quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Promessa

PROMESSA
Viegas Fernandes da Costa

A calçada indicando o rumo, seguia, como um autômato, vazio. Jamais caminhara por aqueles lados da cidade, escuros caminhos, que sempre temera. Mas qual a diferença, agora?
Os postes projetando luz baça e grandes sombras, dobrou a esquina e prosseguiu pelo beco, bastante estreito. Fazia frio, muito frio, e espantosamente carregava consigo um maço de cigarros. Quanto tempo? Vinte anos? Talvez, mas acenderia um agora. Parou, segurou o cigarro entre os lábios e com uma das mãos em concha protegeu a pequena chama que o fósforo alimentava. Encheu os pulmões de fumaça, olhou ao redor. Ingressara talvez em uma daquelas velhas histórias em quadrinhos: Gothan City? Manhattan? O cenário de prédios, tijolos à vista, muita sujeira. Não, não abandonara a pequena cidade em que sempre vivera, estava lá, como sempre estivera, mas agora... Bem, agora tudo mudara, que importa todo resto? Todo aquele barro proferira sua sentença, do – lo – ro – sa, e o que restara dele sobrevivia agora neste corpo e neste beco.
Parou!
O convite imundo da espelunca no letreiro da porta. “Há vagas”, estava escrito. Que importa? Estava frio, estava cansado, perdido. Entrar? Pagar um quarto? Arrumou seu casaco, puxou o zíper até o pescoço e entrou. No balcão a velha puta assistia ao filme da madrugada. Havia algo de familiar naquele rosto gordo, o buço vicejando sobre o lábio.
“Um quarto!”
“Sozinho?” – estranhou. “Não me vá sujar as paredes?”
“Quanto?”
“Quarenta, sem café, sem sabonete, sem jacuzzi!” – e soltou uma gargalhada vulgar.
Pagou, pegou a chave, segundo andar, quarto doze. A porta esperava ser soprada para cair, só casca daquilo que um dia fora tábua. O assoalho gemia.
“Não me vá sujar as paredes!” - ouviu ainda a velha gritar lá de baixo, e novamente a gargalhada vulgar. Mas que importa? Que importa meu deus?
Uma cama, um criado mudo, uma cadeira e uma pia de porcelana branca a um canto do cubículo. Os lençóis arrumados e sujos, úmidos! Não quis abrir a janela. Apagou a luz, despiu-se e se deitou. O contato da sua nudez com os lençóis sujos e úmidos subitamente o deixou excitado. Uma excitação mecânica, física, bizarra.
Estava vazio!
“Não te assusta...” – sussurrou-lhe a voz ao ouvido, doce, amorosa. “Estou aqui!” – disse, e levantou-se. Andou pelo quarto, e no escuro pôde ver-lhe a silhueta. Sim, pensou, era ela, estava lá, e sentiu-se tranqüilo.
“Posso te ver?”
“Não, ainda não. Quero apenas que saibas que estou aqui, que me sintas.”
“E todo aquele barro? Aquelas flores? Todo aquele rito? Tua boca colada? Teus olhos fechados? Tudo aquilo?”
“Sim...?”
“E agora estás aqui...”
“Sim...”
Aproximou-se devagar, sem fazer barulho. Pegou-lhe a mão e a guiou até seus seios.
“Reconheces?”
“Sim, são teus.”
“São teus” – e se deitou também na cama estreita. Acariciou-lhe o peito, o ventre, o sexo intumescido.
“Tu não me tocas além de onde minhas mãos colocarem as tuas. Tu não me beijas. Tu não me cheiras. São as regras.”
“Tanta saudade!” – e os lábios dela cobriram os seus. Sentiu-lhe os seios em seu peito, suas coxas em suas pernas. Ela se movimentava sobre seu corpo e foi sentando sobre seus quadris. Com as mãos encaixou seu sexo duro, e sentiu-lhe o conforto quente e viscoso do prazer. Sim, ela estava lá! Seu membro deslizava firme e lentamente para dentro dela, e ela o recebia com gemidos e palavras de amor. Não, velha puta, não sujaria as paredes, não sujaria nada! Gozaria e seria feliz, velha puta! Passaria o resto dos seus dias gozando, inundando de porra todo aquele seu vazio! Ela voltou! Porra, ela voltou!
Os movimentos eram mais rápidos agora, e ambos diziam-se coisas incompreensíveis, gemiam, urravam. Ela segurando-lhe firmemente os braços junto ao colchão.
“Tu não me tocas! São as regras!
E ele gozava! Gozava o que não gozara em toda a sua vida! O prazer, meu deus, o prazer! E a escuridão dando lugar a toda aquela claridade leitosa que o envolvia e transportava, que desfazia-lhe o corpo e o fazia correr como rios de leite para um grande mar...
!
“Olha cara, já ta na hora de ir! Tu me pagou uma diária, já tás aqui dois dias! Tu paga e some, ou te arrebento!” – a velha puta na porta vestia uma camisola curta e transparente que mostravam suas pernas de grossas e azuladas varizes e os enormes e flácidos seios que balançavam, descompassadamente, sobre sua gigantesca barriga à medida em que gritava.
“Para onde ela foi?”
“Ela, que ela? Não tem ela, cara, não tem ninguém! Tu já ta aí dois dias, gritando de hora em hora, espantando freguesia!”
“Ela, droga! Cadê ela, p – o – r – r – a !?”
“E esse cheiro, meu deus! Que cheiro de podre é esse? Que merda é essa?”
“Olha velha, ou tu fala, ou tu já era!” – ameaçou, nu, de pé, o dedo em riste.
“Já te disse, biruta, não tem ela, não tem ninguém. E não me ameaça não, porque tá pra nascer o corno que vai me ameaçar!”
Olhou ao redor. Desesperado andou até a janela, abriu-a e olhou para fora, para baixo, para cima. Como chove naquela cidade! Por todo lado o musgo, a umidade, as ruas escorregadias e perigosas.
“Ela tava aqui, tinha voltado!”
“Tu me deve mais quarenta.”
“Eu senti, Dona, eu senti o calor dela, o sexo dela, as mãos dela” – soluçava. As mãos esfregando a testa, puxando os cabelos. Apontava a cama: “Aqui ó, nós dois, ela sussurrando no meu ouvido e depois gemendo, gemendo de prazer.”
“Tá cara, tu paga e vai embora. Se tem ela, procura lá fora, porque já foi. Aqui só tem nós. Se queres, se tas precisado, posso dar pra ti, sei como é, ainda não desaprendi. Mas se não, então deu, porque já to de saco cheio de ti.”
“Quarenta né? Dois dias, fiquei dois dias?”
“É!”
Vestiu suas roupas com pressa. Do bolso da jaqueta tirou uma nota de cinquenta, pagou a dona do hotel e saiu. Na rua deixou suas pernas tomarem o caminho, ele mesmo era todo angústia e dúvidas. Ela estivera lá, sim, claro que sim. Sentiu-lhe a pele, sentiu-lhe o calor, ouviu-lhe a voz. A marca das suas mãos ainda anunciadas nos vergões em seus braços. Estava escuro, é verdade, mas vinte anos devem servir para reconhecê-la, como não? O mesmo gemido de sempre, as mesmas coxas em seus quadris, os mesmos seios. Mas onde se enganara então? Vira a boca colada, o esquife, todas aquelas pessoas chorando, os círios e depois todo aquele barro. Sim, alguém brincara consigo. Como chegara àquela espelunca? E aquela puta velha? Fora dopado, claro, algum espertalhão se aproveitando do seu vazio, da sua dor. Ainda volta, vai querer algo, aproveitar-se da situação. Se armou aquilo... mas tão real, meu deus! Não, não...
N – Ã – O !!!!!
“Senhor? Posso ajudar?”
“Ajudar?”
“Sim, senhor. Está tudo bem? Devo chamar alguém?”
“Onde estou?”
“No Paraíso Eterno.”
“Paraíso Eterno?”
“Sim, o cemitério.”
Olhou para o homem, baixinho, capa e boné para se proteger da chuva. Saíra da pequena guarita para dar assistência quando viu aquele sujeito chegar e cair de joelhos, gritando.
“O Paraíso Eterno, claro” – respondeu. As pernas o trouxeram. Procurou nos bolsos o documento de identidade da esposa. “Minha esposa, gostaria de visitar seu túmulo.”
O pequeno homem pegou o documento nas mãos e retornou para a guarita. Consultou o nome do documento no computador.
“Não há ninguém com este nome sepultado aqui.”
“Como não há ninguém? É minha esposa, foi sepultada aqui, velada naquela capela ali” – e apontou o pequeno prédio à esquerda do portão.
“Mas este nome não consta no cadastro.”
“Procure direito, droga!”
“Não grite, senhor.”
“Desculpe, estou nervoso.”
“Compreendo. Consultei novamente e nada consta. Mas já que afirma que sua esposa está aqui, podemos ir ao túmulo. O senhor me mostra onde fica e então arrumo no sistema” – e abriu o portão eletrônico para que o outro pudesse entrar.
O cemitério fora reformado, modernizado, as sepulturas mais antigas localizavam-se nos fundos da área, onde ficava a primeira entrada, quando ainda pertencia à comunidade protestante. Com a drástica redução de fiéis, fora vendido, porém os túmulos mais antigos deveriam ser preservados, conforme contrato. Por isso o funcionário estranhara quando percebeu que caminhavam justamente para aquela parte do cemitério.
“Faleceu há muito tempo, a sua esposa?”
“Há alguns dias.”
“Tem certeza disso?”
“E como posso não ter certeza?”
“Esta é a parte antiga, há mais de dois anos que não sepultam ninguém aqui.”
“Estás pensando que estou louco ou que estou mentindo? É aquela, a que tem o anjo.”
“Aquela? Não pode ser.”
“Como não pode ser?”
“Aquela sepultura está vazia. Há muitos anos uma jovem desapareceu e enterraram ali algumas fotos. Foi dada como morta, mas o corpo nunca foi encontrado. Suspeitava-se do marido, mas como não havia provas, fizeram o enterro simbólico e os vivos seguiram fiando seus dias.”
“Eu mesmo estava aqui, no enterro, é esta sepultura!”
“Impossível, há algum engano!”
“Mas que merda é essa? Quem tá te pagando? Qual o objetivo disso tudo?”
“Senhor, vá para casa, descanse. Quer que eu lhe chame um táxi?”
“Não, não quero táxi! Só quero saber o que está acontecendo!”
“O senhor perdeu sua esposa, deve estar confuso, talvez o cemitério seja outro ou, talvez, houve algum engano com as sepulturas. Ficarei com o nome da sua esposa, vou consultar o gerente. Quem sabe conseguimos descobrir o que aconteceu. Deixe-me seu telefone, qualquer coisa eu ligo.”
“Fiz amor com ela.”
“Como?”
“Transamos! Na noite passada esteve em minha cama.”
“Quem?”
“Minha mulher, voltou! Não sei como, vi ela ser enterrada aqui, todo aquele barro sobre o caixão, mas ela voltou!”
“Senhor, vá para casa, descanse.”
“Você não acredita, não é mesmo?”
“Sou apenas um funcionário do Paraíso Eterno!”
“Você não acredita, a puta também não! Mas eu sei, ah, como sei!” Começou a andar ao redor da sepultura, procurando algum sinal que indicasse a lápide violada. Mas nada! O granito antigo e mal cuidado estava coberto de musgos e liquens.
“Há muito que roubaram a placa de identificação. Ladrões de bronze, sabe como é, derretem nessas metalúrgicas clandestinas. A família nunca substituiu.”
“Não é possível!”
“Senhor, vá para casa, descanse! Volte amanhã e então veremos o que houve.”
Transtornado, consultou o relógio como que se estivesse atrasado. Olhou no fundo dos olhos daquele homem baixinho de boné e capa e viu que falava a verdade. Aquela sepultura não podia ser! Mas ele vira, esteve ali, toda aquela terra! Sem dizer palavra, retornou pelos estreitos corredores, desviou de túmulos, chegou ao portão e saiu. Caminhou sob a chuva – como chove naquela cidade! – e seguiu escorregando no calçamento molhado. Não viu ninguém, não pensou nada. Como máquina desesperada, apenas caminhou, cada vez mais depressa, cada vez mais cego, caminhou, trôpego, os olhos embaçados da chuva e do choro, raiva e desespero. Alguém brincava com ele, mas com que propósito? Com que propósito, meu deus? Não, tiraria tudo aquilo a limpo! Tiraria e não deixaria barato, poderiam apostar aqueles que o conheciam, sempre tão calmo, feliz em sua paixão. Chegou à porta de casa. Trêmulas e ansiosas, as mãos enfiaram-se em seus bolsos procurando pela chave. Precisava confirmar logo, os álbuns, vinte anos de fotografias! Os álbuns provariam que não estava louco, que ela de fato existiu. Antes, porém, ligaria para a sogra, diria que a filha o visitara, que estava de volta. Sim, o telefone, o número que nunca esquecera, da casa da namorada para quem ligava todas as noites: “alô?” “amor?” “querido! Sou eu” “Ah... saudades!” Vinte anos, e seus dedos memorizaram aquela seqüência de dígitos.
“Alô!”
“Sou eu! Desculpa ligar assim, mas ela voltou!”
“Desgraçado, como tem coragem?”
“Olha não quero incomodar, mas achei que ficaria feliz em saber que nossa menina voltou.”
“Cala a boca! Ca – la – a – bo – ca! Depois de tudo o que aconteceu, ainda tem coragem de me ligar? Eu – te – ma – to! Eu – te – ma – to! Ouviu bem? ” – e desligou.
A sogra destilando-lhe ódio, por quê? Ameaçou-lhe de morte, desligou-lhe na cara. “Eu – te – ma – to!” – disse. Matar? Ainda mais desconcertado, decidiu-se a ir até lá, bater-lhe a porta, pedir explicações, mas antes o álbum que urgia a sua frente, antigo, do tempo em que ainda havia por aí fotógrafos que trabalhavam em preto-e-branco, o momento revelado em prata. A despeito de todo o seu nervosismo, desespero até, passou a mão espalmada por sobre a capa aveludada, e por alguns minutos estacionou contemplativo, olhando para o volume às suas mãos, o rosto absurdamente sereno. Ao abrir o álbum, deparou-se com as primeiras fotografias, a igreja, o casamento, ela estava tão bonita envolvida em todo aquele véu, a festa, a família, os amigos. Apalpou os bolsos da jaqueta molhada e encontrou a amarfanhada carteira de cigarros. Restara um último, úmido, mas que conseguiu acender. Seus lábios se abriram e sentiu a nicotina tomando seus pulmões, todo seu corpo, revolvendo-se na garganta, expiando nas narinas. Um pouco mais angustiado, passou adiante, a viagem de lua-de-mel, fotos coloridas, ela nunca andara de barco e estava feliz, sorria. Virou a página, e mais uma, e outra, o primeiro ano de casados escritos na luz, os melhores momentos estavam lá. E depois? Não podia ser! Virou a página, e a próxima, não entendia! Desesperado, soltou o cigarro e começou a virar as páginas cada vez mais depressa, a quase rasgá-las, vazias! Todas as páginas vazias!
“Por que me procuras onde não estou?” – a pergunta atrás de si, a mesma voz insinuante,
“Estás morta!”
“Pareço morta?”
Podia vê-la agora. Primeiro o cheiro, aquele mesmo cheiro que impregnara o quarto do hotel, depois sua inequívoca silhueta próxima à porta. Era ela, certamente que sim! O roupão transparente entremostrava seu corpo, os seios ainda rijos, a barriga, a penugem escura do seu sexo.
“Pareço morta?” – repetiu.
“Não, mas eu te vi! Eu te vi morta, enterrada, todo aquele barro te cobrindo o caixão.”
“Viu mesmo?” – e começou a caminhar em sua direção, um clarão a rodeá-los.
“Estás morta!”
Ela se aproximou mais, deixou escorregar a camisola e, nua, juntou-se ao corpo dele. “Estou aqui!” – sussurrou-lhe ao ouvido, e tocou-lhe a orelha com a língua úmida; as mãos acariciando-lhe as costas. Tentou beijar-lhe a boca, mas ela afastou o rosto.
“Tu não me tocas, tu não me beijas, são as regras, lembras?” – e começou a despir-lhe as roupas ainda molhadas.
Apesar do calor que fazia dentro da casa, cada vez mais insuportável, ele tremia. Febre? Delírio? Prazer? Nu, ela o obriga a deitar e senta sobre seu sexo dolorosamente endurecido, segura-lhe os braços e cavalgava-o com a mesma fúria das línguas de fogo que lambiam as paredes da casa, escalavam cortinas, devoravam a mobília. E ele gozava! Gozava o que não gozara em toda a sua vida! O prazer, meu deus, o prazer! E o fogo dando lugar a toda aquela claridade leitosa que o envolvia e transportava, que desfazia-lhe o corpo e o fazia correr como rios de leite para um grande mar...
Ao redor da casa, reuniam-se os vizinhos que, extasiados ante o incêndio e a tragédia, ouviram alguém gritar. O som sufocado pelo telhado que desabou em chamas. Era tarde. No meio das cinzas do rescaldo, apenas aquele corpo carbonizado, estirado sobre um alçapão. Ao abrirem-no, os bombeiros, a surpresa. Que fazia um cadáver mumificado, nu, de mulher jovem, a pele desidratada e os lábios colados, guardado naquele porão?
Em meio à multidão, a velha puta cuspiu repulsa no chão. Não havia surpresa em seus olhos. Os seios flácidos repousando sobre sua gigantesca barriga. Liberta, virou-se e tomou a rua. Tirou do dedo a aliança que ele prometera, há vinte anos, e nunca lhe dera. Estava acabado, estava vingada. Ele tivera o que merecera, a outra também.
Havia algo de familiar naquele rosto gordo, o buço vicejando sobre o lábio.
* Viegas Fernandes da Costa é autor dos livros "Sob a luz do farol" (2005) e "De espantalhos e pedras também se faz um poema" (2008). Permitida a reprodução deste conto desde que mantido na íntegra e citado o autor.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O corpo pornografado: recortes da história do cinema pornô

Entrevista concedida a Maicon Tenfen e publicada em seu Blog , escritor e colunista do Jornal de Santa Catarina
Palestra sobre pornografia - 3
Maicon Tenfen



Reitero que às 16h do próximo dia 24, sábado, na sala D-004 da FURB, acontecerá a palestra O Corpo Pornografado, ministrada pelo historiador Viegas Fernandes da Costa (pensei em colocar uma foto dele no post, mas mudei de ideia ao encontrar a imagem ao lado). Abaixo, uma entrevista com o palestrante
1) Como será a palestra no sábado?

A palestra integra uma programação do grupo de estudos Clio no Cio, que vem debatendo a história do corpo em suas diversas manifestações socioculturais. Já aconteceram as palestras a respeito do corpo na moda, do corpo disciplinado e do corpo nas artes plásticas. A última tratará da literatura erótica. A nós coube a tarefa de discutirmos o corpo a partir do cinema pornográfico. Assim, a palestra “O corpo pornografado: recortes da história do cinema pornô” não está descontextualizada, mas integra um debate muito mais amplo. Neste sábado pretendemos olhar para o cinema pornográfico enquanto gênero narrativo, sua caminhada desde os stags do início do século XX até as produções mais recentes, feitas exclusivamente para o vídeo. Juntamente à exposição da história e das possibilidades de compreensão cultural, estaremos exibindo pequenos trechos de filmes pornográficos que nos permitirão perceber as diferentes estéticas empregadas no transcorrer da história do gênero. Como se trata de um tema ainda pouco discutido no Vale do Itajaí (na perspectiva acadêmica), a intenção é introduzir o debate e aventar as possibilidades de olhares sobre a sociedade a partir desse gênero cinematográfico.

2) Mais especificamente, que relações você faz sobre pornografia e sociedade?

O cinema pornográfico (e, atualmente, o seu correspondente em vídeo) é uma manifestação cultural como qualquer outra. Só existe porque é socialmente produzido e consumido. Assim, entender o cinema pornográfico enquanto manifestação social e cultural é reconhecer que o mesmo implica em saber. O cinema pornô constrói saberes e, assim, é lícito estabelecermos saberes a respeito dele. A pergunta que faço é: o que pode nos dizer determinado filme, ou determinada escola cinematográfica, a respeito da sociedade que o produziu e o consome? Ao olharmos para a história desse gênero de cinema, perceberemos que os filmes mudaram, não só nos seus aspectos estéticos, mas também nos aspectos narrativos e de tudo aquilo que gravita no seu entorno. Olhar para o cinerma pornô é, também, olhar para o seu público, para a indústria cultural que o produz.

3) Qual sua base teórica?

No Brasil, a temática ainda é pouco discutida. A partir da década de 90 dois importantes trabalhos surgiram a partir de pesquisas acadêmicas e que tratam especificamente do cinema pornográfico: o primeiro do professor Nuno Cesar Abreu, e em seguida o do antropólogo Jorge Leite Jr, que se detém especificamente sobre o bizarro (um gênero dentro do gênero). Estes dois trabalhos servem de base para a palestra. Na perspectiva filosófica, Michel Foucault, Sade, Bataille e Roger Chartier (cujo olhar que lança sobre a literatura – o da teoria da recepção – permite-nos olhar também para o cinema pornográfico). Nesta palestra, especificamente, talvez a perspectiva de Chartier fale mais alto.

4) Quando e como você começou a se interessar pela história do corpo?

Desde a minha graduação em História estive preocupado em compreender a história do corpo, sua constituição cultural e social. Este corpo que se normaliza, desnaturalizando-o. Porque o que é normal difere daquilo que se impõe enquanto natural. Comecei tentando entender a construção da normalidade a partir do estabelecimento do diferente, do anormal. Estudei os concursos de robustez infantil em Blumenau e o discurso eugenista do médico Afonso Balsini, e para tal vali-me das leituras que fiz de Foucault, Nietzsche, Roberto Machado entre outros. Foram estas leituras que me despertam para olhar o cinema pornográfico além da fruição. Primeiramente me chamou a atenção a disciplinação do cinema pornô no espaço de uma videolocadora especializada. Nas estantes notávamos (e ainda se nota) a compartimentalização do gênero em outros gêneros menores: soft core, interracial, gay, lésbicas, gang bang, zoofilia, fetiches com objetos, bondage, sadomasoquismo, escatologia, anomalias, geriatria etc etc etc. Essa fragmentação do gênero nos diz muito. O que é bizarro? O que é normal? O que é soft e o que é hard? Por que recentemente o creampie (gozar dentro) aparece como fetiche digno de figurar enquanto gênero do pornô? E por aí se desfia o novelo. Mas preciso dizer que não sou um especialista nos estudos da cinematografia pornô. Olho para o pornô a fim de compreender o corpo. Da mesma forma, interessa-me observar os discursos médicos, da psicologia, da política, da literatura, da historiografia e assim por diante. O corpo se constitui na multiplicidade de saberes, e estudá-lo implica em se adotar perspectivas transdisciplinares. O filme “Oh Rebuceteio!”, dirigido por Cláudio Cunha, pode me trazer tantos elementos para estudar e compreender as práticas que disciplinam e constróem o corpo quanto o conto “Uma enteada da natureza”, de Gertrud Gross-Hering (1879-1968).

5) De que forma você descreveria a importância de se discutir, na Universidade, um tema como pornografia?

Penso que esta resposta já está respondida nas questões anteriores. Mas vale dizer que a Universidade não tem o direito de se omitir diante das manifestações sociais e culturais. Se eu estivesse discutindo um tema como religião, por exemplo, ninguém perguntaria qual a importância da Universidade discutir o assunto, mas ao se tratar de pornografia, mais especificamente de cinema pornográfico, então os tabus aparecem. A Universidade não pode aceitar estes preconceitos. E mais, afinal, houve tempos em que ler Voltaire era acessar uma obra pornográfica, não é mesmo?

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Palestra "O corpo pornografado: recortes da história do cinema pornô.

O cinema pornográfico constitui-se ainda como ousada fronteira a ser pesquisada pelos historiadores. Desde os “stags” (curta-metragens produzidos no início do século XX), passando pelos nudies, beavers até os filmes propriamente hard-core da década de 1970, o cinema pornográfico tem na exposição e fragmentação do corpo sua estética fundamental. Sobreviventes ao patrulhamento moral e adaptando-se a diferentes tecnologias e suportes de imagem, esse tipo de cinema constitui-se como um dos mais rentosos produtos da indústria cultural, colocando em cena o corpo e suas múltiplas possibilidades de prazer.
Em “O Corpo Pornografado: recortes da história do cinema pornô”, discutiremos a caminhada do cinema pornográfico, estabelecendo alguns recortes estéticos e discutindo suas relações com as conjunturas sócio-culturais em que são produzidos. A discussão será ilustrada com cenas de stags da década de 1930, de alguns clássicos da década de 1970 (“Garganta Profunda”, “O Diabo na Carne da Srta. Jones”), de clássicos da pornochanchada brasileira (“Oh Rebuceteio!”) e de filmes contemporâneos produzidos para o suporte de vídeo (“Buttman”, “Beladona”).

A discussão será apresentada por Viegas Fernandes da Costa, historiador e escritor, especialista em Estudos Literários e pesquisador da história do corpo.


Quando: Dia 24 de Outubro às 16h na sala D-004, Campus I da FURB.


* Indicação etária: maiores de 18 anos.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Notas sobre a literatura catarinense 03

Esse “falso” enxaimel

Viegas Fernandes da Costa

Na edição passada, ao tratarmos do escritor Adolfo Boos Júnior, acabamos citando o romance “Quadrilátero”, publicado em 1986. “Quadrilátero”, assim como muitos romances da literatura catarinense, aborda o tema da imigração germânica, porém sob um viés diferente, já que ao invés de construir uma epopéia mítica, problematiza o processo civilizatório empreendido pela migração germânica, humanizado-o e denunciando suas mazelas. Boos, nesse seu romance, inspirou-se nas memórias do seu avô, cuja família migrara para Brusque, entretanto, queremos aqui fazer dialogar a migração germânica da narrativa de “Quadrilátero” com outros três romances, escritos em tempos diferentes, mas que têm em comum esse questionamento a um modelo de colonização e germanismo atribuído ao Vale do Itajaí e vendido pela indústria do turismo. Em Blumenau, especificamente, o poder público procurou construir, a partir de 1967, uma cidade performática, um simulacro desenvolvido para o consumo turístico onde – segundo Maria Bernardete Ramos Flores em seu livro “Oktoberfest: turismo, festa e cultura na estação do chopp” – “tudo deveria convergir para uma única voz, plasmada numa só imagem, cantada numa só língua: a germânica”. Assim, colocaremos aqui a literatura à serviço da desconstrução disso que poderiamos chamar de “falso enxaimel”, sem entretanto pressupor um verdadeiro enxaimel. O falso reside, justamente, na ideia de que possa haver um verdadeiro.
No romance de Boos percebemos o individualismo dos colonos germânicos, que apenas se unem quando essa união pode representar algum benefício privado. Não há altruísmo nos colonos de “Quadrilátero”. Vejamos o que nos diz o fragmento selecionado:
“Era cada um para o seu lado, sonhando a sua maneira e alimentando o sonho com a inveja, juntos apenas quando a necessidade obrigava alguém a pedir emprestado; em comum, somente o desencanto e a decadência, mas vistos apenas nos outros e raramente admitidos em si próprio (...). Não, não era uma família, pelo menos dentro da noção de família, união e coisas assim: porém, sob outro aspecto, era quase uma família, desunida, irmanada apenas na miséria e na revolta e – muito pior – na maldição de não se entregar, de não desistir; quem ajudava já estava pensando em pedir, cada um perseguindo o sonho a sua moda, vendo no vizinho tudo aquilo que não queria ser e – contudo – apresentando a mesma imagem.” (“Quadrilátero”, 1986, p. 389-390)
Neste mesmo sentido encontramos “Faina de Jurema”, romance experimental publicado pelo escritor Godofredo de Oliveira Neto em 1981. Godofredo nasceu em Blumenau, entretanto radicou-se no Rio de Janeiro. Ainda assim, Blumenau e Santa Catarina são cenários recorrentes em sua obra. No fragmento abaixo, novamente a constatação do individualismo germânico:
“A civilização dos seus antepassados, porém, junto com as suas qualidades, legou-lhes seus imensos defeitos. O espírito de comunidade funcionava unicamente nas relações entre o grupo e outro grupo de raça distinta. No interior do círculo o individualismo preponderava. Para se elevar, pisar sobre os ombros era a lei. A vitória assim obtida era agraciada com prêmios materiais. Isto era o mais importante. A noção de moeda e de seu poder colateral estava aqui tão às soltas como no velho mundo quando de lá partiram” (“Faina de Jurema, 1981”, p. 47)
Nosso terceiro fragmento pertence ao romance “Enquanto isso em Dom Casmurro”, do blumenauense José Endoença Martins. Publicado em 1993, “Enquanto isso...” foi escrito logo após o governo Collor, momento em que as indústrias têxteis de Blumenau atravessaram grave crise e demitiram milhares de trabalhadores. Assim, encontramos uma linguagem mais direta, contundente, que denuncia o simulacro da germanidade e todo peso da austeridade que os descendentes dos colonos procuram imprimir a si:
“Esta cidade também já foi alemã, italiana. Com alemães e italianos as enchentes anuais perderam leveza e novidade. Ganharam angústia. O enxaimel foi despejado da riqueza de detalhes estéticos que abrigava e virou simulacro empobrecido da nostalgia. A Oktoberfest adquiriu o teor escuro da revolta desesperada, da dor. Uma dor de cerveja e mijo azedos. Alegrias e festas exauriram-se. A abundância econômica despencou.” (“Enquanto isso em Dom Casmurro”, 1993, p. 10)
Por fim, temos Gregory Haertel e seu romance “Aguardo”, de 2008. Psiquiatra, Gregory é também autor de teatro. Aguardo é o nome fictício da cidade em que se desenrola a narrativa. No fragmento abaixo encontramos a desconstrução dessa arquitetura social que chamamos de enxaimel e a denúncia do homicídio identitário e cultural empreendido pela construção da hegemonia germânica:
“Encravada no meio de um vale, Aguardo é cortada em toda a sua extensão por um rio que raramente acorda. Até esta enchente de 1980 o rio despertara duas outras vezes. Daqueles despertares lê-se nos livros. Moram em Aguardo os que ali nasceram e os que para cá fugiram. Existiam índios e negros. Os primeiros foram exterminados juntamente com as capivaras, à bala. Os negros desapareceram. Não existem bancos em Aguardo. O dinheiro é guardado sob os colchões em sacolas de supermercado. As casas de Aguardo são limpas. As panelas de Aguardo são ariadas dia sim dia não e usadas uma vez por mês. As crianças de Aguardo são gordas (qualquer sinal de magreza é interpretado como desnutrição) e as suas notas são altas (o boletim vai de oito a dez. Notas abaixo destas são motivo para reprimendas públicas e conselhos aos envergonhados pais). Em Aguardo evita-se comentários sobre suicídios e deficientes mentais. Os retardados, em Aguardo, são como o tamanho dos genitais: só sabem sobre eles quem os tem.” (“Aguardo”, 2008, p. 31).
Há muito ainda por se dizer a respeito da relação entre a literatura e a construção/desconstrução de identidades, mas nosso espaço é limitado. Permanecem, entretanto, os fragmentos acima e o convite para a leitura desses livros que muito dizem sobre essa sociedade cuja verdade se espelha no enxaimel, e que por se construir enquanto verdade, necessita ser questionada e desconstruída.

* Viegas Fernandes da Costa é historiador e escritor, autor de "Sob a Luz do Farol" (2005) e "De Espantalhos e Pedras se Faz Um Poema" (2008). Edita o Sarau Eletrônico ( www.bc.furb.br/saraueletronico ) e mantém o Alpharrábio ( http://viegasdacosta.blogspot.com ). A coluna "Notas sobre a literatura catarinense" é originalmente publicada no jornal Expresão Universitária.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Notas sobre a literatura catarinense 2

Adolfo Boos Júnior

Viegas Fernandes da Costa

(Foto: Jornal Diário Catarinense / 2009)

Na edição anterior fizemos menção a um movimento que ficou conhecido como Grupo Sul, e dissemos também que o significado deste grupo para a história das artes e da literatura mereceria um capítulo à parte. Neste sentindo, trataremos hoje de Adolfo Boos Jr, autor que, apesar de não ter sido um dos fundadores do grupo (participou dele quando este já estava quase encerrando suas atividades), carrega na sua obra o espírito daquele movimento, seja por seu caráter de experimentação, seja na radicalidade da sua proposta artística. Para Boos, em entrevista concedida ao Jornal Rascunho, “o escritor não tem que descer ao patamar do leitor, ele tem que trazer o leitor mais para perto da sua linguagem”. Ou seja, da mesma forma como os modernistas do Grupo Sul, na literatura de Boos o que importa é o uso que se faz da linguagem associado àquilo que se tem a dizer, o rigor estético e social do texto, sem concessões aos leitores e ao mercado editorial.
Também os modernistas do Grupo Sul, na segunda metade da década de 1940, queriam discutir e produzir uma arte comprometida com a ousadia estética e de linguagem. Ainda que tardiamente (o movimento modernista brasileiro data dos anos 20), intelectuais como Salim Miguel, Eglê Malheiros, Ody Fraga, Antonio Paladino, Aníbal Nunes Pires entre outros, àquela época jovens entusiastas, rebelaram-se contra o marasmo no debate artístico florianopolitano (na literatura representado pelo realismo e pelo parnasianismo), e organizaram-se no Círculo de Arte Moderna. O CAM foi responsável por uma série de discussões e produções que oxigenaram a atmosfera cultural de Florianópolis. Em 1948 lançou a Revista Sul, que existiu por impressionantes 30 números e teve sua última edição lançada em 1958 – ano em que oficialmente se encerraram as atividades do Grupo Sul. Além dessa revista, o CAM criou um grupo de estudos teatrais, montando peças de Pirandello, Bernard Shaw, Sartre, Ody Fraga, entre outros; organizou o primeiro clube de cinema de Santa Catarina; produziu o primeiro longa-metragem catarinense, o filme “O preço da ilusão” (1958), com direção de Nilton Nascimento; contribuiu com a criação do Museu de Arte Contemporânea de Florianópolis; e fundou a Edições Sul, que publicou oito livros, dentre os quais está “Teodora & Cia” (1956, contos), primeiro título de Adolfo Boos Jr.
Recentemente, Adolfo Boos Jr. concedeu longa entrevista ao Sarau Eletrônico, e nesta relatou seu encontro com o Grupo Sul. Segundo Boos, corriam os anos 50, e numa certa madrugada, foi com um amigo a um bar de Florianópolis. Lá encontrou um grupo de artistas reunidos, entre eles estava um “baixinho”, Salim Miguel: “De repente esse baixinho levanta, sobe na cadeira, trepa em cima da mesa e recita uma coisa que eu nunca tinha ouvido em minha vida, que achei maravilhosa e, mais tarde, vim a saber que era o ‘Poema de sete faces’ do Carlos Drummond de Andrade. Então tu vês, madrugada, o sol querendo passar por cima do morro, a baía começando a clarear e um cara trepado em cima de uma mesa recitando o “Poema de sete faces”! Isto é inesquecível! E a conversa derivou para o ‘ele gosta de escrever’. Acabei confessando – confissões de bêbado! – que eu tinha alguma coisa escrita.” Deste primeiro encontro se evoca a carreira literária de Adolfo Boos Jr, cuja obra consolida-se hoje como uma das mais densas, inventivas e viscerais da literatura brasileira.
Após a publicação de “Teodora & Cia”, em 1956, Boos atravessou um longo interregno sem publicar novos títulos. Apenas 24 anos depois, em 1980, lançou seu segundo livro, “As Famílias”, também de contos e que recebeu o Prêmio Virgílio Várzea. Em 1986, os livros “A Companheira Noturna” (Contos) e “Quadrilátero” (Romance) receberam, respectivamente, o terceiro e o segundo lugares na Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, feito inédito em um dos principais prêmios literários do país. Depois vieram “O Último e Outros Dias” (contos, 1988), “Um Largo, Sete Memórias” (romance, 1997), “Presenças de Pedro Cirilo” (romance, 2001) e “Burabas” (romance, 2005). Lista que deve aumentar em breve, já que, na experiência dos seus 78 anos de idade, encontra-se em plena atividade criativa.
Leitor e admirador do escritor William Faulkner, o estilo de Boos, tanto no conto quanto no romance, é sempre denso, caracterizado pelo fluxo de memória, a não-linearidade, os múltiplos focos narrativos e o diálogo com a história. Em “Quadrilátero”, por exemplo, o cenário é a imigração alemã em Santa Catarina. Normalmente, os livros que tratam dessa imigração olham para o imigrante na perspectiva do herói, do homérico. Já em “Quadrilátero” temos a perspectiva humana, visceral e até mesmo escatológica da imigração. Na entrevista ao Sarau Eletrônico, Boos disse, “pensei justamente num romance que fosse o oposto. Deixar de ser uma epopéia para ser aquela colonização a que meu avô se referia.” – seu avô nasceu em Brusque (Guabiruba) e sua avó na Polônia.
Em “Quadrilátero” o projeto civilizatório do imigrante europeu fica submetido à natureza inóspita e às necessidades fisiológicas do corpo. Ao narrar a viagem de um grupo de alemães que sobem o rio Itajaí-Açú em busca da colônia fictícia de Karlsburg, o autor nos apresenta a personagens cansados e doentes, bestializados, que só não desistem do empreendimento por vergonha de assumirem sua derrota pessoal. Ficamos sabendo dos sacrifícios a que eles são submetidos, seja pela natureza, seja pela desinteria, pela fome, pelo cansaço e pelo medo. São a vergonha e o medo, apenas, que diferenciam os personagens dos demais animais. E a colônia retratada neste romance, em nada lembra as alamedas margeadas por casinhas em enxaimel. Em Karlsburg as casas são pobres, sem conforto, de chão batido, cujas dependências são divididas entre humanos e animais. São a miséria e a barbárie revestidas pelo verniz da civilização.
Há muito para se dizer a respeito da literatura de Adolfo Boos Jr, cabe-nos entretanto encerrar. Mas não sem antes lançar o convite para que a obra deste herdeiro do Grupo Sul seja lida e discutida com a atenção que merece

* Viegas Fernandes da Costa é historiador e escritor, autor de "Sob a Luz do Farol" (2005) e "De Espantalhos e Pedras se Faz Um Poema" (2008). Edita o Sarau Eletrônico ( http://www.bc.furb.br/saraueletronico ) e mantém o Alpharrábio ( http://viegasdacosta.blogspot.com ). A coluna "Notas sobre a literatura catarinense" é originalmente publicada no jornal Expresão Universitária.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Túnel do tempo

Na seção Túnel do Tempo, lembramos a crônica "Os princípios da sagrada ordem canibal-monopolista", publicada no número 009 da "Crônica da Semana", em agosto de 2002. Esta crônica não está integrada ao livro "Sob a luz do farol".
OS PRINCÍPIOS DA SAGRADA ORDEM CANIBAL-MONOPOLISTA

Viegas Fernandes da Costa

Hoje não quero ser literário, quero ser panfletário! "Chuta o balde, pode chutar!" - instiga o Ernesto, cuja função é mesmo de instigar. E, autorizado que fui por meu "guru", chutá-lo-ei, não o Ernesto, mas o balde. Chute tonitruante, trovão, chute de escárnio, e tanta indignação por conta da profecia... Profecia?
"Não está longe o dia em que três bandeiras de listras e estrelas marcarão em três lugares eqüidistantes a extensão do nosso território: uma no Pólo Norte, outra no Canal do Panamá e a terceira no Pólo Sul. Todo o hemisfério será nosso de fato, como, em virtude de nossa superioridade racial, já é nosso moralmente." O nome do profeta? William Taft, antigo presidente dos Estados Unidos que, em 1912, antecipava, com palavras, os atos do "filho do velho" (ao leitor peço desculpas se não sou de todo claro, mas certamente não será preciso recorrer ao Oráculo de Delfos para se descobrir quem é o "filho do velho"). Mas esta não é a única, muitas foram as profecias proferidas, e muitos também os profetas, e o "filho do velho" é justamente aquele que veio ao mundo para, como títere preso aos barbantes do canibalismo "Yankee", levar adiante os desígnios da Sagrada Ordem Canibal-Monopolista, fundada por James Monroe, santo que em 1823 vaticinou: "a América para os americanos".
Há de se lembrar aqui que a Teogonia da Sagrada Ordem Canibal-Monopolista explica que o primeiro homem e a primeira mulher, fundadores do mundo e progenitores do "Bem Supremo", foram criados por "$" - Deus inominável - para espalhar a civilização pelo "imundo", mas que a desobediência dos "Perissodáctilos" que habitam o imundo, obrigou "$" a enviar seu neto, Theodore Roosevelt, para dirigir o povo escolhido. Foi Roosevelt, inspirado pelo "Bem Supremo", que ensinou ao seu povo que "é necessário falar macio e carregar um grande porrete". Este ensinamento maior da Sagrada Ordem Canibal-Monopolista passou a ser conhecido pelo misterioso nome de "Big Stick" (grande porrete), e o "filho do velho", iluminado pela força das gerações anteriores, aprimorou o princípio divino do "Big Stick", e passou a chamá-lo pelo cabalístico nome de "ALCA".
Antes de continuar chutando meu balde, que é de lata e por isso faz barulho, Ernesto me alerta para a necessidade de explicar quem são os "Perissodáctilos", já que poucos são os iniciados nos mistérios "Canibal-Monopolistas". Pois bem, segundo o "Livro Sagrado Henry Fordiano" (parece que o autor foi um dedicado monge da "Subordem Maquinarista da Produção em Série e Coisificação Perissodáctila"), no princípio de tudo, quando o povo escolhido, perseguido e escravizado pelos princípios retrógrados do "caos", embarcou no navio "Mayflower" e peregrinou pelo "Grande Oceano" em busca da "Terra Prometida", episódio este que ficou conhecido como "o Êxodo do povo de $", ocorrido em 1640, a grande massa de terra estava dividida entre os "Americanos" e os "Perissodáctilos", também conhecidos por "latinus" (havia ainda dois outros povos, os "nativus" e os "africanus", mas estes passavam pelo processo de miscigenação com os "latinus"). Os "Perissodáctilos" ficaram assim conhecidos devido a função que o "destino manifesto" os havia reservado: trabalhar. Isto porque os "Perissodáctilos" primitivos (os cavalos, as antas e os hipopótamos), segundo as explicações fordianas, possuíam características muito semelhantes aos "latinus", ou seja, a força e a capacidade de trabalho dos cavalos (desde que estimulados pelo relho), o retardo mental (que no sagrado livro é também denominado de burrice e inocência) das antas, e a pachorra dos hipopótamos. Por isso as profecias de Taft e Monroe. Claro que uma parte dos "Perissodáctilos" não concorda com isso, a outra parte ou vive na inanição, e não se dá conta do que acontece, ou "evoluiu" de tal forma, segundo os princípios "Canibal-Monopolistas", que se aliou a estes, e contribui com a escravização "perissodactiliana".
Bem, como dissemos acima, o "filho do velho", títere que é e obedecendo desígnios maiores, buscando levar adiante o "princípio do destino manifesto" do profeta Monroe, quer convencer os "Perissodactilianos" de que um Acordo de Livre Comércio entre as Américas (ALCA) elevaria as nossas condições de vida e nos elevaria à condição de "Americanos"; pertenceríamos ao rebanho de "$". Eu, Perissodactiliano que pensa e nada tem a ver com as antas e os hipopótamos (com os cavalos talvez), berro que é mentira! Mesmo porque se fosse verdade o "filho do velho" teria que mandar derrubar o muro que existe entre seu quintal e o quintal dos "Perissodactilianos Mexicanus". No entanto o muro está lá, cada vez maior e mais bem vigiado, a fim de conter a invasão do "imundo" no solo roubado pelos descendentes dos patriarcas do "Mayflower".
Enfim, às profecias da "Sagrada Ordem Canibal-Monopolista", que nos devora a fim de se apropriar daquilo que os "Perissodáctilos" têm de melhor, respondo com meu tonitruante "Não!" e com o balde que continuarei chutando até ser ouvido.

Blumenau, 31 de agosto de 2002

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Notas sobre a literatura catarinense 01

(Foto: Darlan Jevaer Schmitt / Sarau Eletrônico)

Salim Miguel

Viegas Fernandes da Costa


Muito já se debateu sobre a existência – ou não – de uma literatura catarinense. Há quem prefira falar de uma literatura feita em Santa Catarina, há quem prefira negá-la, defendendo sua inclusão no contexto da literatura brasileira. Afinal, não nos soa comum o termo “literatura paulista” ou “literatura carioca”, por exemplo. Então, por que esta necessidade de classificarmos a produção dos autores nascidos ou radicados em Santa Catarina como algo diferente daquilo que se pratica nacionalmente? De nossa parte, agrado-nos falar de uma literatura produzida a partir de Santa Catarina mas que se impõe, acima de tudo, enquanto Literatura. Porque, para o texto que se pretende literário, não há fronteiras geográficas; o desafio é, sempre, o de transformar em “universal” o “particular”, e vice-versa.
A introdução se justifica para explicarmos o que pretendemos neste espaço: discutir e apresentar livros e autores que falam a partir de Santa Catarina, ou porque nasceram neste estado, ou porque neste se radicaram. Assim, esperamos contribuir na desmistificação da tese de que não existe qualidade ou relevância naquilo que escrevem e publicam os autores catarinenses. Há muita coisa ruim, é verdade, mas também é verdade que há muita coisa boa, livros que nada deixam a desejar à Literatura (esta mesma, com L maiúsculo), como é o caso do romance “Nur na Escuridão”, de Salim Miguel.
Nascido no Líbano em 1924, Salim Miguel chegou ao Brasil ainda criança. Depois de viver sua adolescência no município catarinense de Biguaçu, mudou-se para Florianópolis onde, nas décadas de 1940 e 50, integrou o movimento modernista nas artes catarinenses: o Grupo Sul – sobre o significado deste Grupo para a história das artes e da literatura precisaremos de um capítulo à parte. Juntamente com sua esposa, a também escritora Eglê Malheiros, Salim escreveu o roteiro do primeiro longa-metragem catarinense, o filme “O Preço da Ilusão”. Em 1965, depois de ser preso pelo Regime Militar (experiência que conta no livro “Primeiro de Abril: Narrativas da Cadeia”), mudou-se para o Rio de Janeiro, onde editou a revista Ficção e trabalhou para a Editora Bloch. Retornou para Santa Catarina em 1979. Jornalista renomado com passagem por diversos jornais e revistas nacionais, dentre as quais está a extinta Manchete, Salim Miguel dirigiu também a editora da Universidade Federal de Santa Catarina e a Fundação Cultural Franklin Cascaes. É autor com mais de 30 livros publicados, entre contos, crônicas, romances, depoimentos e impressões de leitura, dos quais se destacam: “A Morte do Tenente e Outras Mortes”, “A Voz Submersa”, “Nur na Escuridão”, “A Vida Breve de Sezefredo das Neves, poeta” (indicado para o Prêmio Jabuti), “Mare Nostrum” e “Jornada com Rupert”. Recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela UFSC e foi reconhecido como intelectual do ano pela União Brasileira dos Escritores e Folha de S. Paulo, recebendo o Troféu Juca Pato. Recentemente recebeu o prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra, reconhecimento máximo conferido pela Academia Brasileira de Letras.
Difícil indicar apenas um livro de Salim Miguel, cuja obra variada e consistente, explora diferentes gêneros e, em alguns momentos, ousa o experimentalismo, como no caso da novela “As Confissões Prematuras”. Entretanto, queremos sugerir aqui a leitura do romance “Nur na Escuridão”, cuja primeira edição veio à luz em 2004.
Em “Nur na Escuridão” (Nur, em árabe, significa luz), Salim conta a história de uma família de imigrantes árabes que emigra para o Brasil, na década de 1920, e depois se instala definitivamente em Santa Catarina. Elementos autobiográficos do autor se misturam à ficção, aspecto recorrente em suas obras, o que confere a este romance um grande nível de dramaticidade e humanidade. Logo no primeiro capítulo somos apresentados à angústia de um pai de família libanês que desembarca com toda sua família e pertences no porto do Rio de Janeiro, sem conhecer uma palavra de português ou qualquer outro idioma que não fosse o árabe, desprovido de informações sobre o Brasil e, no bolso, apenas um papel com o endereço incorreto de um parente seu. O torvelinho de pessoas, a barreira da língua e da cultura, os filhos, esposa e pertences espalhados na calçada e a indefinição de um destino, dão a idéia das dificuldades que estes personagens enfrentarão na construção de suas histórias em terras catarinenses.
Ao abordar literariamente a imigração libanesa, Salim Miguel, contribui com o aprofundamento do debate acerca da constituição deste povo miscigenado, dá um caráter de novidade a uma literatura que sempre teve nos elementos germânico, açoriano e italiano sua principal matéria-prima e dialoga inteligentemente com a história brasileira.
Vale a pena ler “Nur na Escuridão”, um clássico nascido das mãos e da criatividade deste líbano-biguaçuense.

* Viegas Fernandes da Costa é historiador e escritor, autor de "Sob a Luz do Farol" (2005) e "De Espantalhos e Pedras se Faz Um Poema" (2008). Edita o Sarau Eletrônico e mantém o Alpharrábio.
A coluna "Notas sobre a Literatura Catarinense" é publicada mensalmente no jornal Expressão Universitária.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Exposição fotográfica "Mulheres" de Ricardo Machado

MULHERES

Texto de Viegas Fernandes da Costa
Fotos de Ricardo Machado

Eis então a luz que grafa o que narra o olhar. Porque não se pretende o narrar cego, ainda que mudo de palavras. O verbo existe junto aos olhos que miram a objetiva e ordenam à ação o mecanismo que eterniza um momento, uma ideia, uma possibilidade. Ao falar das mulheres deste mundão por onde já vagaram os pés e as retinas de Ricardo Machado, destas mulheres na Índia, no Moçambique e na Suazilândia, fala-nos o historiador e o cronista das mulheres às margens do Ganges, em prece, às margens da estrada, em espera. A prece poderosa a ungir o corpo na fé e que une as mãos da tibetana a rezar a reza exilada em Dharamshala; a espera que mira os olhos no futuro incipiente e assustado em uma Xai-Xai perdida na savana africana, mas que é, também, a espera nossa de cada dia que, se atenta, também imobiliza. E se varrem as mãos em Varanasi, as mãos também clamam silêncio em Xipamanine, na mesma feira em que mãos selecionam os víveres do amanhã.
A perpassar toda a margem, há o colorido, das roupas, das frutas, de um sorriso e seu pulcro adorno, do tecido que envolve o filho às costas de uma mãe que segue tangida pela existência, donde não se é possível recuar. É a mulher telúrica, de pés descalços, esta que emerge da narrativa, das retinas de Ricardo Machado. A mulher mãe, a mulher trabalhadora, a mulher turba e, ainda, a mulher sombra em uma Goa que bem poderia ser qualquer outro lugar. Porque ser mulher é, ainda, ser um lugar; é, ainda, ser a margem, mas também a cor, a fé, o ventre e a palavra.
Principalmente a palavra, como esta que se quer parir nos lábios e na língua da feirante que posa para a máquina em um dia de sol em Orcha.




quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Da série "Pequeno álbum"

REMINISCÊNCIA
Viegas Fernandes da Costa

Meu avô tirando os dentes postiços e querendo me morder com suas gengivas nuas. Minha avó me obrigando a vestir aquele pulôver verde naquele dia de calor. O calor não estava no dia, mas no carinho da proteção; a nudez não estava nas gengivas, mas na inocência da infância.
(Da série "Pequeno álbum")

Sobre o Nosso Inverno (2)

Sobre violinos e invernos (2)

Viegas Fernandes da Costa

Há muitas maneiras de se atribuir sucesso a um evento, e o Nosso Inverno, ocorrido no último final de semana, foi um evento bem sucedido, não tanto pelo público que congregou (e que lotou o Teatro Carlos Gomes, inclusive durante as atrações que vararam a madrugada), mas principalmente pelo seu caráter de protesto contra o descaso do poder público ante as manifestações artístico-culturais e pela ausência do Festival Internacional Universitário de Teatro.
Se por um lado houve pouca novidade artística no evento, considerando que a maior parte das apresentações já foi apresentada à comunidade em outras oportunidades, por outro, quem esteve presente ao evento percebeu que, definitivamente, não se ouviu violinos e, se há um Titanic na Fundação Cultural de Blumenau, a maior parte dos artistas de Blumenau (ao menos aqueles que honram sua arte e sua profissão) não deseja embarcar nele. Afinal, a arte é não só uma manifestação estética, mas fundamentalmente ética.
Se houve um certo desconforto dos organizadores em assumir este caráter de protesto do Nosso Inverno – expresso em matéria do Santa do dia 28 de julho –, a crítica ficou clara e escancarada durante o evento, e veio dos próprios artistas. Já na noite de sábado, os grupos de teatro de Blumenau, ineditamente reunidos em um mesmo espetáculo, invadiram o grande auditório do Carlos Gomes para apresentar uma peça-manifesto, contundente crítica e tocante apelo aos administradores públicos, empresários e sociedade em geral, denunciando o homicídio cultural perpetrado em nossa cidade.
Tom que pautou boa parte das apresentações culturais, fomentou a realização de um abaixo-assinado e que se consolidou na tarde de domingo, momento em que os grupos de teatro promoveram uma mesa-redonda para discutir políticas culturais e que contou com a ausência da presidente da Fundação Cultural, Marlene Schlindwein, e do prefeito João Paulo Kleinübing. Ausências que nos dão a dimensão do descaso para com os artistas e a arte produzida a partir de Blumenau.
Por outro lado, ainda permanece latente a necessidade de organização e diálogo dos artistas entre si para que este Nosso Inverno supere a condição de evento e se transforme, definitivamente, no movimento que pressione por uma política cultural municipal, que já tarda.
Publicado no Jornal de Santa Catarina, Blumenau, 05/08/2009.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Sobre violinos e invernos

Sobre violinos e invernos

Viegas Fernandes da Costa

Há muito não via inverno tão frio em Blumenau. Para ser mais específico, há 22 anos que não fazia tanto frio na Colônia, época em que surgiu o Festival Universitário de Teatro de Blumenau, evento que por todos estes anos aquecia-nos durante o inverno e que em 2008 fora alçado à categoria de internacional, trazendo grupos de diversos estados brasileiros, países latinoamericanos e de Portugal, e suspenso neste ano por falta de recursos. E o mais curioso é este silêncio, esta falta de manifestações a respeito da ausência do FITUB, e o anúncio de que parcela da classe artística blumenauense está se organizando para realizar o Nosso Inverno, pretensa “virada cultural” que conta com o apoio de diversas entidades, incluindo aí o Teatro Carlos Gomes, que cedeu gratuitamente suas instalações para a realização do evento. Silêncio que começou a ser quebrado na blogsfera e que o escritor Maicon Tenfen começou a discutir no Santa (23/07/09). Vale lembrar, nenhuma destas entidades que agora oferecem integral apoio ao Nosso Inverno, ofereceram-no quando do anúncio da falta de verbas para o Festival.
Segundo Eduardo Deschamps, Reitor da FURB, em carta publicada no blog de Tenfen, para 2010 o FITUB está orçado em mais de R$ 767 mil, dos quais R$ 537 mil deverão vir da contrapartida da própria Universidade. E Deschamps escreve ainda: “a Universidade tem grandes dificuldades de dispor anualmente em seu orçamento destes mais de R$ 500 mil”. Ou seja, não há garantias para o retorno do FITUB no próximo ano.
Seria bom, seria ótimo que todos sentíssemos o enorme buraco deixado pela ausência do FITUB este ano. Seria ótimo que o TCG viesse a público reconhecer que nada fez para manter a periodicidade do festival, e que nós, artistas e sociedade, lavamos nossas mãos. Blumenau simplesmente negligenciou um dos seus patrimônios culturais mais relevantes, que fomentava arte, debates, formava público e propiciou o surgimento do curso superior de Artes Cênicas.
Não quero ser como aqueles maridos frustrados que afogam suas mágoas na cachaça do botequim. Estarei no Nosso Inverno, mas não beberei dessa cachaça, porque meu luto é pesado, porque há um buraco que é enorme, porque sopra um vento gélido em blumenau e porque Maicon Tenfen tem razão, tudo indica que estaremos, mais uma vez, tocando violino aos afogados neste enorme Titanic.

* Viegas Fernandes da Costa, historiador e escritor.

domingo, 5 de julho de 2009

Túnel do Tempo

Ernesto, o sorumbático poeta sem livros, talvez seja meu personagem mais conhecido. Por diversas vezes destilou seu mau humor na coluna Crônica da Semana, e protagoniza várias crônicas do livro "Sob a Luz do Farol" (2005). Na crônica que segue (pouco conhecida pelos leitores), publicada em março de 2004, Ernesto e Faustino (destemperado e frustrado amigo) resolvem fundar uma nova e inusitada religião. Confira.

A IGREJA DIONISÍACA DA SAGRADA CLOACA OFIDIANA

Viegas Fernandes da Costa

Não consigo me lembrar se já contei para vocês, mas o Ernesto é ateu. Sim, eu sei, isso não é coisa que se declara em crônica, principalmente porque possui ele muitos admiradores piedosos que devem agora estar profundamente decepcionados. Desculpem-me, mas o próprio Ernesto não faz muita questão de esconder o fato. Tanto que por estes dias encontrei-o à Praça do Estudante discutindo religião com o Faustino, que depois da sua última – e única – desventura amorosa, deu para duvidar das coisas do mundo. Discutiam como dois bêbados alegres, suas palavras ecoando nos morros desta cidade. Falavam da igreja que pretendem fundar. Como? Não entendeu? Igreja sim, apesar de descrentes! Mas antes de me perder nos detalhes deste profano projeto, há de se fazer algumas considerações a respeito do ateísmo ernestiano.
Nosso amigo não é destes que se tornam ateus por modismo. Ah, isto não! Se caiu na descrença, não foi porque quis. Aliás, se pudesse escolher, seria um beato, crente até debaixo d’água, um anacoreta! Mas não teve jeito! Uma dúvida aqui, outra ali, e quando viu... pronto! Matara Deus! Outro dia confessara-me que nos tempos em que ainda não era assassino de Deus, vivia melhor. Afinal, não havia medo ou problema que não entregava para o cidadão lá de cima. Agora não, contava apenas consigo próprio, com sua desrazoada razão. E olhem, pela cara que fez, vê-se que não é nada fácil nadar em alto mar sem uma tábua que lhe sirva para o descanso. Tanto é verdade que já visitou tudo que é templo religioso e terreiro de umbanda, mas até agora nada de alguém convencê-lo. Até com o Inri Cristo já andou conversando. Gosta de afirmar que tudo não passa de mero exercício de observação antropológica, do que duvido. Para mim é busca teológica mesmo! Bom, mas isto também não interessa, até porque você, amigo leitor, amiga leitora, que agüentou chegar até aqui, deve tê-lo feito para saciar a curiosidade a respeito da tal igreja sobre a qual os dois falavam na Praça do Estudante, não é? Então tá, eu conto!
Começo alertando para o fato de que de original a igreja tem muito pouco, a começar pelo nome, um plágio barato. Chama-se “Igreja Dionisíaca da Sagrada Cloaca Ofidiana”, corruptela do nome de uma outra igreja que encontraram na Internet e que foi criada por um certo “Apóstolo Édio” - que pela hora anda desaparecido. “Emprestaram” o nome, e o próximo passo é escrever os textos sagrados, tarefa a qual se dedicavam na Praça do Estudante, quando os encontrei.
A atividade era curiosa. Retiravam papeizinhos de uma dessas vulgares sacolas de supermercado e transcreviam o que estava escrito para um enorme e vistoso volume de páginas douradas e capa de couro. Disseram-me que seguiam o exemplo de Tristan Tzara, aquele poeta romeno que liderou o dadaísmo e que dizia que para se fazer um poema tudo que bastava era recortar aleatoriamente várias palavras de um jornal, misturá-las num saco e depois transcrevê-las para o papel na ordem em que fossem sendo retiradas. Pois então, estavam escrevendo a “Bíblia Dadaísta Cloaco Ofidiana”! Para tanto, recortaram cuidadosamente versículos do Livro dos Mórmons, do Alcorão, da Bíblia Cristã, do Kama Sutra além de muitos outros trechos de livros das mais diversas crenças religiosas – consta-me que até do “Livro dos Mortos” egípcio - e depositaram-nos no interior daquela sagrada sacola de supermercado que eu até posso nomear, desde que o jabá seja bom! E tudo isso seguindo o rigorosíssimo ritual cloaco-ofidiano. Afinal, se criavam uma igreja não podiam descuidar do ritual, não é mesmo? Certamente passarão o resto do ano transcrevendo os papeizinhos até que as tantas páginas douradas fiquem preenchidas, passatempo para as férias.
Quanto aos rituais iniciatórios e outros aspectos ritualísticos e doutrinários, nada há de concreto. Esperam a prometida anunciação do Oráculo de Baco, a se pronunciar na próxima taça de Cabernet que beberão no Farol. Certo mesmo só a austeridade moral promovida pelo pagamento do dízimo, que libertará o fiel de todo e qualquer sentimento de culpa que lhe possa acometer, e a substituição do copo de água sobre o monitor de televisão pela taça de vinho sobre o tampo da mesa. Ah sim... e a beatificação de Macunaíma, primeiro santo cloaco-ofidiano!
Por hora, é isto que há.
Se a igreja vai dar certo, não sabemos. Mas o projeto é ambicioso e não será por falta de fiéis que sucumbirá. O maior problema será resolver a dissidência que já se forma entre os dois patriarcas, envolvidos em disputa política acirrada para definir quem será o primeiro papa da nova fé. Faustino até já ameaça com a fundação da Igreja Dionisíca da Sagrada Cloaca Ofidiana Ortodoxa, sob sua égide, o Papa Fausto I.
Vamos aguardar...

Blumenau, 26 de março de 2004.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

"Chove sobre minha infância"

"Chove sobre minha infância” de Miguel Sanches Neto


Viegas Fernandes da Costa


No filme “Caixa Preta” (2005), dirigido por Richard Berry, o protagonista sofre um acidente e permanece inconsciente por um período. Ao despertar, é informado pela enfermeira que, durante o coma, balbuciou palavras e frases desconexas que esta anotou em um caderno. Ao sair do hospital, o personagem procura decifrar os significados daqueles seus fragmentos de memória, mas a correspondência com a realidade dos fatos torna-se impossível. Isto porque, para a memória, o vivido no plano da realidade física não difere do vivido no plano dos desejos, ou, não há diferenças entre o vivido e o que pensamos viver quando acessamos os cantos mais obscuros do nosso inconsciente.
Na literatura, estabelecer fronteiras entre realidade e ficção, quando se trata de memórias, constitui-se como tarefa ingrata e inútil. Carlos Heitor Cony, por exemplo, quando publicou “Quase Memória” (1995), deparou-se com a dificuldade de classificá-lo enquanto gênero literário. Por isso o subtítulo: “quase-romance”. Já Silveira Júnior preferiu enquadrar como romance seu “Memórias de um menino pobre” (1977), livro em que magistralmente relata sua infância vivida em uma comunidade de agricultores no interior de Santa Catarina. “Chove sobre minha infância” (2000), de Miguel Sanches Neto, segue esta mesma lógica: o relato trágico de um anti-herói que cresce em ambiente hostil para se transformar no escritor que narra sua própria história. Memórias?
Quando Proust escreveu seu monumental “Em busca do tempo perdido”, Joyce seu “Retrato de um artista quando jovem” e José Lins do Rego seu “Menino de Engenho”, não tivemos dificuldades em aceitá-los como peças exemplares de uma literatura do mais alto nível. Ainda que textos estruturados sobre reminiscências, são, essencialmente, criação, porque a memória é, tal qual em “Caixa preta”, criação. E não importa se fato experienciado fisicamente, se interpretação dos sentidos ou construção do inconsciente, a memória estabelece sua verdade, tornando-se, assim, verossímil. E é nesta verossimilhança que se constrói “Chove sobre minha infância”, livro que, segundo o narrador-protagonista, não se pretende de memórias, mas de “retalhos, alguns falsificados pela recordação e pela fantasia” (p.17).
Romance de estreia de Miguel Sanches Neto, “Chove sobre minha infância” conta a história da sua infância e adolescência a partir dos seus próprios olhos. Não se trata, entretanto, de autobiografia, já que o narrador-protagonista (o próprio Miguel), narrando ou vivenciando os fatos no tempo presente em que supostamente aconteceram, em alguns momentos sofre a intromissão do narrador adulto, deste outro Miguel, capaz de compreender e julgar a criança de antanho. E é nesta tensão entre recordação e ficcionalização, entre revelação e moralização, que se constrói a história de um menino nascido na pequena Bela Vista do Paraíso, no interior do Paraná, que, órfão do seu pai, um homem de “coração bom, mas prisioneiro de suas misérias” (p. 12), migra com sua mãe e irmã para Peabiru, cenário onde se desdobra o enredo.
Viúva e vivendo muito humildemente com o dinheiro que recebia costurando para prostitutas, apesar de filha de rico fazendeiro, a mãe do narrador-protagonista resolve se casar com Sebastião, um caminhoneiro sem muito estudo. Homem austero, trabalhador, honesto, incapaz de lograr um agricultor, Sebastião nutre profundo desprezo a todo trabalho que não seja braçal, e procura educar a família na doutrina do trabalho duro no campo ou junto a cerealista de que se torna proprietário. Educação contestada pelo narrador-protagonista, que desde muito moço inclina-se para as letras. Letras inúteis, improdutivas e que impedem Miguel de ser o homem forte e trabalhador com que sonha o padrasto. Há uma cena na obra em que o narrador-protagonista conversa com Zé Carlos, filho do padrasto, que lhe explica que o pai teve que comprá-lo, juntamente com seus irmãos, depois de tentar convencer, com argumentos, a mãe a entregá-los: “O pai teve que comprar a gente. A mãe não queria ele deixar trazer. O pai falou bastante coisa pra ela, mas não adiantou. Daí ele deu dinheiro e ela deixou.” E a reflexão de Miguel, ainda criança: “Fico pensando se Sebastião não tem razão. As palavras não valem grande coisa mesmo. O que vale são os números.” (p. 78). Mas é esta uma exceção, escrever, preencher todas as folhas do caderno, é não deixar morrer seu pai, analfabeto e morto trágica e precocemente. Escrever é, antes de tudo, libertar-se. Libertar-se dos desmandos do padrasto e sua família, libertar-se da vida dura do campo, libertar-se do atraso.
Sob o verniz dos conflitos familiares, das vicissitudes próprias de um menino que adolesce e descobre os prazeres e dores do corpo, “Chove sobre minha infância” impõe-se como uma obra que marca a desterritorialização do retirante no confronto campo e cidade. Ao defender o trabalho forçado, Sebastião defende a manutenção dos filhos na terra. As letras implicam vida urbana, o êxodo rural. Neste contexto, torna-se emblemática a reflexão do narrador-protagonista quando afirma: “Pertenço a uma geração que não encontra mais espaço no Paraná. Não dá mais pra iniciar uma vida de pioneiro em nossas terras, elas já foram desbravadas, já deram o seu sangue, suas matas, seus rios” (p. 215). É o campo que sucumbe à cidade, aos bancos, à indústria e seus empregos de fome. A Peabiru que viu crescer Miguel, já não o é, “a lama e a poeira de então eram a da cidade que estava sendo feita, a dos destinos em construção – hoje são de decadência” (p. 253).
Também a metaliteratura se faz presente na obra. Para Miguel – narrador-protagonista – literatura é missão que dá voz a quem sempre se calou: “Vindo de um povo basicamente iletrado, recebi a tarefa de ser seu porta-voz. Escrevo por isso, para fazer com que falem estes entes sem discurso” (p. 240). Missão e catarse, diga-se ainda, pois pretende o narrador-protagonista libertar-se da carga, do peso que sua história imprime sobre seus ombros, como quando jovem descarregava os caminhões que chegavam à cerealista, as sacas de soja estourando-lhe a coluna, a poeira arrebentando-lhe os pulmões.
“Chove sobre minha infância”, neste pântano da memória, ato de desvelamento, ao dizer de Miguel, diz mais, diz de uma ordem que esboroa, calcinada na terra empobrecida, diz da escrita e do ato de se construir autor, mas diz, principalmente, de uma liberdade nunca plena.

Viegas Fernandes da Costa é historiador e escritor, autor de “Sob a luz do farol” (2005) e “De espantalhos e pedras também se faz um poema” (2008) e editor do Sarau Eletrônico/FURB.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

"No mundo dos livros" de José Mindlin

“No mundo dos livros” de José Mindlin

Viegas Fernandes da Costa

Nestes tempos em que tantos vaticinam o fim do livro, é sempre bom ler o que um bibliófilo tem a nos dizer, principalmente se este for um senhor absolutamente lúcido de 95 anos de idade e que constituiu uma das maiores e mais importantes bibliotecas particulares do Brasil. Trata-se de José Ephim Mindlin, advogado e empresário do setor metal-mecânico nascido em 1914, mesmo ano em que uma Europa assustada via a ruína da Belle Époque e, sobre seus escombros, a ascensão da primeira grande guerra mundial. Mindlin é também membro da Academia Brasileira de Letras e autor de “Uma vida entre livros” (1997), “Reinações de José Mindlin” (2008) e “No mundo dos livros” (2009), este último alvo de nossa leitura e comentário.
Em “No mundo dos livros”, obra de poucas páginas e linguagem despretensiosa – uma “conversa”, como o próprio autor o define – Mindlin socializa conosco suas experiências de leitura, principalmente sob o aspecto afetivo, procurando incentivar o hábito da leitura e o culto a seu representante mais simbólico: o livro. Na tentativa de se fazer o mais próximo possível do leitor, entretanto, José Mindlin peca na estrutura da sua narrativa. Em alguns momentos interrompe sua exposição para lançar ao leitor perguntas do tipo “quem é que o(a) levou aos livros?”, “você já leu algum desses livros?”, entre outras, dando-nos a impressão de falar a um público adolescente. Suas sugestões, porém, de títulos como “A retirada de Laguna”, de Alfredo d’Escragnolle Taunay, ou “O espírito das leis”, de Montesquieu, inevitavelmente acabam por exigir leitores mais experientes e minimamente disciplinados. Há então esta narrativa pantanosa, uma espécie de desconforto quanto ao tipo de leitor que “No mundo dos livros “ pretende alcançar.
Também em seu inventário de obras e autores que lhe marcaram a memória, Mindlin não corre riscos, e limita-se a sugerir uma bibliografia já canonizada. Assim, na poesia brasileira, por exemplo, sugere poetas como Gonçalves Dias, Castro Alves, Olavo Bilac, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, entre outros. Manoel de Barros e Adélia Prado são honrosas exceções. Cabe lembrar, a título de atenuante a esta pouca ousadia em não citar autores e obras de pouco ou nenhum reconhecimento, que a experiência de Mindlin a este pertence, e é desta experiência que fala “No mundo dos livros”.
Se há pecados, há também virtudes. Vale a pena conhecer um pouco mais da vida de bibliófilo de José Mindlin, como quando, já nas primeiras páginas, conta dos estratagemas de que lançava mão para conseguir comprar seus primeiros livros em sebos paulistanos, em 1927, aos 13 anos, e de como começa a qualificar suas aquisições, primeiramente procurando adquirir as obras completas do autor que apreciava, depois as primeiras edições e, por fim, as primeiras edições autografadas, transformando a sua biblioteca em algo único e precioso. Há nisto tudo verdadeira reverência não só ao objeto livro mas, fundamentalmente, à mão que o escreveu. Reverência exposta em trechos como este que aqui destacamos: “(...) comecei a procurar exemplares que tivessem passado mais diretamente pelas mãos dos escritores, com dedicatórias. Foi um novo mundo que se abriu para mim, uma espécie de contato direto com os autores e os leitores a quem os livros eram dedicados”.
Como dissemos lá em cima, nestes tempos em que tantos vaticinam o fim do livro, é sempre bom ler o que um bibliófilo tem a nos dizer. E a este nosso quase desamparo em meio ao universo de bits e bytes, consola-nos Mindlin quando diz que “o manuseio de um livro convencional não só estabelece o ritmo de aquisição de conhecimentos pelo autor, como chega a constituir um prazer físico”, e ainda: “o que aparece nas telas é necessariamente efêmero se não for transportado para o papel.”
Palavras de um apaixonado, sem dúvida!
* Texto originalmente publicado no Sarau Eletrônico.

domingo, 14 de junho de 2009

Túnel doTempo

Hoje quero resgatar mais um texto publicado na coluna Crônica da Semana, no dia 20 de julho de 2002. O texto chama-se Perijil, nome de uma ilha inóspita no Mediterrâneo que, à época, foi alvo de disputas entre o Marrocos e a Espanha. Apesar de não ter sido escolhido para integrar meu primeiro livro, "Sob a Luz do Farol", diverti-me muito escrevendo esta crônica.
PERIJIL

Viegas Fenandes da Costa

Penso que a maioria daqueles que nos acompanham neste momento conhecem, se não de ter lido, ao menos de ter ouvido, a clássica estória de Dom Quixote de La Mancha, escrita por Cervantes. Se acaso alguém não a conhecia, certamente passou a conhecê-la por estes dias, com algumas adaptações, é verdade, mas ocorrida de fato. Claro que hoje os cavaleiros andantes não morrem mais por suas amadas, atualizados como estão, mas certamente por ilhas ainda duelam, a fim de estabelecer a honra da propriedade. E que duelos! Com direito a helicópteros "Super Puma", aviões de combate F-18, tropas especiais e apoio naval! Seria Perijil a ilha prometida pelo "Cavaleiro da Triste Figura" a Sancho Pança como recompensa por seus préstimos de fiel escudeiro, e por isso toda esta celeuma em torno de um pedaço de pedra desabitado e desprovido de qualquer atrativo, até então abandonado no Mediterrâneo? Fato é que aconteceu, e até a Organização das Nações Unidas já foi intimada a intervir, como se questões mais importantes não necessitassem a sua atenção.
Penso que a coisa se deu da seguinte maneira:
Estava lá o rei do Marrocos um pouco preocupado, talvez, com sua popularidade, arranhada com a insistência dos separatistas do Saara Ocidental em declarar a independência daquele monte de areia, quando mandou chamar seu séquito de puxa-sacos para uma consulta. Entre os tantos assuntos discutidos, lembrou um dos ilustres presentes, quem sabe tenha sido o próprio primeiro-ministro, que a melhor forma de se resolver um problema é desviar a atenção do povo sobre o mesmo. "É, taí uma boa resposta!" - deve ter meditado o monarca, dando corda para que o brilhante proponente desse prosseguimento a sua reflexão. "E a melhor forma de fazermos isto é conquistando novos territórios!" Esta sim era uma idéia que em muito agradava ao rei, pois além de solucionar seu problema imediato - o da impopularidade - , ainda lhe ampliava os domínios. "Mas que territórios havemos de invadir?" - indagou o secretário de uma pasta qualquer e que só estava lá porque era cunhado de uma das irmãs do príncipe. "Perijil!" - altissonante resposta que quase fez estremecer o palácio. "Perijil? Mas que diabo de lugar é este?" - indaga o ministro da guerra, que já estava a se tremer todo. "Vossa Majestade há de compreender que esta não é uma terra muito vasta, muito menos preciosa, mas terra é, e para uma boa residência de férias aos nobres desta nossa pátria há de servir". "Acatado, invade-se então Perijil e depois vê-se no que dá, e não temamos, pois Alá há de nos proteger nesta santa batalha!" - bradou alvissareiro o monarca. E foi assim que se decidiu o envio de doze Gendarmes (uma espécie de policial militar marroquino) para a perigosíssima ocupação da ilha, que de área é um pouco maior que um campo de futebol (interessante observar como campo de futebol se transformou em unidade de medida) e de população só pode contar mesmo com os líquens cravados em suas pedras.
Agora, de estupefação mesmo foi tomado o governo espanhol, a cujos domínios pertence o pedregulho, segundo comprova uma carta de 1746, confeccionada por um tal de Luis Huet, que deve estar a vibrar em seu túmulo pois fora tirado do esquecimento por uma maluquice marroquina.
Discussão daqui, discussão dali, e dá-lhe porrada na mesa do Conselho de Segurança Nacional Espanhol: "É uma afronta, um insulto, fere a soberania nacional" - grita um mais exaltado; já outro afirma: "qualquer resposta será interpretada como de legítima defesa do povo espanhol". É? Eu, que de entendido em política internacional não tenho nada, apenas vejo Dom Quixote sentar em seu cavalo, vestir sua lata e correr na direção do inimigo. Só fiquei com pena dos tais gendarmes, que devem ter se aterrorizado com a imagem dos enormes helicópteros "Super Puma" lançando sombra sobre a ilhota e açoitando suas barracas com o vento das hélices. Tanto que se renderam sem dar um único tiro. Melhor para eles.
Quanto ao Marrocos, que viu sua bandeira ser destituída dos seus mais novos domínios em menos de uma semana, brada por reparações e exige da comunidade internacional um posicionamento sobre o assunto. Mas a ONU já disse: nem Espanha, nem Marrocos, a ilha é de Sancho Pança!

Blumenau, 20 de julho de 2002.

domingo, 7 de junho de 2009

Enquanto isso em Dom Casmurro

Enquanto isso em Dom Casmurro


Viegas Fernandes da Costa*

Antes mesmo de lançar Enquanto isso em Dom Casmurro, em 1993, José Endoença Martins já suscitara polêmicas com o conteúdo e a forma dos seus versos, inauguradores daquilo que mais tarde chamaria de Poema Minuto. O negro, a mulher, o sexo, a vida e seu simulacro explodiam em seu texto, que tinham em Blumenau seu cenário e suporte. Não foi diferente com este seu romance, que tem sua 2ª edição lançada agora pela Edifurb.
Em Enquanto Isso em Dom Casmurro a linguagem, e tão somente ela, torna possível aproximar 1899, ano em que Machado de Assis dá à luz Capitu e Bentinho, e 1993, ano em que Martins imprime seu sopro a Capitu, e esta se liberta do realismo de “Dom Casmurro” para encontrar o pós-modernismo neste livro ambientado em uma Blumenau preconceituosa e hipócrita que vive a crise do setor têxtil, no início da década de 1990. Uma Capitu kitsch, amoral, bissexual, sadomasoquista, negra e drogada que se move pela linguagem e pelo desejo e que escolhe esta cidade do Vale do Itajaí para viver esta sua nova vida fantasiada de cantora sertaneja.
Provocador e experimental, Enquanto Isso em Dom Casmurro, no tempo do seu primeiro lançamento, dividiu águas na literatura produzida no interior de Santa Catarina, e reaparece agora ainda mais atual, problematizando esta nossa sociedade do pastiche, das aparências, onde tudo pode ser valorado pela plástica e pela capacidade de se tornar mercadoria, inclusive a própria Capitu, que paga com seu corpo o cachorro quente vendido na esquina.
Neste romance José Endoença Martins questiona os fundamentos identitários blumenauenses, cidade onde nasceu o autor, sempre tão prussiana com seu discurso higiênico de ordem e trabalho. Aqui temos uma Blumenau que já foi negra, que já foi italiana, que já foi até mesmo alemã, para hoje ser qualquer outra coisa indefinida, uma terra onde as “enchentes anuais perderam leveza e novidade” para “ganhar angústia”, uma cidade cheia de ruídos, mas sem som próprio.
Enquanto Isso em Dom Casmurro constitui-se como um romance rico em intertextualidades, que flerta com a história e com nossa sociedade pós-industrial, que discute as relações interétnicas e, acima de tudo, que mostra que na ficção tudo é possível, desde que haja desejo.

*Viegas Fernandes da Costa é historiador e escritor, autor de "Sob a luz do farol" (2005) e "De espantalhos e pderas também se faz um poema" (2008).

terça-feira, 24 de março de 2009

"A viagem do elefante" de José Saramago

“A Viagem do Elefante” de José Saramago

Viegas Fernandes da Costa
Há quem diga que a carícia da morte devolve-nos uma leveza e um certo humor que perdemos com o transcorrer dos anos. Há quem diga, claro, ser isto pura bobagem. Bobagem ou verdade, no final de 2007 o escritor português José Saramago (Prêmio Nobel de Literatura em 1998) enfrentou problemas respiratórios gravíssimos que por pouco não o levaram a óbito. Recuperado, tratou de concluir seu mais novo livro, “A Viagem do Elefante” (Ed. Companhia das Letras, 2008), uma novela teimosamente referenciada de conto pelo próprio autor.
“A Viagem do Elefante” ambienta-se em meados do século XVI, e conta a história do elefante Solimão (ou Salomão, como é chamado depois de passar à propriedade austríaca) e seu cornaca Subhro (ou Fritz, cujo nome também é modificado, pois, enquanto tratador e guia, acompanha o elefante e os desígnios aos quais este é submetido). Solimão era propriedade do império português, e vivia um tanto quanto esquecido em Lisboa, sob os cuidados de Subhro. De pouca ou nenhuma serventia aos interesses do rei D. João III, o elefante é presenteado ao arquiduque austríaco Maximiliano II, recém casado com a filha do imperador Carlos V, que aceita o presente e imediatamente procede a mudança dos nomes de Solimão e Subhro para Salomão e Fritz. A partir de então, o narrador passará a contar a história da longa viagem empreendida por Salomão e Fritz, primeiramente de Portugal a Espanha, onde se detinha a comitiva de Maximiliano II, e de Espanha a Áustria, incluindo-se aí uma perigosa viagem marítima pelo Mediterrâneo e uma quase suicida travessia dos Alpes.
Para quem se acostumara à densidade de livros como “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “Ensaio Sobre a Cegueira”, “Memorial do Convento” entre outros, este “A Viagem do Elefante” aparenta uma simplicidade e uma linearidade que parecem destoar da obra do autor; entretanto, é nas tergiversações dos personagens e do narrador que reside a maior qualidade da obra. A história serve apenas como pano de fundo para que José Saramago exercite seu mais fino humor e sua mordaz ironia à burocracia de Estado e à corrupção intrínseca dos indivíduos. Assim, não foi casual a escolha de um elefante como personagem central do livro. É Solimão (ou Salomão) que move a burocracia de um Estado inoperante, muito mais preocupado com sua perpetuação e imagem, do que com sua eficiência junto às necessidades de seu povo, e é em torno e em função dele que se destacará toda uma comitiva e para qual se contratarão funcionários que possam surprir suas necessidades particulares e tornar possível e segura sua viagem. Solimão é, desta feita, o próprio Estado, cuja ineficácia burocrática José Saramago discutiu em livros como “Todos os Nomes” e “Ensaio sobre a Lucidez”, dentre outros. Subhro (ou Fritz), o cornaca, por sua vez, constitui-se como personagem complexo: indiano de origem, emigrou para Portugal acompanhando Solimão, a quem trata, treina e guia. Apesar de servir a seu soberano, seja este o rei português ou o arquiduque austríaco, é dado a arroubos de autonomia, e chega a contestar e ironizar seus superiores hierárquicos. Sabendo-se fundamental aos interesses do seu governo, considerando ser o único a conhecer as manhas e artimanhas de Solimão, Subhro emite suas opiniões próprias e, em nome do bem-estar do elefante (e, consecutivamente, dos interesses de Estado), chega a impor condições para a viagem. Entretanto, como todo ser humano, deixa-se levar também por seus interesses próprios e, sempre que pode, usa do Estado (no caso, Solimão) para obter lucros e benefícios pessoais, como no episódio em que passa a vender pelos do animal a uma população crédula depois de ter usado o paquiderme para forjar um milagre – uma clara referência ao momento em que a história é ambientada, quando na Europa eclodiram os movimentos da Reforma Protestante e da Contra-Reforma Católica.
Como já dissemos aqui, há quem diga que a carícia da morte devolve-nos uma leveza e um certo humor que perdemos com o transcorrer dos anos. Fato é que em “A Viagem do Elefante” encontramos um Saramago mais leve, consciente da importância da sua literatura, porém ciente, também, de que talvez já tenha dito o que havia para se dizer, e que a esta altura de sua vida e carreira importa mesmo o prazer de escrever uma boa história.
Por isso, talvez, a impressão de um Saramago sorridente que nos acomete quando fechamos o livro.
* Texto originalmente publicado no Sarau Eletrônico

sábado, 7 de março de 2009

O buquê e esta farsa

O buquê e esta farsa

Viegas Fernandes da Costa
Ofereço-te este buquê de filosofias baratas. Desculpe, mas é tudo o que te posso oferecer: o buquê e esta farsa. Senhoras, senhores, não estranhem aquela moça que dança e se entrega, não estranhem se volúvel, não estranhem se caça. Mulheres também caçam, sim senhor, e dizem: te quero, vem! Não estranhem se arregalam os olhos estes machos mamados transpirando álcool. Afinal, é noite, é dezembro, é o fim. E esta moça que tanto se arruma, que tanto procura o banheiro, o espelho, a escova, o batom. O prazer substituído pela expectativa. Necessita que a desejem, que a desejem... todos, sem exceções. Esta farsa! Esta farsa! Mas desculpe, porque tudo o que posso te dar é somente este buquê, as filosofias caindo em esmaecidas pétalas pelo regaço do teu colo, cobrindo teu seio, escondendo-se entre as tuas pernas. Antegozas e te vais, a decepção estampada nos tantos rostos que te roçaram a face, nos tantos lábios que te sorveram o hálito, nos tantos sexos que te tocaram o ventre. Não há mais lugar para estes olhos plenos, talvez nunca o houve. Senhoras, senhores, desculpem, mas os olhos perderam seu lugar, restam estas órbitas vazias e este buquê; estas luzes, este néon e esta moça potra de coxas bastas e ancas voluptuosas. Ah sim, e esta carne dos lábios tão vermelhos, esta correntinha nos tornozelos. Diana pós-moderna, pós-mulher, porque agora fêmea! Ah mulher, e te escorre a seiva às pernas, o suor ao ventre moreno; teus pés agitados, teus dedos uniformemente comprimidos nas sandálias, o anel neste anelar de pé esquerdo refletindo o brilho do cristal sobre as mesas, o desejo destes homens suados transpirando luxúria contida, a língua que umedece os lábios, que seca a cerveja que se prende aos beiços! E, ridiculamente, ofereço-te este buquê de filosofias baratas; estéreis e assexuadas filosofias baratas. O moço que chega transido de timidez, o colarinho abotoado, um pedido de casamento à moça de volúpia fornida que lhe estimula a bizarrice da figura! Vem de anel, de goma na camisa, os cabelos penteados a gel, um pedido nos lábios e um sexo frágil a lhe balançar anestesiado entre as pernas pálidas de pêlos ralos. E lhe diz sim, e lhe beija a testa tão maternalmente, tão singelamente, que a todos põe a crer amar puro o homem que lhe despeja futuro e casamento. Senhoras, senhores, peço desculpas, devo-as, sei disso. Como sei, repito, que não há mais lugar para estes olhos, e por isto olham sem se fazerem notar, e veem o que há para ser visto, tão óbvio e tão claro que a ninguém se é dado ver senão às crianças e aos devassos! Ah, a moça de costas tão longas, de ombros tão largos e bronzeados! Uma leve e pornográfica penugem escura que lhe desce ao cós e que se perde sob a cintura da saia... Como se mira, como se escapa e convida, e lúbrica farfalha-se fêmea aos corpos machos que lhe tomam para dançar. Ah, é noite, é dezembro, é o fim! E já uma réstia de noite e uma promessa de sol quando busca o segredo do seu quarto, a cama de solteira, a colcha cor-de-rosa, seus bichos de pelúcia, as revistas e as almofadas sobre o carpete. É isto, este quarto de menina, esta farsa e este buquê de filosofias baratas. É isto, a caixinha de música e o calendário na parede esquerda. É isto, desculpem, mas não há mais lugar para estes olhos plenos; por hora, respiram, apenas, os reflexos dos espelhos.

* Viegas Fernandes da Costa é autor dos livrios "Sob a Luz do Farol" (2005) e "De Espantalhos e Pedras Também se Faz Um Poema" (2008). Permitida a reprodução desde que o texto mantido na íntegra e citado o autor. Escreve no blog http://viegasdacosta.blogspot.com . Permitida a reprodução, desde que citado o autor e o texto mantido na íntegra.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Os livros proibidos do sótão

OS LIVROS PROIBIDOS DO SÓTÃO
Viegas Fernandes da Costa (*)

“Ouvir minha dona sempre ler a Bíblia em voz alta despertou minha curiosidade em aprender. (...) Num período de tempo incrivelmente curto, com seu generoso auxílio, dominei o alfabeto e consegui soletrar palavras de três ou quatro letras. Meu senhor proibiu-a de me dar mais instrução...[mas] a determinação que ele expressou em me manter na ignorância apenas me deixou mais decidido a buscar compreensão. No aprendizado da leitura, portanto, não sei se devo mais à oposição de meu senhor ou ao generoso auxílio de minha amável senhora.”
Frederick Douglass.(1)


Farehnheit 451

Dom Quixote enlouqueceu, e não é por acaso que o primeiro livro que o bombeiro Montag encontra na casa de um “leitor subversivo”, em cena do filme “Fahrenheit 451”, é justamente a história do “Cavaleiro da Triste Figura”, de Cervantes – o mesmo livro banido do Chile em 1981 pela Junta Militar comandada pelo general Pinochet(2). Na utopia futurista retratada pelo diretor francês François Truffaut neste seu clássico de 1966, os livros devem ser queimados porque provocam a infelicidade. Segundo o personagem Montag, livros são lixo, são perigosos porque perturbam as pessoas e as tornam anti-sociais. Já o Capitão dos Bombeiros amplia esta visão nociva sobre a leitura, afirmando que os livros tornam as pessoas “diferentes”, e diferença é tudo que não se deseja em uma sociedade totalitária.
Alberto Manguel escreve que “como nenhuma outra criação humana, os livros têm sido a maldição das ditaduras. Os poderes absolutos exigem que todas as leituras sejam leituras oficiais; em vez de bibliotecas inteiras de opiniões, a palavra do governante deve bastar.”(3). A sociedade retratada em “Fahrenheit 451” constitui-se como uma metáfora das ditaduras, potencialmente do império soviético, que polarizava sua influência econômica, ideológica, política e bélica com os Estados Unidos naquilo que a história convencionou chamar de Guerra Fria. A década de 1960, período em que este filme foi produzido, notabilizou-se pela consolidação de diversos regimes ditatoriais, com ideologias tanto à esquerda quanto à direita, em diversos países do mundo, incluindo-se o Brasil, cujo golpe de 1964 deu início a longos 21 anos de governo militar e de censura prévia da imprensa e das manifestações culturais.
Também Sijie Dai vai falar de leituras clandestinas e perigosas em seu filme “Balzac e a costureirinha chinesa”, de 2002, que conta a história dos amigos Luo e Ma, dois jovens estudantes chineses que serão enviados para o interior do país a fim de passarem por um programa de reeducação ideológica. Após a Revolução Cultural chinesa, e a implementação da ditadura Maoísta, a cultura ocidental é tratada como elemento a ser banido do Império, e teremos então o “Fahrenheit” chinês interditando livros de autores ocidentais ou qualquer outro que viesse de encontro aos ideais de Estado propugnados pelo Comitê Central do Partido Comunista. No interior, e trabalhando como camponeses, Luo e Ma descobrem uma mala contendo diversos livros de autores como Flaubert e Balzac. A leitura secreta destas obras irá transformar o sentido de vida dos dois amigos, bem como de uma personagem feminina, a filha de um importante alfaiate local, que passará a conhecer um outro mundo a partir dos romances que os dois amigos lêem para si.
“Fahrenheit 451” e “Balzac e a costureirinha chinesa” não são os únicos filmes que trabalham com o tema das leituras clandestinas, porém são aqui citados porque explicitam duas das três categorias de leitores apresentadas por Alberto Manguel, a saber:
a) leitores autoritários: aqueles que impedem os outros de ler;
b) leitores fanáticos: decidem o que pode e o que não pode ser lido;
c) leitores estóicos: que se recusam a ler por prazer.(4)
No filme de François Truffat vemos retratado o “leitor autoritário”. É função dos bombeiros salvar as pessoas da infelicidade, queimando todos os livros. Em “Fahrenheit 451” ninguém pode ler, mas alguns lêem, clandestinamente, e na impossibilidade de ler, há aqueles que decoram livros e os guardam na memória, de onde não poderão ser retirados pela força do Estado – são os “homens-livro”. Já Sijie Dai retrata o “leitor fanático”. Na China de “Balzac e a costureirinha chinesa” há livros permitidos, como o “Livro Vermelho” de Mao Tsé Tung, leitura não só desejada, mas obrigatória, e os livros ocidentais, que retratam “valores burgueses” e “contra-revolucionários”, portanto proibidos.
“Leitores autoritários” e “leitores fanáticos” são recorrentes na História, e surgem com muita força na literatura e no cinema. Em 1980 Umberto Eco publica seu romance “O nome da rosa” (também transposto para o cinema em título homônimo). Na história de “O nome da rosa” teremos mais um exemplo de “leitores fanáticos”. O enredo se passa no interior de um mosteiro beneditino medieval, famoso por abrigar uma das mais famosas bibliotecas da cristandade, cujo acesso aos livros era restrito e permitido somente quando autorizado pelo bibliotecário chefe. Nesta ficção, diversos monges morrem depois de lerem o segundo volume da “Poética” de Aristóteles, dedicado ao riso, cujas bordas das páginas estavam envenenadas. O veneno é a metáfora dos riscos representados por determinadas leituras para uma Igreja Católica que se constitui a partir da segunda metade da Idade Média. Cabia à Igreja zelar pela alma dos seus fiéis, impedindo-lhes o acesso a leituras que pudessem abalar a fé e desviar o crente do caminho imposto pela Igreja. O catolicismo do ocaso da Idade Média e de boa parte da modernidade é o catolicismo da mortificação do corpo e da expiação pelo fogo. É o catolicismo dos Tribunais do Santo Ofício e do “Index Librorum Prohibitorum”, relação de livros proibidos editada entre 1559 e – pasmem! – 1966. No entanto, toda esta interdição aos livros não impede a prática das leituras clandestinas, como nos mostra o historiador italiano Carlo Ginzburg, em seu livro “O queijo e os vermes”. Nesta obra da historiografia italiana vamos conhecer a história do moleiro friulano conhecido como Menocchio, julgado e condenado pela Inquisição católica no século XVI por ter criado uma interpretação heterodoxa da Teologia cristã. Acreditava, por exemplo, que o mundo surgiu do caos, “isto é, terra, ar, água e fogo juntos, e de todo aquele volume em movimento se formou uma massa, do mesmo modo como o queijo é feito do leite, e do qual surgem os vermes, e esses foram os anjos (...) e entre todos aqueles anjos estava Deus, ele também criado daquela massa”(5). Menocchio chama a nossa atenção justamente porque era uma pessoa ligada aos setores mais populares da sua sociedade. Era alfabetizado, tinha certo grau de instrução e chegou a ocupar os cargos de magistrado e administrador da sua aldeia, o que não significa que gozasse de grande ilustração. No entanto, teve acesso a alguns livros, todos em língua vulgar, e a maior parte deles lhe foram emprestados, e aqui temos um aspecto que nos interessa. Ao se deparar com a história deste moleiro do século XVI que ousou interpretar o mundo a sua maneira, Carlo Ginzburg descobre que, apesar de todas as interdições ao livro, e do alto custo econômico do mesmo, existia “uma larga rede de circulação que envolve não só padres, mas até mesmo mulheres (...)”, e que “para essas pessoas o livro fazia parte da experiência comum: era objeto de uso, tratado sem muitos cuidados, exposto ao risco de se molhar e desfazer”(6). Livros circulavam, portanto, clandestinamente, passados de mão em mão, lidos em grupo em um tempo em que quase todos eram analfabetos e, pior, além de lidos podia ser interpretados. Daí a grande heresia de Lutero ao traduzir a Bíblia para o alemão: o poder de interpretar a palavra de Deus deixaria de ser privilégio da Igreja, como o foi no caso de Mennochio: “mais do que o texto, portanto, parece-nos importante a chave da sua leitura, a rede que Menocchio de maneira inconsciente interpunha entre ele e a página impressa – um filtro que fazia enfatizar certas passagens enquanto ocultava outras (...)(7).
No Brasil Marisa Lajolo e Regina Zilberman estudaram as irrupções das leituras clandestinas nas obras de autores clássicos da literatura brasileira do início do século XX (8), como Graça Aranha, Raul Pompéia, José Lins do Rego entre outros. Autores que, quando jovens, freqüentaram colégios internos que lhes impunham leituras obrigatórias e, na lógica do “leitor estóico”, conforme Alberto Manguel, interditavam leituras que remetessem ao lazer, à fantasia e ao prazer. Interdição burlada com a circulação clandestina de romances franceses que iam de Molière a Júlio Verne, materiais pornográficos e histórias em quadrinhos. Segundo as autoras, “o fato de incendiarem a imaginação explica e reforça a clandestinidade dessas leituras, que pouco ensinam de prático, mas que provocam consumo contínuo”(9). A literatura a ser estudada devia ser “coisa séria”, que ensinasse algo prático e reforçasse valores morais. E é neste contexto do “leitor estóico” que quero inserir minha experiência enquanto autor e, principalmente, leitor. Assim como os autores estudados por Marisa Lajolo e Regina Zilberman, e apesar de não ter estudado em colégio interno na minha infância, também me submeti às práticas do “leitor estóico”, e também burlei suas regras.


Os livros do sótão

Na crônica “Pangaré dos tempos”(10) falo da adolescência vivida no início da década de 1990 na casa dos meus avós maternos, em Blumenau, município do interior catarinense e de colonização notadamente germânica. Eram estes meus avós também descendentes de alemães, luteranos engajados, de origem humilde e semi-alfabetizados. Talvez o perfil ajude a entender a relação que se estabelecia com a cultura letrada naquela casa. Tiveram seis filhos, quatro homens e duas mulheres, todos educados na fé protestante, e os homens, especialmente, incentivados a seguir faculdade (às mulheres bastava o ensino médio), o que aconteceu com três deles: Direito, o mais velho; Teologia, o segundo; Ciências Sociais, o caçula. Também cada um deles educou-se em algum instrumento musical, incluindo-se aqui as mulheres: violino, órgão, flauta doce, acordeão. Para a família dos meus avós maternos, incentivar os filhos a se apropriarem dos bens culturais significava incorporar uma nova condição social a sua história familiar. Meu avô era pedreiro, minha avó dona-de-casa, mas ostentavam filhos “doutores”. Isto significava uma casa com muitos livros e revistas cuja leitura orgulhava e provocava temor, paradoxo que acompanhou minha avó até sua morte. Quando passei minha adolescência na casa dos meus avós, seus filhos já não moravam mais lá, porém muitos livros, revistas, fotos e jornais estavam guardados no sótão, e o acesso a eles era algo restrito, quando não proibido:

Novamente a lembrança do velho sótão onde morava meu quarto; a casa, uma mansarda que abrigava nos cantos do telhado pequenos depósitos de coisas velhas dos tempos de juventude dos meus avós e tios. Quartinhos quentes e escuros, teto baixo e inclinado, onde investia horas e horas das minhas adolescentes tardes de ócio fuçando naquelas malas...
Sim, aquelas malas de madeira, enormes, empilhadas no fundo do quartinho. Afastava as telhas para que o dia pudesse clarear os seus segredos: antigas cartilhas e cadernos escolares, as revistas Cruzeiro, as primeiras edições das Seleções e o número um da Manchete, traças, muitas traças, e os enormes negativos das fotos tiradas na antiga “América Box” – quem seriam os personagens nas imagens desbotadas e nunca mais reveladas? Então... também as cartas, de amor, de paixão, escritas em alemão e péssima caligrafia de homem do campo - meu avô - semi-alfabetizado , empilhadas a um canto, ao lado dos postais, das revistas em quadrinhos e dos almanaques de farmácia com suas propagandas de xaropes e laxantes. Ah... os almanaques! Neles descobri: como sofriam de sífilis os castos homens de antanho! Sífilis e prisão de ventre, que o digam os tantos anúncios! Mas como a casa, também este tesouro particular que escavavam meus olhos e mãos em segredo – proibida que era esta arqueologia pelo zelo de um passado desejado morto que cultivava minha avó – foi perdido na rapinagem familiar. Muito acabou no lixo reciclável, o que sobrou, sumiu. Ficaram mesmo foram estas lembranças de um arqueólogo mirim escavando o passado da família e o sentimento de sacrilégio: o devassar dos segredos esquecidos, das vergonhas escondidas. Naqueles quartinhos descobri o fascínio que o antigo exercia sobre mim, e me deixei seguir atrás dos ácaros, traças e manchas de mofo. E também nisto aqui estamos. Quixotescamente, sim, também nisto aqui estamos!
(11)

Além destes materiais que encontrei nos cantos do sótão, havia também em meu quarto um velho guarda-roupa abarrotado de livros e com as portas sempre fechadas à chave. Abrir secretamente aquelas portas, depois de furtar a chave que minha avó escondia em seu quarto, para poder acessar aqueles livros proibidos, é lembrança que me excita até hoje, e que talvez tenha contribuído para o fetiche que o livro exerce sobre mim. O fato é que tais livros, apesar de interditados, não eram destruídos; por quê?
Uma das lembranças mais antigas de leitura clandestina que preservo, é a dos meus tios lendo em secreto gibis de Walt Disney no início da década de 1980. Seus insistentes pedidos para que eu não falasse das revistas para a “Oma” – forma como chamávamos minha avó – despertou na criança que eu era o entendimento de coisa proibida. Meus avós entendiam que gibis e outras formas de literatura que não aquelas indicadas pela Igreja Luterana ou que ensinassem coisas práticas, desviariam a atenção do trabalho, da vida útil, além de produzirem idéias erradas e moralmente perigosas. Também acreditavam que ler demais poderia enlouquecer a pessoa, a mesma crença afirmada pelo padre à família de Dom Quixote para explicar os desvarios do contumaz leitor das novelas de cavalaria. No entanto, havia uma sacralização do texto impresso, principalmente em seu suporte livresco, e por isso a necessidade da sua preservação. Até porque uma casa cheia de livros testemunhava que apesar das origens da família, e do ofício do meu avô, ali havia uma família diferente, letrada e que por isso deveria ser respeitada. E foi esta relação paradoxal com a literatura que me obrigou a afastar telhas e furtar chaves para acessar o texto que me interditavam na adolescência. Se estas interdições a determinadas leituras contribuiu (como o afirma para a sua vida o escritor estadunidense Frederick Douglass na epígrafe que abre este pequeno ensaio) para a minha formação de leitor e autor, é coisa que não posso afirmar; mas certamente posso dizer que contribuiu para despertar em mim o fetiche pelo impresso e o entendimento de que textos poderiam guardar segredos importantes.


Daquilo que pretendi

Neste breve ensaio procurei mostrar, a partir da categorização de leitores apresentada por Alberto Manguel e do trabalho desenvolvido por Marisa Lajolo e Regina Zilberman a respeito das leituras clandestinas em alguns escritores brasileiros, como a literatura, o cinema e a historiografia apresentam a interdição à leitura em suas diferentes formas, e de como estas interdições não se limitam apenas a um projeto político totalitário, mas se perpetuam na história e se misturam às práticas e imaginário das pessoas. Que estas interdições criam também estratégias de transgressão e contribuem para o fortalecimento da fetichização não só do objeto “livro”, mas da cultura letrada enquanto um todo. E, por fim, entender como nossa experiência pessoal com a leitura insere-se, também, neste debate, contribuindo com ele.


Referências bibliográficas

- Cervantes Saavedra, Miguel de. Dom Quixote de la Mancha. Tradução por Viscondes de Castilho e Azevedo. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
- Costa, Viegas Fernandes da. Pangaré dos tempos. Cronópios, http://www.cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=291 , 25 jun. 2005.
- Eco, Umberto. O nome da rosa. Tradução por Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003.
- Ginzburg, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. Tradução por Maria Betania Amoroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
- Lajolo, Marisa & Zilberman, Regina. A formação da leitura no Brasil. São Paulo: Ática, 1996.
- Manguel, Alberto. Uma história da Leitura. Tradução por Pedro Maria Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

Filmografia

- Dai, Sijie (Dir.). Balzac e a costureirinha chinesa. 2002.
- Truffaut, François (Dir.). Fahrenheit 451. 1966.

Notas de fim

(*) Viegas Fernandes da Costa, Historiador e escritor, autor de “Sob a luz do farol” (2005) e "De espantalhos e pedras também se faz um poema" (2008). E-mail: viegasfc@pop.com.br
(1) Frederick Douglass (1818-1895), pseudônimo de Frederick Augustus Washington Bailey. Escritor estadunidense, nascido escravo. Fundou diversos periódicos políticos e defendeu ideais abolicionistas. A epígrafe citada consta da sua autobiografia e foi citada em: Manguel, Alberto. Uma história da leitura, (1997), p. 313.
(2) Alusão ao personagem Dom Quixote, de Cervantes Saavedra, Miguel de. Dom Qauixote de la Mancha, [1978].
(3) Manguel, Alberto. Op. cit. p. 315.
(4) Ibidem, p. 322.
(5) Ginzburg, Carlo. O queijo e os vermes, 1987, p. 46.
(6) Ibidem, p. 85.
(7) Ibidem, p. 89.
(8) No capítulo Leituras Clandestinas, A formação da leitura no Brasil, 1996, p. 218-233.
(9) Ibidem, p. 227.
(10) Publicada na revista eletrônica Cronópios em 25 de junho de 2005.
(11) Ibidem.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Túnel doTempo

Em meados de 2002, e à convite de Luiz Cichetto, do site "A Barata", comecei a publicar a coluna "Crônica da Semana". A coluna durou até 2006, e durante este período foi distribuída para milhares de endereços eletrônicos em mais de uma dezena de países. Os textos eram reproduzidos também em diversos sites da internet e em jornais impressos. Meu primeiro livro, "Sob a Luz do Farol", de 2005, reúne 35 destas crônicas, porém muitas ficaram de fora.
Em um arroubo saudosista, resolvi criar esta seção, chamada "Túnel do Tempo", para lembrar algumas das crônicas da extinta coluna. E para inaugurar este espaço, vai aí a "Crônica da Semana n° 04", publicada em 23 de julho de 2002, e intitulada "Amigos da Escola".



Amigos da Escola


Viegas Fernandes da Costa

Há poucos dias aconteceu na cidade de Curitiba um importante congresso de educação. Tal fato, por si só, já merece toda a nossa atenção, principalmente por sabermos ser a educação assunto de grande importância para os nossos governantes, ilustrados como são. Inclusive, estão em tão alta conta as questões pedagógicas entre os nossos legisladores e executores (sim, o senhor leu corretamente, executores, e da mais fina flor, diga-se de passagem), que já se discute, por exemplo, a necessidade ou não do desenvolvimento de projetos pedagógicos nas redes de ensino: o projeto é não ter projeto, um grande avanço! Mas... como íamos escrevendo, aconteceu o tal congresso, e dentre as inúmeras questões abordadas, é a dos "amigos da escola" que quero rascunhar aqui.
Trata-se da mais nova "solução milagrosa" encontrada por nossos burocratas do Ministério da Educação para os raríssimos problemas que afligem o ensino brasileiro. E a idéia é muito simples: enfiar a comunidade na escola para desenvolver as funções que o Estado deveria assumir. Permitam-me aqui um parêntesis para lembrar que quanto maior o número de voluntários neste país, maior o número de impostos cobrados (qualquer dia desses há de surgir o imposto sobre a prática do voluntariado). Bem... Bem... Bem... voltemos ao nosso assunto. Como não gosto de falar sozinho pedi a opinião de Mestre Abelardo a respeito do tema, dado ter sido ele renomado professor por muitos anos. Nosso sábio docente respondeu-me que a idéia parece um tanto extravagante (ele disse repugnante, mas repugnante para mim é barata, então fica extravagante mesmo), e questionou por que tal sistema não é também adotado em outras áreas, a saúde por exemplo. "Já pensou, voluntários da saúde?" - provoca.
Eu, da minha parte, fiquei pensando: por que não? Imaginemos. O senhor vai ao hospital para fazer uma rápida cirurgia de circuncisão e descobre que seu médico ficou doente e não poderá atendê-lo. Como fica? Ir embora? Voltar outro dia? Nada disso! Muito atenciosamente a moça do guichê comunica que o substituto do médico irá atendê-lo e realizar a cirurgia. É claro que o senhor, inteligente como é, ficará um tanto quanto desconfiado e tratará de interrogar o tal substituto com perguntas do tipo: "qual o seu nome?", "formou-se quando?", "para que time torce?", e outras do gênero. No que o prestativo substituto responderá: "eu sou o Fulano de Tal, na verdade não sou formado em medicina não, sou especialista em taxidermia e passo os dias empalhando passarinhos, tô aqui só como voluntário, sabe, no projeto voluntários da saúde, dando uma força". É, pois então, certamente o senhor ficaria um tanto quanto preocupado com a resposta, não é? Já pensou se ao invés de circuncidar, o Dr. Fulano de Tal resolvesse empalhar o "dito cujo"? Trágico não é? Agora, educação pode né!?
Eu sei, eu sei, o senhor vai me dizer que é diferente, que escola e hospital não são a mesma coisa, que operar e ensinar exigem habilidades diferentes etc, etc, etc... Mas segundo Mestre Abelardo, a quem respeito porque é entendido no assunto, voluntário na educação é engodo e sacanagem para cima do povo! Começa com o pai que pinta o muro, a mãe que costura o uniforme, o aposentado que fica de vigia. Claro que assim o governo economiza com pintor, com uniforme e segurança, permitindo maiores sobras para pagar os juros da tal dívida externa e deixando contente titio FMI. Depois amplia, chama a filha do seu Chico lá da padaria, que não tem muito o que fazer mesmo e andou bordando algumas coisas na faculdade, e coloca para substituir professor quando algum tiver que se ausentar da sala de aula ou da escola. Aí o diretor gosta, acha ela bonitinha, a piazada aprova porque ela deixa colar na prova, e pronto! Fica temporariamente contratada! E o "temporariamente" por aqui pode representar muito, muito tempo!
E o pior é que no embrulho o projeto até parece bom! "Mas só parece" - lembra Mestre Abelardo, acrescentando que a Glorinha, caixa do supermercado, inscreveu-se para lecionar matemática, como voluntária, bem dito, mas que promete: quando chegar na trigonometria chama o marido, que é carpinteiro e entende do assunto.


Blumenau, 23 de julho de 2002.