quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Sobre literatura e literatos

Sobre literatura e literatos

Viegas Fernandes da Costa
 
Goya

"É pelo sonho que vamos comovidos e mudos, chegamos ou não chegamos, haja ou não frutos, é pelo sonho que vamos", proferiam os lábios do Ernesto quando adentrei o Farol. Frase do escritor português Sebastião da Gama, apropriada pelo nosso poeta sem versos, onirofágico como sempre. Vi que estava calmo e, suspeita minha, feliz. Calara seu interlocutor, conhecido de longa data, que insistia na tese de que Ernesto deveria mudar de profissão, abandonar sua andarilhagem literária e se dedicar a escrever discursos para os vereadores da Câmara da aldeia que habita, analfabetos funcionais que são. Não aceitou, romântico que é (diriam alguns), lúcido (defendo eu).
“Só me faltava propor que trabalhasse como ‘ghost writer’!” – disse-me, depois que o outro foi embora. Como não conhecia o termo, pedi explicação.
“Ghost writer”, ou, se preferes, escritor fantasma. Funciona assim: tu tens uma história que consideras digna de um Nobel em literatura, mas não és suficientemente capaz de escrevê-la. Atestas a tua incompetência contratando um picareta profissional que escreve o texto para ti. Desembolsas alguns cobres e tens o direito de mostrar para todos os teus amigos e parentes o teu nome na capa de um livro.”
Fiquei impressionado, e imaginando quantos dos membros da Academia de Letras da Aldeia não teriam recorrido a estes tais “escritores fantasmas” para escrever seus livros e se arrogarem na condição de membros da fina nata literária aldeã. Alguns, por certo. Ah... e diante de tanta miséria, ocorreram-me os comentários lascados por Lima Barreto nas sátiras de “Os Bruzundangas” ou naquele seu conto do homem que sabia falar javanês, ambos os textos publicados nas primeiras décadas do século XX, mas que ainda hoje se aplicam tão bem à literatura da aldeia que viu nascer Ernesto. Teriam os seus literatos parado no tempo, fossilizado suas concepções de arte e literatura? Não sei. Mas que não é pelo sonho que escrevem, ah, isto não!
Porém o que mais me impressiona nisto tudo é o significado que ainda se dá ao livro, objeto de culto e de ostentação. Algo como aquelas fotografias antigas para as quais posavam coronéis analfabetos tendo, atrás de si, enormes estantes abarrotadas de grossos livros jamais lidos. O que será que queriam mostrar estes coronéis? O que será que querem mostrar estes escritores de academia? Destas academias de “passarão” que rejeitam “passarinhos” como os Mários Quintanas de ontem e de hoje? E, pior, os outros tantos que contratam os tais “ghost writer”; o que buscam?
É por isso que prefiro a companhia do Ernesto, este andarilho das letras, ainda que sem versos, sem livros e sem prêmios literários. À mediocridade, escolho o sonho; às sessões de puxa-saquismo crônico e masturbação literária, a leitura de bons textos; e aos chás da Academia, a cerveja do boteco!
Só isso!

domingo, 12 de agosto de 2007

O cheiro do poema

O cheiro do poema
Viegas Fernandes da Costa

Foto: Charles Steuck
Deixar assim correr o tempo em meus dedos. Que quer este pássaro em meu quarto? Como ancorar este navio? Tecer de rendas ao som da vida, em uma tarde de verão. Por onde andarão as camponesas que um dia vi em meus sonhos de adolescente? Planger de violões no alto do morro, as redes arrastando os peixes de amanhã. Não conheço, porém, o cheiro do leite nascido dos úberes para meus lábios... sei apenas da cidade, da pequena cidade onde nasci, e deste gosto pasteurizado. Meus pés nunca me levaram ao alto da serra, e aquela estrada de terra que se perdia na mata, e que sempre desejei conhecer por completo, já não encontro mais. Assim, tamborilo duras falanges sobre o peito, esperando aquilo que deixei escapar, e sinto em meu rosto o azul de um céu empurrado pelo vento. Quero tocar aquele velho piano esquecido no canto escuro do teatro, o corpo tangido pelo espírito, e nu sair à rua, rodopiar de braços abertos em meio ao asfalto. O mundo secou, afinal, e cactos brotam dos olhos. Ainda é possível chorar... Assim ressuscitar a criança que corria descalça sobre a orla do mar, os bolsos cheios de areia. Compor a sinfonia do desejo do eterno. O feto embrulhado em seu próprio abraço. Na praça, o velho que grita, o Livro sob os braços. E há tantos fatos neste espaço! Há de se amarrar o bode à trave ali postada, as luzes cintilando em nossos medos. Vou correr, mas as pernas amputadas não se moveram e assim vejo fugir meus órgãos por entre os lábios: vísceras, veias, pulmões. Sou apenas este saco vazio pendurado sobre o cabide de ossos. Ainda assim, reconheço o cheiro do poema.

Cântaro das ninhas náuseas

Cântaro das minhas náuseas

por Viegas Fernandes da Costa

Imagem: http://www.pinturayartistas.com/wordpress
carrego calçados furados,
meias furadas
e um monte de pedras nos bolsos

aos olhos, tantas estradas
e os rastros do passado

carrego a desventura do sonho
como meu bem mais precioso

às mãos, apenas a atrofia
e as infinitas possibilidades do vazio

carrego meus ossos, meus órgãos, meus medos
no cântaro das minhas náuseas

- mas já não tenho certezas

fecharam-se as portas das minhas igrejas
meus santos, descobri-os de gesso

e suspiro órfão às margens do Vale!



pudera cantar minhas certezas
profanar meu sudário e imprimir-lhe a marca que desejasse
parir glórias, pintar vitórias

pudera escalar pedras, fossas abissais
caminhar descalço nos caminhos que sempre sonhei
marcar a fogo as leis da humanidade

mas vazaram-se os olhos da terra
entortaram-se os pés
recolheram-se os dedos das mãos

e assim, fetal, recolho-me ao princípio
onde ainda se é possível
o desejo e a história.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

As mãos em concha

AS MÃOS EM CONCHA
por Viegas Fernandes da Costa
para Fernanda.

As mãos em concha tomam tênue cabelo que se perdia sobre os lençóis, amarfanhados e ainda quentes. As mãos em concha... bebe do pêlo como se de joelhos suplicava preces à beira do córrego. E dorme o poema seu sono natural, nu, na cama e nos olhos deste que contempla o presente e aspira o perfume do desejo neste quarto tão cheio de história. Se brota dos lábios e lhe cai das mãos a palavra, não saberá responder;portanto, silenciamos o mesmo silêncio de ecos d’um templo gótico, respeitoso e grave, talvez, não fossem tão tenros olhos e a liberdade do jovem corpo solto e adormecido, a pele fresca e abandonada ao prazer. A luta fora intensa! As mãos em concha, ora juntas ao rosto, tocando brisa à pele, carinho e doçura; ora violentas e carentes, buscando seios e pernas. Estas mãos e este pêlo, que dizer? Roçam os rostos farfalhando pele a pele, boca a boca, farfalhar de folhas distantes no céu azul. E estes olhos perdigueiros que ora se fecham em prazer incontido, repousam agora na memória da carne. Estas mãos e esta falta que faz o peso do corpo quente sobre o lado esquerdo do peito, onde descansara, extenuada. Por isso a busca nos labirintos amarfanhados dos lençóis; sob os dedos, úmidas lembranças abandonadas na textura do tecido. Para onde caminhara sua alva nudez silenciosa, que a pouco, adormecida, estirava-se de bruços sobre a cama?

terça-feira, 7 de agosto de 2007

"Não serei o poeta de um mundo caduco"

"NÃO SEREI O POETA DE UM MUNDO CADUCO"
Viegas Fernandes da Costa

"Não serei o poeta de um mundo caduco", e que nunca deixou de sê-lo, quero completar. Ah, mestre Drummond de Itabira, fazes falta! E a televisão mostra em múltiplos orgasmos cenas da criança mutilada, da poeira levantada pelas esteiras do tanque militar, das supostas armas químicas. Falam das estratégias de guerra, da invasão de Bagdá com o conhecimento e a experiência de quem nunca sentiu o calor do sangue gotejando sobre seu corpo e, tomadas de delírio, famílias reunidas na mesa de jantar – ah, por que não tocam mais a música dos Mutantes? – embriagam-se ante a imagem do soldado que cobre a estátua de Saddam com a bandeira de listras e estrelas... Vergonha!... vergonha!... não pela estátua, nada disso, que caia, que caiam todas as estátuas, mas não destruam nossa humanidade!
É Ernesto, Guernika está aí, não só na parede de uma ONU impotente, a tela encoberta pelo lençol, Guernika está nos braços e pernas lançados ao lixo porque a explosão lhes tirou a serventia. Bombas inteligentes... indigentes na vala do mundo!
"Não serei o poeta de um mundo caduco" que despeja seus "tomahawks" de um milhão de dólares sobre insones e assustadas cabeças e chama a isto de "implantar a democracia". Quanto vale uma saca de arroz? Um lote de vacinas? Uma escola? Mundo caduco ou surreal este que devora nossos sonhos? Mundo onirofágico! Um milhão de dólares a unidade! Quantos foram os mísseis? Mais de vinte mil?
É Ernesto, a águia imita o urubu e repartem agora os despojos. A quem pensam enganar? E o tempo passará, inventarão outras guerras, outros braços e pernas serão lançados ao lixo, novas mentiras contarão! Mas como encararmos nossos filhos? E ainda que te vi, Ernesto, gritando pela paz nas praças, sabemos que nada fizemos. Quedamo-nos espectadores da tragédia, o grito pouco a pouco adormecido na garganta, logo esquecido. Nossos filhos cobrarão todo este sangue bebido pela terra, não se engane, e então te enaltecerás por teres te despido na Austrália ou sei lá em que lugar do mundo?... por teres queimado as bandeiras da Inglaterra e dos Estados Unidos?... porque escrevestes textos, como este, dizendo que a guerra é sempre um erro? Não fizemos nada Ernesto! E isto nos envergonha! Nossos filhos nos cobrarão...

XX

O escultor solitário amontoa áridas pedras sobre frios pedestais erguidos na desolação do devastado. Tingidas à sangue e lágrimas, recolhe-as com os cuidados de um pai que envolve o primeiro filho nos braços. É o escultor do pós-guerra, cada pedra, um sonho que ruiu. Pedras quentes pois humanas também. E se vistas de perto, de muito perto, desvelam-nos artérias sob o pó...

...há artérias sob o pó, sim, pois o sonho insiste em não acabar!


* Extraído de: Costa, Viegas Fernandes da. Sob a Luz do Farol. Blumenau: Hemisfério Sul, 2005, p. 121-122.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

SOB A LUZ DO FAROL

AS "ERNESTIANAS" DE VIEGAS
por Luiz Carlos Amorim.

Estou lendo, também, “Sob a luz do Farol”, de Viegas Fernandes da Costa, catarinense de Blumenau. O cara é bom, o livro é daqueles que a gente começa e vai até o fim sem parar. Podia se chamar “Crônicas Ernestianas”, pois este personagem curioso, divertido e singular permeia quase todo o livro. É um tipo inteligente, maluco, imprevisível e irreverente e o autor conta muitos “causos” acontecidos com ele.Viegas é também poeta e as crônicas onde o “amigo” Ernesto não entra são prosas poéticas das mais inspiradas e gostosas de ler. Eu já havia lido alguma coisa de Viegas no Coojornal e gostei muito do estilo dinâmico e objetivo e da maneira como ele vê os “grandes monstros sagrados” da literatura em nossa região, assim como fiquei sabendo que ele gosta de ler os verdadeiros bons autores como Quintana, Neruda, Pessoa e outros.“Sob a luz do farol”, de Viegas, saiu pela Editora Hemisfério Sul, tem 134 páginas e o endereço para pedido do livro é hemisferiosul@san.psi.br.(23 de junho/2007)
* Amorim é escritor. Reside em Florianópolis.

SOB A LUZ DO FAROL
por Raymundo Silveira

Todo mundo conhece o escritor Viegas Fernandes da Costa, por isso nada escreverei sobre ele. Presumo, entretanto, que pouca gente leu o seu livro mais recente, “Sob a Luz do Farol”, pois se trata de um lançamento. Falei que todo mundo conhece o Viegas, mas sou capaz de jurar como raríssimas pessoas sabem que se trata de um menino de vinte e oito anos. O memorialista Pedro Nava costumava dizer que o apogeu criativo de um homem se situa entre os seus 25 e 45 anos. Embora a sua própria história o contradiga, uma vez que ele escreveu o seu primeiro livro (Baú de Ossos) aos setenta.
Quem escreve esse texto, não vê nenhuma novidade em jovens escrevendo livros. Ainda que vivendo num país onde... (Bem, não vou perder tempo, nem pôr à prova a paciência dos leitores: leiam as redações do ENEM). Porém fica perplexo quando dizem coisas tão originais, que poucos escritores veteranos seriam capazes de dizer. E pensa, também, que só deveria escrever (ou, pelo menos, publicar seja lá o que for), quem tem algo original para dizer.
É esse o ponto alto do livro do Viegas. São apenas 132 páginas. Contudo em nenhuma delas se vê mesmices, banalidades, lugares-comuns, tão freqüentes em tantos livrões que se vêem por aí. Logo no primeiro capítulo, o leitor menos avisado vai logo achando que ele cometeu um atentado à gramática. Com efeito, “Porque Lua” sugere antes uma interrogação quando, na verdade, traz uma solução poética para uma questão cuja dúvida vem implícita na própria resposta: “Porque é tão triste a Lua plena e alva, como noiva triste que se esconde sob o véu, refletida na pedra lisa e fria do calçamento, no tampo da mesa, no copo e na bebida.”
Todavia, nem só de originalidade são feitos os textos do Viegas. Confiram através destas jóias da criatividade poética: “... que diga o jornal a sua verdade, fria verdade; eu prefiro o calor da poesia.” “Ah, suas mãos ao volante! Uma palavra banal corta o silêncio. Forço esta palavra, uma resposta,, e seus lábios se movem, proferem sentenças e beijam a escuridão. Por que os seus lábios nos lábios da noite... Apenas?” “A chuva é o sangue da terra, este é o poema que brota dos olhos, do solo gretado, da seiva dos cactos.”
Como vêem, se trata da mais delicada Poesia. Concebida no calor da emoção e exposta na erupção das palavras.
Raymundo Silveira: escritor e médico. Reside no Ceará.
CRÍTICA DO SITE "A BARATA"
por Luiz Carlos Cichetto

Conheci Viegas Fernandes da Costa em 2002 e do mesmo jeito que muitos dos colunistas de A Barata: não lembro direito. O que lembro bem foi que lhe pedi, após a idéia de ele ter uma coluna periódica, um texto de apresentação da mesma e ele chegar com uma aula sobre o que era crônica. A partir daí foram um monte de aulas de crônica, do que é ser um cronista, do que é poesia em forma de prosa.Perdemos o contato por um tempo, não por culpa dele, mas minha, e quando o retomamos, Viegas me conta sobre seu livro “Sob A Luz do Farol”. O Correio Brasileiro é ingrato e demorou um pouco, mas enfim chegou. Abri rápido o envelope e encontrei um volume com uma capa que logo chama minha atenção: um “acrílico sobre tela”, com nome homônimo, de Daiana Schvartz.. Percorro as 130 páginas e depois retorno ao começo: “Porque Lua”. Sim, Viegas, Porque Lua?. Duas páginas de pura poesia, em forma de crônica, emocionante quanto uma despedida, clara e cristalina quanto uma paixão, dura quanto uma saudade. O restante do livro deve ser lido não apenas sob a luz do farol, mas também sob a luz da emoção e da arte. É, sob a luz da razão também pode, se você achar necessário.E “Sob a Luz do Farol” é assim: emoção e arte. E não existe emoção que resista á arte, e não há arte que resista à emoção. Entre as duas, Viegas ficou com ambas. Bígamo, ele ama e entende tanto a uma quanto a outra. E ficamos nós, a lastimar e invejar porque também não fomos abençoados pelos Deuses com as mesmas bênçãos. Mas eles sabem porque, e apenas os que foram agraciados pelas honras da Arte e da emoção conhecem o caminho e a razão dos deuses.Quanto á mim, resta apenas agradecer aos Deuses da Arte e da Emoção por proporcionarem o prazer de poder, com um pequeno trabalho, ajudar a mostrar a um planeta tão carente, mesmo que não perceba, de arte e emoção, o trabalho de Viegas Fernandes da Costa. Algumas pessoas nascem para brilhar... E outras para acender a luz.
*Luiz Carlos "Barata" Cichetto. Escritor e webmaster. Reside em São Paulo.
ORELHA DE SOB A LUZ DO FAROL
Urda Alice Klueger

Conheci Viegas em janeiro de 1997, quando sentamos em carteiras vizinhas para fazermos nosso vestibular de História. Ele me reconheceu de imediato, e fiquei impressionada com a sua curiosidade a meu respeito e a respeito dos outros escritores que eu conhecia. Como estávamos ali por causa do nosso gosto pela História, no primeiro momento não me passou pela cabeça que aquela curiosidade literária advinha do fato de eu estar na presença de um dos raros grandes valores que a literatura produz em cada povo.
Passamos os dois nos primeiros lugares do vestibular, ele na minha frente, o que acho uma honra. Quando março chegou e nos reencontramos na mesma sala de aula, desde a primeira semana ficou muito claro a que o Viegas vinha. Disparado, era o melhor , o mais inteligente e o mais preparado dos alunos daquela turma de História que se formou no ano de 2001, e desde o primeiro semestre do Curso que nos tornamos bons e grandes amigos, amizade da qual até hoje tenho o prazer de auferir. Logo criamos o hábito da passagem por um barzinho, depois das aulas, para discutirmos os teóricos da História, um pouco de Literatura, ou mesmo para jogarmos conversa fora.
Foi só com a nossa formatura, já dita em 2001, que houve, afinal, o tempo para se voltar à literatura e então é que fui, enfim, ofuscada pela beleza e pela luz que emanava do que Viegas escrevia. Ele já nascera Mestre, a História viera apenas como caminho, como a lhe dar substrato para seus textos mais maravilhosos, tanto em prosa quanto em poesia, embora em nenhum momento meu amigo tenha desprezado outro assunto que mexeu com sua alma, como o das suas muitas divas inspiradoras, por exemplo.
“Sob a luz do Farol” é uma coletânea de crônicas e contos seus, nascidos na famosa mesa 8 do Bar Farol, próximo à Universidade, em Blumenau. São textos que tanto nos podem fazer rir quanto revirar o que temos de mais íntimo e nos apunhalar de dor. Os textos são como afiadas espadas de luz que Viegas cria com leveza ou angústia, e que nos esperam no livro para nos atravessar.
Eu aconselho que você leia. Vale a pena.
*Urda Alice Klueger: escritora e historiadora. Reside em Blumenau, SC.

As páginas de terra de Mia Couto

As páginas de terra de Mia Couto

Viegas Fernandes da Costa


Outro dia uma amiga, Aline, chamou-me a atenção para a obra de Saramago, por ambos degustada: “uma arquitetura” – definiu. Tive que concordar, Saramago é o arquiteto da prosa, como o foram também Kafka e Dostoievski. Ao ler Todos os Nomes, do mestre português, minhas impressões me remeteram ao romance (seria correto assim chamá-lo?) O Processo e ao conto Um Artista da Fome, ambos de Kafka, por exemplo, bem como me devolveram aos sentidos a prosa dostoievskiana de Crime e Castigo. Associo todos nesta fala de Aline: arquiteturas, sim, pelas imagens que compõem, e são, por isso, textos plásticos. Mas apesar deste início, não é sobre estes três autores que quero escrever hoje. E se a alguém frustrei, peço desculpas.
Ocorre que estou entusiasmado, melhor, encantado, com um livro intitulado Terra Sonâmbula e escrito pelo autor moçambicano Mia Couto, pseudônimo de António Emílio Leite Couto. Encantado porque desconheço os segredos de se escrever como um ourives, eu, que na literatura uso do machado – de lenha mesmo, não do Assis. Terra Sonâmbula é assim, uma peça de ourivesaria, cada frase cuidadosamente lapidada e encaixada pelo humanismo deste escritor cuja obra há muito me indicavam, mas que só agora meus olhos resolveram conhecer. Neste romance desfia-se a prosa de um poeta de rara sensibilidade, desde a primeira página o percebemos. Em entrevista que concedeu há algum tempo, ele mesmo o disse: “nunca abandonei a poesia. Não se deixa a poesia se se é realmente poeta. Escrevo em prosa mas por via da poesia”. De fato, em Terra Sonâmbula a prosa é o veio por onde corre o lirismo de um escritor cujos olhos recaem sobre seu povo e sua história. A história de uma terra estuprada pelo colonialismo português e de um Moçambique destruído pela guerra, onde “os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte”, como escreve já no primeiro parágrafo deste seu livro.
Assim como Xanana Gusmão, poeta timorense que militou na guerrilha de esquerda, Mia Couto posicionou-se politicamente integrando os quadros da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), movimento de guerrilha anticolonial de inspiração marxista que se transforma em partido oficial depois da independência, em 1975. Foi atendendo às orientações da Frelimo que Mia Couto abandonou o curso de medicina e ingressou no jornalismo. Desencantado com o jornalismo, estudou biologia e dedicou-se à literatura, onde não abandonou suas posições políticas. É, portanto, uma literatura engajada esta que Couto escreve, sem, no entanto, tornar-se panfletária. Seu engajamento é com a cultura do sudeste africano e com a divulgação da luta do povo moçambicano pela sobrevivência e na construção de uma nação. É também uma denúncia, como quando fala o personagem Tuahir: “Foi o que fez esta guerra: agora todos estamos sozinhos, mortos e vivos. Agora já não há país.”
Neste sentido, Terra Sonâmbula se insere em um contexto modernista, quase uma rapsódia à Macunaíma, de Mário de Andrade. Ao buscar elementos das muitas mitologias tribais, das lendas e dos causos regionais, de um português com seus machimbombos, quizumbas, xicuembos, xipocos enriquecendo nosso vocabulário, contribui para a construção de uma identidade nacional moçambicana e nos mostra a riqueza cultural e folclórica de uma África que não conhecemos pelos noticiários internacionais.
Terra Sonâmbula conta a história do velho Tuahir e do “miúdo” Muidinga, refugiados da guerrilha que, caminhando por uma estrada abandonada, abrigam-se em um machimbombo (ônibus) destruído pelo fogo. Ao sepultarem os mortos que estavam no veículo, encontram pelo caminho uma mala com os onze cadernos de Kindzu, personagem que, através destes escritos, narra sua história póstuma. O romance se desdobra então em dois planos: o primeiro, em terceira pessoa, narra a história de Tuahir e Muidinga em sua luta diária pela sobrevivência, e a transformação deste último de menino em homem; já o segundo, narrado geralmente em primeira pessoa, é a história de Kindzu contada por ele mesmo em seus cadernos. São assim, onze capítulos e onze cadernos que nos apresentam a guerra, a dor, o amor e a esperança por meio do sonho. E talvez seja este o sentido da literatura de Mia Couto, cultivar o sonho nos “viventes que se acostumaram ao chão”. É o que diz o xipoco (fantasma) a Kindzu em um dos diálogos do livro: “– O que andas a fazer com um caderno, escreves o quê?/ – Nem sei pai. Escrevo conforme vou sonhando./ – E alguém vai ler isso?/ – Talvez./ – É bom assim: ensinar alguém a sonhar.”
E é isto, eis meu entusiasmo com Terra Sonâmbula, outra arquitetura literária e verdadeiro manifesto humanista de um autor comprometido com sua terra, seu povo e sua cultura. Talvez por isso encerre o livro dizendo: “Então, as letras, uma por uma, se vão convertendo em grãos de areia e, aos poucos, todos meus escritos se vão transformando em páginas de terra”. A mesma terra africana que abriga a esperança de um futuro, apesar de tudo.
Mia Couto

sábado, 4 de agosto de 2007

ITINERÁRIO


ITINERÁRIO


Viegas Fernandes da Costa


Conheci um Cristo
santo e crucificado
nas palavras dos evangelhos.
Perderam-mo
dentre as paredes daquele templo
em que rezei ateu.

Reencontrado, mais tarde
nas telas, com Scorsese,
ou nas páginas do Saramago,
humano e carnado,
este Cristo tão igual a mim
quase me convenceu.

A me provar do contrário
sempre houve esta cruz
e toda esta dor
estas carnes expostas
estes corpos exangues
e este arbítrio de morte.


sexta-feira, 3 de agosto de 2007

No Ribeirão São Paulo

NO RIBEIRÃO SÃO PAULO...

Viegas Fernandes da Costa

... ontem, meninos corriam com suas redes entre o verde dos arrozais. Borboletas no ar e em escuras caixas de sapatos, e aquele homem dos trocados que vendia bandejas e quadros. Vez por mês, o homem das bandejas e dos quadros dispunha seus trocados aos meninos do Ribeirão São Paulo... lindas borboletas criadas e caçadas para o inútil brilho de algumas moedinhas.
... hoje, vinte anos depois, Fábio Fachini me conta que caçava borboletas, umas, e criava, outras, em velhas caixas de sapato. O dinheiro? Guardado na poupança e consumido pela inflação. Mais teria ganhado se as tivesse visto brilhar suas muitas cores em meio à colheita e corrido no rastro de suas asas como criança inocente, não como empresário...
... seu filho dorme nos braços da mãe.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

FILME DA SEMANA


O filme sugerido para esta semana é a última produção do diretor mexicano Guillermo del Toro, "O Labirinto do Fauno". Ambientado na Espanha franquistada da década de 1940, o filme estabelece um diálogo entre a realidade e a ficção a partir da imaginação da personagem Ofélia, uma menina órfã que acompanha a mãe à casa do padastro, um oficial das forças do Ditador Franco que combate guerrilheiros remanescentes da Guerra Civil Espanhola.

"O Labirinto do Fauno" é um filme sensível, de grande beleza estética e bastante inteligente.

Para ler a crítica publicada na revista Bravo, acesse o link: http://www.bravonline.com.br/noticias.php?id=2334


Avaliação do Alpharrábio: ****

O moleque e o sambaqui

O moleque e o sambaqui

Viegas Fernandes da Costa

Zoolitos produzidos por sambaquianos do litoral catarinense

Tem ele um bar no Norte da Ilha de Santa Catarina. Conheci em um destes invernos de vento sul, as imensas janelas contemplando o Atlântico e as paredes repletas de pequenos bilhetes enamorados, o amor cantado baixinho - como pretendia Quintana – nos sussurros da sua eterna brevidade. Urda e eu comíamos frutos do mar, colhidos ali por perto, os dedos enregelados e os ouvidos perdidos no marulhar, quando veio nos cumprimentar. Sorriso, aperto firme de mãos, descobrimo-nos todos historiadores – oras, vejam só – assentados sobre um pré-histórico sambaqui. Tudo ali cheirava à ancestralidade: as pedras, a praia, as já camufladas montanhas de conchas a tanto empilhadas, a tanto saqueadas. Apontou-me com os dedos o velho cemitério; com a boca, apontou-me histórias do lugar. Uma memória ansiosa por contar, um par de ouvidos ansiosos por ouvir.
Lembranças dos idos de menino, calças curtas, os pés descalços na areia molhada, a cabeça matutando guloseimas. Como consegui-las dos padres que habitavam o colégio católico, lá no alto? Interessante observar como o alento das lembranças de menino iluminavam o rosto do adulto. A solução encontrada naquelas milenares montanhas de conchas e nas necessidades do pequeno museu de história natural que dormia escondido em algum canto escuro do centenário colégio. As mãos de criança fuçando nas conchas, encontrando ossos, cerâmicas, pequenos zoólitos, pontas de flechas, as pedras lascadas, as pedras polidas. Depois a estrada sinuosa para o alto do monte, para os muros da escola, para a batina dos padres. Confessou o antigo medo pelos sacerdotes, olhares duros, jesuíticos. A estes interessavam apenas as peças inocentemente profanadas nas praias lá de baixo, e a exposição privada nas estantes do pequeno museu. Melhor assim, quando tantos sambaquis sucumbiam nas criminosas fábricas de cal e no aterro das rodovias. Eles, moleques felizes, desciam lambuzados de chocolate e as bochechas inchadas de chupar balas: nada sabiam daquele povo sambaqui, “coisas de índios”, repetiam-se, cujo valor media-se em doces.
Agora os planos de um grande parque arqueológico, de estudar e deixar onde está, de convidar o mundo para conhecer. O moleque cresceu, aprendeu a história do chão onde dormem as fundações do seu bar, da igrejinha onde o batizaram, do que se esconde sob as pedras do calçamento que tantas vezes pintou com o sangue inconseqüente das travessuras. Aprendeu a história e o valor, ensina a outros moleques – os de hoje – a riqueza daquele grande museu sob o teto do céu, tão maior do que aquele escondido nos corredores santos e taciturnos daquele colégio.
Quando saímos, já lua na noite, o vento sul tomou-me outro, e meus pés pisavam com cuidado.

O FINANCIAMENTO DA FURB

O FINANCIAMENTO DA FURB

Viegas Fernandes da Costa

A greve histórica que por uma semana paralisou as atividades da Universidade Regional de Blumenau, institui-se como um marco para a organização dos trabalhadores do ensino superior no Vale do Itajaí e, principalmente, para a conscientização de toda a sociedade a respeito da necessidade de se discutir o financiamento da FURB, hoje efetivado principalmente pelo pagamento de mensalidades por parte dos alunos.
É preciso dizer que a FURB é, fundamentalmente, pública. Licita os serviços que compra, é regida por Conselhos e Estatutos próprios e seus servidores são contratados mediante concurso público. Além de pública, é comunitária em sua origem. A FURB é um patrimônio material e simbólico construído a partir dos anseios e da organização da nossa população, que não apenas exigiu a interiorização do ensino superior em Santa Catarina na década de 1960, mas que com seu próprio dinheiro construiu os prédios que deram origem ao que é hoje o Campus I, na Rua Antônio da Veiga. Os habitantes mais antigos ainda devem se lembrar da rifa que compraram para que seus filhos um dia pudessem cursar uma faculdade próxima de suas casas, sem a necessidade de grandes deslocamentos e financeiramente acessível a todos. Passaram-se 43 anos desde então, a FURB cresceu, afastou-se da comunidade a quem presta contas, mas o obelisco plantado em seu pátio principal ainda está lá a nos lembrar que “juntos construímos a nossa universidade”. E é este o grande desafio que se coloca hoje para a nossa região.
A greve iniciada no dia 13 de julho alerta para os caminhos que o ensino superior toma no Vale do Itajaí e em todo o nosso país. A proliferação de pequenas faculdades e de centros universitários, que em muitos casos se constituem como meros espaços onde se negociam diplomas, sufoca as universidades, imbuídas da necessidade de promoverem o ensino, a pesquisa e a extensão. Sem financiamento público, e na obrigação de manterem laboratórios, serviços de extensão à comunidade e capacidade de construir saberes, as universidades se vêem obrigadas a cobrar altas mensalidades, o que provoca o esvaziamento de alunos. A FURB não é exceção. Sofrendo uma concorrência predatória e tendo tomado nestas últimas gestões decisões administrativas que nos parecem equivocadas, a FURB vê seu número de alunos diminuir a cada ano e sua capacidade de dialogar com a comunidade cada vez mais prejudicada. A situação é grave, e exige profunda reflexão. Não se trata apenas de garantir direitos trabalhistas historicamente conquistados, mas de garantir a sobrevivência da primeira instituição de ensino superior do interior do nosso Estado e de assegurar, aprofundar e ampliar seu caráter público e democrático. Refletir sim sobre a possibilidade da sua federalização ou outro mecanismo que lhe garanta a sustentabilidade sem que para isso se apele a sua privatização ou sucateamento. E o que me parece fundamental: faz-se necessário novamente construir esta utopia de uma universidade pública intrinsecamente ligada a nossa comunidade, em que se estabeleça uma relação de pertencimento com esta instituição de ensino superior e que se possa restabelecer a relação de comprometimento para com a sobrevivência da FURB.
O momento nos convoca à responsabilidade de reafirmarmos o ideal registrado no obelisco acima citado, e a competência de provocarmos o debate com toda a sociedade que é, e nunca deverá deixar de ser, a principal responsável pela existência da FURB.

* O artigo acima foi originalmente publicado nos jornais Transformação e Luta (julho/2007), Jornal de Santa Catarina (01/08/07, editado) e Folha de Blumenau (01/08/07, editado).

Assembléia dos servidores da FURB que votou pela greve (13/07/07) (Foto: Sinsepes)