domingo, 16 de junho de 2013

Evocação barroca

Evocação barroca

Viegas Fernandes da Costa


Detalhe de "A conversão de S. Paulo", de Caravaggio.
A imagem da japonesa banhando-se nua numa tina que um dia encontrei n’A Náusea de Sartre. O supliciado com o rosto deitado sobre a pedra fria, as mãos amarradas às costas, o medo e o zunido metálico do machado que corta o ar... o pescoço. Baque surdo no cesto. Por que esta excitação mórbida, esta associação insólita? A pele branca e lisa recém amadurecida, joelhos dobrados, público banho na rua vazia. Banha-se ali todos os dias, sob meu olhar e meu desejo. Sim, é fria a pedra que recebe o rosto e reflete o medo do condenado e espera a quente derrama do sangue. Ah, e como são negros e longos os cabelos da japonesa nua na tina, a mecha azeviche que se prende molhada ao pescoço, os ombros mal cobertos pela água, os seios miúdos e bonitos de mamilos escuros. Como desejo arrancá-la do banho e invadir seu sexo! Depois tomar terno em meus braços seu corpo assustado, e sentir amor. Na prosa sul-africana de Coetzee, em sua À Espera dos Bárbaros, o magistrado que lava a serva semi-cega dos pés deformados e aleijados, e beija sua pele escura, e penetra doce seu corpo machucado. Depois dorme. Mas é altiva a japonesa que evoco d’A Náusea, e me estendo sobre as pedras do calçamento, exposto desespero, crucificado, a carne macerada pelo desejo. Como o monge que se esconde na cela do mosteiro e entoa chibatadas no silêncio da madrugada. Sim, e há o carrasco que toma às mãos o duro machado, os calos acariciando as nervuras da madeira, o desejo erótico nos muitos rostos que anseiam o final, o baque, a morte. E a japonesa levanta lenta e arisca, vira-me as costas, a bunda de glúteos redondos, e se vai caminhando. As pernas pudicamente fechadas roçam os lábios carnudos, cerrados e adolescentes, devassos; os calcanhares macios tocando as pedras, pisando leve, para voltar amanhã. Este amanhã que o baque surdo no cesto interrompeu.

Padre Manoel

PADRE MANOEL
Viegas Fernandes da Costa

Nunca houve, naquela paróquia, um sacerdote tão benquisto, tão admirado, quanto padre Manoel, e percebam, amigos leitores, que muitos padres já andaram a rezar missa por aquelas bandas, talvez mais de duas dezenas desde a época em que seu Paulo da mercearia ainda vendia trigo por quilo, pesado ali mesmo, na frente do freguês, em pratos de balança honestíssima, já que não cabia a ele (não cabia e não queria) lograr ninguém. Mas como íamos dizendo, padre Manoel era apreciado não só pelas respeitabilíssimas senhoras defensoras da moral e da ética cristã (que a todos os padres que por lá apareciam, veneravam), mas também pelos inveterados consumidores de aguardente que faziam do balcão azul do Bar da Zulmira o altar sagrado onde depositavam seu dízimo. Como isto era possível? Explicaremos. Mas não sem antes acrescentar que, devido a antigüidade do fato aqui narrado, o mesmo nos foi contado pelo João, não o Brandão da obra de Drummond, mas o João Filósofo, professor e informante que conhecemos há longa data.
Segundo nosso informante, padre Manoel possuía todos os atributos necessários a um bom sacerdote: era bonito, tinha voz de guardanapo, olhos verdes, sobrancelhas negras e vistosas, vasta cabeleira e, já íamos nos esquecendo, conhecia de trás para diante a Bíblia, além de beber vinho como ninguém. "Como é bonito ver padre Manoel entornando cálices e cálices sem derramar uma só gota do líquido precioso!", exclamavam extasiadas noviças que se posicionavam nos primeiros bancos da igreja a fim de não perderem um só movimento do sacerdote, que quando levantava os braços em prece concedia-lhes a visão daqueles membros musculosos. Mas o que o tornava tão benquisto por todos não era bem todas estas características, já que aos profissionais da aguardente pouco interessava se o santo homem possuía vastas sobrancelhas ou braços musculosos. O que mais chamava a atenção no padre Manoel era a sua capacidade de sintetizar os sermões, a fim de que não ficassem muito longos e cansativos. Deveras, jamais se vira padre mais econômico nas palavras do que este, que sem abrir mão da boa oratória, exigia no máximo cinco minutos da atenção dos seus fiéis ouvintes. O resto da missa? Cantos, rituais obrigatórios com suas respectivas orações e os avisos paroquiais. De resto era só aproveitar o dia. Aos fiéis cabia, quando do fim da missa, cumprimentar entusiasticamente padre Manoel, e não passava dia que não lhe elogiassem a eloqüência de suas breves (brevíssimas) palavras. Verdadeira peregrinação de fiéis a lhe apertar as mãos e beijar o rosto (sim minha senhora, a este padre beijavam o rosto, pois era como beijar o pai: não havia pecado).
Assim se passaram alguns anos. Padre Manoel fora amadurecendo na idade e no sacerdócio. Das noviças, nenhuma restara, e, conta-se, uma veio a ser madre superiora. Também algumas das mais diligentes fiéis foram estudar a geologia dos campos santos, conforme diria Machado de Assis. Enfim, muita coisa mudara desde que o nosso sacerdote assumira aquela paróquia, agora, o que não mudava era a eloqüência e extensão dos seus sermões, que continuavam breves (brevíssimos). Pelo menos até aquele dia.
Contou-nos João Filósofo que começara a notar a mudança na missa de Natal. Justamente aquela que era a mais sucinta de todas a fim de que não se queimassem os perus, que ficavam a assar enquanto se desenrolava o culto religioso. Naquele dia quase se queimaram os perus: o sermão durara sete minutos! Sete minutos, dois a mais do que o habitual! Todos perceberam, mas ninguém comentou o fato. Afinal, se Padre Manoel envelhecera, era natural que sua boca levasse um pouco mais de tempo para articular as palavras. Nada preocupante, desde que se lembrassem de, no próximo Natal, colocarem o peru um pouco mais tarde no forno. Mas a coisa foi se agravando.
Na missa de ano novo, ao invés de sete, João contou ("cravadinho, no relógio") dez minutos! Dez longos minutos! Esclerose? Estaria Padre Manoel esquecendo o que deveria falar e por isso estendia suas palavras, perdendo o dom da síntese, tão peculiaridade sua? Possivelmente. Os fiéis, embora comentassem o fato nas rodas de fuxico, nada perguntavam ao padre. Porém a coisa foi visivelmente ficando pior. Os dez minutos estenderam-se para quinze, dezoito, vinte e dois, trinta! Trinta minutos! Já era demais, e a comissão dos "Unidos na Manguaça" foi a primeira a se reunir para deliberar seriamente sobre o assunto. Afinal, cada minuto acrescentado ao sermão significava um minuto a menos diante do balcão do Bar da Zulmira, que já falecera, mas deixara lá sua neta, muito mais graciosa e permissiva, se é que me entendem. Quando a pregação chegou aos quarenta e cinco minutos toda a paróquia já discutia o fato, sem no entanto encontrarem uma explicação plausível,  até que alguém teve a brilhante idéia de conversar com Padre Manoel, que tinha seu semblante um pouco mais murcho a cada dia que morria.
João foi o escolhido para conversar com o sacerdote, já que era, na época, seminarista. E se o amigo leitor espera um grande desfecho nesta história, é melhor abandonar a leitura agora mesmo, já que nos cabe aqui a função de apenas cronicar sobre os fatos, sejam eles vividos ou ouvidos, e nem sempre os desfechos da vida real são assim... como dizer?... surpreendentes! Não, a explicação fornecida pelo velho sacerdote foi bastante óbvia, e talvez justamente por isso ninguém tenha percebido a razão. Mas como íamos dizendo, coube ao nosso amigo (que na época ainda não era conhecido pelo complemento de "filósofo", mas tão somente de João, o seminarista) interrogar Padre Manoel. Eis a justificativa do santo homem:
-                 Durante trinta anos preguei nesta paróquia. E durante trinta anos a rotina se repetia. Ao amanhecer, depois de orar em agradecimento, vestia minha batina, tomava meu café e subia para o altar a fim de rezar a missa. Sermão rápido para não afugentar os fiéis. Depois acabava, vinham os paroquianos me cumprimentar, agradecer as palavras, pediam a benção e se iam. Eu ficava! Trinta anos e eu ficando... Compreende? Enquanto falava todos prestavam atenção em mim, achavam bonito, gostavam porque era rápido. Mas eu cansei de "ficar ficando". Por isso estendi meus sermões, e vou continuar estendendo. Tenho medo de ficar... (tinha dificuldade em dizer)... sozinho!
João Filósofo explicou-me que foi neste dia que abandonou o desejo de vestir batina. Quanto ao Padre Manoel, este acabou sendo presenteado com uma remoção, já que a paróquia não gostava de sermões compridos. Foi enviado para uma cidadezinha no alto da Cordilheira dos Andes, de onde passou a fazer sermões para as montanhas.


Publicada na Coluna Crônica da Semana nº 5, em 27 de julho de 2002. Esta crônica foi incluida em meu primeiro livro, "Sob a Luz do Farol", em 2005.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Blumenáusea

Blumenáusea

Viegas Fernandes da Costa

“Bonitinha, mas ordinária”
 
Flagrado tomando um cafezinho em famosa padaria do Centro da cidade, perguntamos a Nelson Rodrigues qual sua impressão sobre Blumenau. A resposta foi uma só: "bonitinha, mas ordinária".
Tentamos argumentar, dizendo que todos que visitavam a cidade, achavam-na linda e ordeira. Nelson então respondeu, em meio ao fastio: "toda unanimidade é burra!"
Terminou seu café, baforou a fumaça do charuto e tornou para a vida como ela é.

Doktor Blumenau

Há quem diga que Blumenau deveria ostentar não o título de capital nacional da cerveja, mas sim o de capital nacional da fluoxetina. E talvez seja verdade. É tanta a fluoxetina consumida neste vale triste, que esta já contamina nossos esgotos e deixa chapados os peixes teimosos que ainda encontramos no Itajaí-Açu. É estarrecedor!
Tanta depressão só pode mesmo ser herança maldita dos tempos que os primeiros sem-terra aportaram por aqui. Afinal, contam alguns dos nossos historiadores que Doktor Blumenau era depressivo. Como não o conheci pessoalmente, não assino embaixo. Entretanto, posso afirmar que era, isto sim, um puxa-saco autoritário. Explico.
Todo esse papinho que nosso fundador era um humanista anti-escravagista é pura balela. Se a então Colônia Blumenau não possuiu escravos (ao menos oficialmente), isto se deu em função de uma lei imperial de 1848 que proibia a mão-de-obra escrava nas colônias, e não às intenções de Doktor que, ao contrário do que se imagina, chegou a possuir cinco escravos (afinal, quem você pensa que construiu os ranchos para receber os primeiros colonos?).
Nosso fundador, como todo latifundiário tupiniquim, aprendeu logo as regras de seu novo país. Depois de levar sua colônia particular à falência, foi pedir arrego nas barbas do imperador. Pedro II, é claro, ajudou! Comprou a massa falida e colocou-a nas mãos de Doktor Blumenau para que este a administrasse. Em gratidão, nosso Doktor sempre foi o puxa-saco do imperador, e não por acaso até hoje ostentamos, lá na frente da antiga Prefeitura, o vergonhoso monumento aos “Voluntários da Pátria” – inocentes úteis que foram lutar contra os paraguaios numa guerra que não era nossa.
Mas o pior de tudo era o autoritarismo e sua mente reacionária. Durante o tempo que esteve à frente da administração da colônia, proibiu o estabelecimento da imprensa. Nenhum jornal podia ser impresso em Blumenau sob a desculpa que o livre debate de ideias poderia estimular desentendimentos entre a população. Este autoritarismo manifestou-se também em sua relação com Fritz Müller. Doktor fez de tudo para que este genial ateu materialista fosse embora daqui, convencendo-o a lecionar na distante Desterro – hoje Florianópolis. Temia que Fritz tornasse ateus aos colonos locais.
Depressivo, talvez. Autoritário, certamente. Se hoje vivo, que papos não teria com o deputado Marco Feliciano?

Suinocaminhada

Depois da "cãominhada", a população de Blumenau poderia fazer uma "suinocaminhada". O trajeto poderia ser da Praça Victor Konder até a grande creche da General Osório. Na coleira (com focinheira, claro) estariam JPK e Brollo, abrindo o cortejo, seguidos pelo FF do "Blumenau é Dez!", o parceiro do Batman e demais desbocados.
Poderíamos, inclusive, construir alguns carros alegóricos para o evento. O abre-alas, por exemplo, poderia ostentar um enorme par de óculos. Na sequência alguns caminhões da Foz e, fechando o desfile, o carro intitulado "estação elevatória de esgoto", que poderia apresentar um enorme chafariz de bosta.
 Como trilha sonora o samba enredo intitulado “Fodeu”, composto por “Pequeno Kleinubing e seus porcos amestrados”.

Carta Aberta Ao Senhor Vereador Corrupto que Compra Votos Com Óculos.

Senhor vereador corrupto que compra votos com óculos e demagogicamente sobe à tribuna da Câmara para defender outro colega corrupto – colega este cujo prefeito há muito já deveria ter afastado para que se pudesse cumprir sindicância a respeito dos seus atos. O senhor chama a atenção de nós, cidadãos que nos manifestamos nas redes sociais e nos veículos de imprensa para criticá-los e exigir que pessoas como o senhor sejam expurgadas (da mesma forma como expurgamos nosso lixo mais imundo), a fim de que nos silenciemos sob a desculpa de que pessoas como o senhor também têm família, também têm filhos.
Senhor vereador corrupto que compra votos com óculos, tenho pena dos teus filhos. Carregarão por todo o sempre a vergonha dos atos do pai. Por sorte, talvez, o senhor venha a ser esquecido, assim como os demais colegas corruptos que acreditam que nós, povo, tenhamos que nos "foder", e assim vossos filhos encontrarão um pouco de paz. Entretanto, senhor vereador corrupto que compra votos com óculos, gostaria apenas de lembrá-lo do óbvio. Bastava o senhor ter tido atitudes honestas. Bastava o senhor não ter cometido as atitudes que o Ministério Público indica (e as escutas telefônicas comprovam), que seus filhos e toda sua família não estariam agora se envergonhando de serem seus filhos e sua família.
Senhor vereador corrupto que compra votos com óculos, melhor mesmo seria o senhor, e estes colegas que agora o senhor defende na tribuna, tal qual o fazem os membros da máfia siciliana, renunciarem a vossos cargos públicos e migrarem para a pequena Nauru, onde poderão envelhecer esquecidos por nós.

Perguntinha bobinha

De que adianta a programação da TV local ser digital se o envolvimento com a comunidade ainda é movido à manivela?

Escolinha do Governador Raimundo

A escolinha do Governador Raimundo tem trocentos e tantos alunos. A escolinha do Governador Raimundo, entretanto, não tem graça nenhuma.

Solução concreta

Em Blumenau, alguém disse que o rio era um problema. Então chamaram os japoneses, que resolveram concretar o rio.
Logo alguém irá dizer que a chuva que brota do céu é o verdadeiro problema, e por isso chamarão os chineses, que também saberão concretar o céu.

Cocoricó


Depois de muitos e incansáveis debates envolvendo o poder público e a sociedade, Napoleão bate o martelo a respeito do destino do Restaurante Frohsinn: mandará derrubar aquela gigantesca cachopa de cupins instalada sobre o morro do aipim, e para lá transferirá a galinha da Kasulke. Se o Rio tem seu Cristo abençoando a cidade, Blumenau terá sua galinha abrindo suas asas sobre nós. Já que gostamos tanto de cacarejar por questões fundamentais (como uma galinha enfiada às margens de uma rodovia e um restaurante empoleirado sobre um morro batizado de aipim), nada mais justo que nossa ave símbolo impere sobre nossas cabeças e projete sobre o coração de Blumenau a sombra das suas penas.

*Publicado originalmente no Expressão Universitário, maio/junho de 2013.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Quando nos faltam as palavras

Quando nos faltam as palavras

Viegas Fernandes da Costa

Crédito: "Fulla", de Ximo Gascón.
Reunira todas as palavras de todos os dicionários em todas as línguas, mas faltava-lhe aquela que pudesse expressar o que sentira naquele dia de juventude, há tantos anos acontecido. Entregara a vida à busca desta palavra especial, única, precisa. Em vão!
Tornara-se, assim, um sábio sem serventia para si, a personificação da frustração.
Quando chegou o tempo de desexistir, recostado no canto mais profundo de sua imensa biblioteca, velado pelos seus, e crente de que jamais daria por herança o que sentiu naquele dia de juventude, iluminou-se, claro como toda luz, potente como todo pensamento, na compreensão de que sua resposta morava em linguagem outra. 
Foi então que levantou, lépido como se ainda menino, ensaiou três passos e montou-se em movimento. 
"A isto chamarei de dança" - explicou aos seus. 
"Dança" - repetiram os demais. 

E desde então, quando nos faltam as palavras, pomo-nos a dançar.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

“Zélica e outros”

“Zélica e outros”

 Viegas Fernandes da Costa

Nosso espírito de vira-lata muitas vezes nos impede de olhar para os milagres dos santos de casa. A literatura produzida por escritores viventes em terras catarinenses, esta filha das sombras, sem-teto, habitante de sob a ponte, não poucas vezes produz textos de grande qualidade estética e ética, geralmente abandonados ao pó das estantes ou aos estoques esquecidos de editoras há muito sepultadas. Mas como é bom reencontrá-los!
Recentemente revisitei a obra de Flávio José Cardozo, nascido em 1938 na carvoeira Lauro Müller, mas radicado no Caminho dos Açores de Santo Antônio de Lisboa. A perspectiva de entrevistá-lo devolveu-me o prazer dos seus textos. Flávio é desses escritores que, não soubéssemos suas origens, desconfiaríamos mineiro, de tão quieto que vive. A literatura não é sua missão, por certo, o que lhe garante o direito de escrever solto, de publicar o que lhe pareceu acabado. Ganhamos nós, leitores. Desde seu primeiro livro de contos, “Singradura” (1970), percebemos um autor sério, no sentido do compromisso com uma proposta estética, mas, principalmente, com o valor da fábula, do causo e da cultura popular. Sério também quando procuramos compreender as lacunas de anos entre a publicação de seus livros. Se “Singradura” é de 1970, “Zélica e Outros”, seu segundo título é de 1978. Na década de 1980 algumas antologias de crônicas suas e, em 2005, “Guatá”, em cujos contos Flávio nos revela a terra da infância, ausência que estranhávamos em suas obras anteriores. Afinal, por que o menino que cresceu deslumbrando-se com os contrafortes da Serra do Mar, havia de dedicar praticamente toda sua escrita às pessoas e aos valores do mar? Memória é coisa séria, suspeitamos, e há de se amadurecer para bulir com ela. Da mesma forma, a vida precisa ser vivida para que dela possa nascer a literatura. E de vivências em vivências, Flávio foi construindo uma literatura sólida no conto e na crônica, fundamentalmente, com algumas espiadas na tradução (traduziu Jorge Luis Borges para o português tupiniquim), na literatura infantil e na memorialística. Uma literatura sólida, oferecida a conta-gotas.
Ao escrevermos sobre um autor, talvez, fosse prudente escrevermos sobre seus títulos recentes, possivelmente mais acessíveis ao leitor e passíveis de debate. Porém, neste revisitar da obra de Flávio José Cardozo, ocorreu-me dizer duas palavras sobre um dos seus livros cuja leitura provocou-me maior prazer. As duas palavras, portanto, teço sobre “Zélica e Outros” (1ª edição de 1978, pela Francisco Alves, e 2ª edição de 2001, pela FTD), obra premiada com o terceiro lugar no Prêmio Remington de Prosa (é, faz tempo!) e que reúne nove contos cujos títulos, por si só, apresentam-nos nove personagens tipo da realidade social açoriana experienciada pelo autor no transcorrer da década de 1970.
Em “Zélica e outros” o autor lança um olhar picaresco sobre o choque promovido pelo encontro (muitas vezes traumático) entre a cultura açoriana do interior de Florianópolis e o urbano prenhe de modernidades. Flertando com a oralidade e a elegância estética, e mesclando o trágico ao humor, Flávio nos apresenta um mundo em diluição, no qual o moderno traduz-se em desejo e derrocada, possibilidade e frustração. Quando lemos, por exemplo, o conto “Uliano Torres de curto porém vistoso reinado”, e conhecemos a história deste “santíssimo homem” que enamora-se de uma japona (esta palavra, ainda a usamos?) importada pelo comerciante Isaque Rebolo e posta à venda em sua loja de secos e molhados, deparamo-nos com o elemento alienígena capaz de enlouquecer àqueles que a este se entregam. O alienígena que permeia boa parte dos contos e que se apresenta como elemento desestruturante de uma “paz” local, assegurada pela tradição, ainda que esta tradição carregue consigo certa dose de violência, como é o caso do conto “Serenita Reis defendeu-se, fez muito bem”, que narra a história do casal Getúlio (bêbado e jogador contumaz) e Serenita (esposa servil). É o ingresso de uma afilhada órfã e ainda jovem no seio do casal, e a perspectiva da visita de uma irmã de Getúlio, moradora da distante Treze Tílias, que leva o protagonista do conto a relativizar seus valores morais e propor uma troca de favores sexuais entre a afilhada e um adversário de jogatina, a fim de preservar as aparências de um status social diante da irmã. Em “Simão Pedro na porta como um soldado”, por sua vez, a referência ao urbano/moderno enquanto elemento invasor e de desestruturação é muito mais direto, para não dizermos literal, quando o narrador descreve os turistas jovens que chegam em veículos motorizados perguntando por Garopaba, para por lá passarem férias e barbarizarem a honra das moças incautas do interior.
O tom picaresco dos contos, principalmente na construção dos tipos, do qual lança mão o narrador, dá ao trágico a dimensão de um ridículo comovente. Se por um lado há o reconhecimento dos valores da tradição por parte do narrador, por outro há também a percepção de seu anacronismo. Em “Zélica e outros” nos deparamos com um mundo que insiste em sobreviver ilha, quando isto já se torna impraticável. Ainda assim, simpatizamos com estes personagens de certa forma derrotados e acreditamos neles, mesmo reconhecendo a perversão dos seus atos.
Ainda que ambientandos no interior de uma vila de pescadores açorianos, e escritos há quase quatro décadas, a qualidade estética dos contos e a universalidade dos dramas vivenciados pelos personagens, aliado ao tratamento humorístico dado às fábulas, garante a atualidade de “Zélica e outros” enquanto obra que nos acessa a leitura de mundo, bem como sustenta sua qualidade literária. Para quem ainda não leu, vale a pena!

terça-feira, 28 de maio de 2013

A imolação de Domenico

A imolação de Domenico

Viegas Fernandes da Costa

A memória, esta bailarina sádica, devolve-me às imagens de "Nostalgia", dirigido por Andrei Tarkovsky. Não ao filme todo, por certo, mas para uma cena em especial, quando Domenico imola-se em chamas na praça apinhada de pessoas mudas ao som da 9ª Sinfonia de Beethoven. Antes da imolação, porém, discursa Domenico sobre um monumento a respeito da necessidade de se cultivar o desejo, o impulso humano para o grandioso. Fala algo relacionado à vontade de construir pirâmides, ainda que saibamos da nossa impossibilidade de construí-las. A audiência parece dormir, entretanto. Domenico então lança combustível sobre si e acende a chama que lhe consumirá o corpo. Ato extremo, e inútil. Toda a grandiosidade apologética da 9ª Sinfonia transforma-se em cacofonia. A tocha humana se lança do monumento para o chão, e ali se retorce vil, pequeno, desprezado.
A memória, esta bailarina sádica, ao me devolver às imagens de Nostalgia, deve saber por que o faz.


quinta-feira, 23 de maio de 2013

Memórias de inverno


Memórias de inverno

Viegas Fernandes da Costa

Bate um vento frio aqui, agora, prenúncio de frente polar. Hoje os bares fecharão cedo, e pela manhã o cheiro da naftalina impregnará cafés, ônibus e escritórios. O frio desta minha pequena aldeia, entidade sempre latente nos peitos aldeões, será ainda mais intenso, e com nostalgia devolve-me a memória o antigo comercial dos "Cobertores Parahyba", com seus três meninos de gorro, velas e bocejos, que via nas noites de inverno no casarão dos meus avós. 
Neste balé-memória, a vida parece bonita, e o frio de lá fora aquece o coração da gente.