali algumas fotos. Foi dada como morta, mas o corpo nunca foi encontrado. Suspeitava-se do marido, mas como não havia provas, fizeram o enterro simbólico e os vivos seguiram fiando seus dias.”
“Eu mesmo estava aqui, no enterro, é esta sepultura!”
“Impossível, há algum engano!”
“Mas que merda é essa? Quem tá te pagando? Qual o objetivo disso tudo?”
“Senhor, vá para casa, descanse. Quer que eu lhe chame um táxi?”
“Não, não quero táxi! Só quero saber o que está acontecendo!”
“O senhor perdeu sua esposa, deve estar confuso, talvez o cemitério seja outro ou, talvez, houve algum engano com as sepulturas. Ficarei com o nome da sua esposa, vou consultar o gerente. Quem sabe conseguimos descobrir o que aconteceu. Deixe-me seu telefone, qualquer coisa eu ligo.”
“Fiz amor com ela.”
“Como?”
“Transamos! Na noite passada esteve em minha cama.”
“Quem?”
“Minha mulher, voltou! Não sei como, vi ela ser enterrada aqui, todo aquele barro sobre o caixão, mas ela voltou!”
“Senhor, vá para casa, descanse.”
“Você não acredita, não é mesmo?”
“Sou apenas um funcionário do Paraíso Eterno!”
“Você não acredita, a puta também não! Mas eu sei, ah, como sei!” Começou a andar ao redor da sepultura, procurando algum sinal que indicasse a lápide violada. Mas nada! O granito antigo e mal cuidado estava coberto de musgos e liquens.
“Há muito que roubaram a placa de identificação. Ladrões de bronze, sabe como é, derretem nessas metalúrgicas clandestinas. A família nunca substituiu.”
“Não é possível!”
“Senhor, vá para casa, descanse! Volte amanhã e então veremos o que houve.”
Transtornado, consultou o relógio como que se estivesse atrasado. Olhou no fundo dos olhos daquele homem baixinho de boné e capa e viu que falava a verdade. Aquela sepultura não podia ser! Mas ele vira, esteve ali, toda aquela terra! Sem dizer palavra, retornou pelos estreitos corredores, desviou de túmulos, chegou ao portão e saiu. Caminhou sob a chuva – como chove naquela cidade! – e seguiu escorregando no calçamento molhado. Não viu ninguém, não pensou nada. Como máquina desesperada, apenas caminhou, cada vez mais depressa, cada vez mais cego, caminhou, trôpego, os olhos embaçados da chuva e do choro, raiva e desespero. Alguém brincava com ele, mas com que propósito? Com que propósito, meu deus? Não, tiraria tudo aquilo a limpo! Tiraria e não deixaria barato, poderiam apostar aqueles que o conheciam, sempre tão calmo, feliz em sua paixão. Chegou à porta de casa. Trêmulas e ansiosas, as mãos enfiaram-se em seus bolsos procurando pela chave. Precisava confirmar logo, os álbuns, vinte anos de fotografias! Os álbuns provariam que não estava louco, que ela de fato existiu. Antes, porém, ligaria para a sogra, diria que a filha o visitara, que estava de volta. Sim, o telefone, o número que nunca esquecera, da casa da namorada para quem ligava todas as noites: “alô?” “amor?” “querido! Sou eu” “Ah... saudades!” Vinte anos, e seus dedos memorizaram aquela seqüência de dígitos.
“Alô!”
“Sou eu! Desculpa ligar assim, mas ela voltou!”
“Desgraçado, como tem coragem?”
“Olha não quero incomodar, mas achei que ficaria feliz em saber que nossa menina voltou.”
“Cala a boca! Ca – la – a – bo – ca! Depois de tudo o que aconteceu, ainda tem coragem de me ligar? Eu – te – ma – to! Eu – te – ma – to! Ouviu bem? ” – e desligou.
A sogra destilando-lhe ódio, por quê? Ameaçou-lhe de morte, desligou-lhe na cara. “Eu – te – ma – to!” – disse. Matar? Ainda mais desconcertado, decidiu-se a ir até lá, bater-lhe a porta, pedir explicações, mas antes o álbum que urgia a sua frente, antigo, do tempo em que ainda havia por aí fotógrafos que trabalhavam em preto-e-branco, o momento revelado em prata. A despeito de todo o seu nervosismo, desespero até, passou a mão espalmada por sobre a capa aveludada, e por alguns minutos estacionou contemplativo, olhando para o volume às suas mãos, o rosto absurdamente sereno. Ao abrir o álbum, deparou-se com as primeiras fotografias, a igreja, o casamento, ela estava tão bonita envolvida em todo aquele véu, a festa, a família, os amigos. Apalpou os bolsos da jaqueta molhada e encontrou a amarfanhada carteira de cigarros. Restara um último, úmido, mas que conseguiu acender. Seus lábios se abriram e sentiu a nicotina tomando seus pulmões, todo seu corpo, revolvendo-se na garganta, expiando nas narinas. Um pouco mais angustiado, passou adiante, a viagem de lua-de-mel, fotos coloridas, ela nunca andara de barco e estava feliz, sorria. Virou a página, e mais uma, e outra, o primeiro ano de casados escritos na luz, os melhores momentos estavam lá. E depois? Não podia ser! Virou a página, e a próxima, não entendia! Desesperado, soltou o cigarro e começou a virar as páginas cada vez mais depressa, a quase rasgá-las, vazias! Todas as páginas vazias!
“Por que me procuras onde não estou?” – a pergunta atrás de si, a mesma voz insinuante,
“Estás morta!”
“Pareço morta?”
Podia vê-la agora. Primeiro o cheiro, aquele mesmo cheiro que impregnara o quarto do hotel, depois sua inequívoca silhueta próxima à porta. Era ela, certamente que sim! O roupão transparente entremostrava seu corpo, os seios ainda rijos, a barriga, a penugem escura do seu sexo.
“Pareço morta?” – repetiu.
“Não, mas eu te vi! Eu te vi morta, enterrada, todo aquele barro te cobrindo o caixão.”
“Viu mesmo?” – e começou a caminhar em sua direção, um clarão a rodeá-los.
“Estás morta!”
Ela se aproximou mais, deixou escorregar a camisola e, nua, juntou-se ao corpo dele. “Estou aqui!” – sussurrou-lhe ao ouvido, e tocou-lhe a orelha com a língua úmida; as mãos acariciando-lhe as costas. Tentou beijar-lhe a boca, mas ela afastou o rosto.
“Tu não me tocas, tu não me beijas, são as regras, lembras?” – e começou a despir-lhe as roupas ainda molhadas.
Apesar do calor que fazia dentro da casa, cada vez mais insuportável, ele tremia. Febre? Delírio? Prazer? Nu, ela o obriga a deitar e senta sobre seu sexo dolorosamente endurecido, segura-lhe os braços e cavalgava-o com a mesma fúria das línguas de fogo que lambiam as paredes da casa, escalavam cortinas, devoravam a mobília. E ele gozava! Gozava o que não gozara em toda a sua vida! O prazer, meu deus, o prazer! E o fogo dando lugar a toda aquela claridade leitosa que o envolvia e transportava, que desfazia-lhe o corpo e o fazia correr como rios de leite para um grande mar...
Ao redor da casa, reuniam-se os vizinhos que, extasiados ante o incêndio e a tragédia, ouviram alguém gritar. O som sufocado pelo telhado que desabou em chamas. Era tarde. No meio das cinzas do rescaldo, apenas aquele corpo carbonizado, estirado sobre um alçapão. Ao abrirem-no, os bombeiros, a surpresa. Que fazia um cadáver mumificado, nu, de mulher jovem, a pele desidratada e os lábios colados, guardado naquele porão?
Em meio à multidão, a velha puta cuspiu repulsa no chão. Não havia surpresa em seus olhos. Os seios flácidos repousando sobre sua gigantesca barriga. Liberta, virou-se e tomou a rua. Tirou do dedo a aliança que ele prometera, há vinte anos, e nunca lhe dera. Estava acabado, estava vingada. Ele tivera o que merecera, a outra também.
Havia algo de familiar naquele rosto gordo, o buço vicejando sobre o lábio.
* Viegas Fernandes da Costa é autor dos livros "Sob a luz do farol" (2005) e "De espantalhos e pedras também se faz um poema" (2008). Permitida a reprodução deste conto desde que mantido na íntegra e citado o autor.




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