segunda-feira, 29 de junho de 2009

"Chove sobre minha infância"

"Chove sobre minha infância” de Miguel Sanches Neto


Viegas Fernandes da Costa


No filme “Caixa Preta” (2005), dirigido por Richard Berry, o protagonista sofre um acidente e permanece inconsciente por um período. Ao despertar, é informado pela enfermeira que, durante o coma, balbuciou palavras e frases desconexas que esta anotou em um caderno. Ao sair do hospital, o personagem procura decifrar os significados daqueles seus fragmentos de memória, mas a correspondência com a realidade dos fatos torna-se impossível. Isto porque, para a memória, o vivido no plano da realidade física não difere do vivido no plano dos desejos, ou, não há diferenças entre o vivido e o que pensamos viver quando acessamos os cantos mais obscuros do nosso inconsciente.
Na literatura, estabelecer fronteiras entre realidade e ficção, quando se trata de memórias, constitui-se como tarefa ingrata e inútil. Carlos Heitor Cony, por exemplo, quando publicou “Quase Memória” (1995), deparou-se com a dificuldade de classificá-lo enquanto gênero literário. Por isso o subtítulo: “quase-romance”. Já Silveira Júnior preferiu enquadrar como romance seu “Memórias de um menino pobre” (1977), livro em que magistralmente relata sua infância vivida em uma comunidade de agricultores no interior de Santa Catarina. “Chove sobre minha infância” (2000), de Miguel Sanches Neto, segue esta mesma lógica: o relato trágico de um anti-herói que cresce em ambiente hostil para se transformar no escritor que narra sua própria história. Memórias?
Quando Proust escreveu seu monumental “Em busca do tempo perdido”, Joyce seu “Retrato de um artista quando jovem” e José Lins do Rego seu “Menino de Engenho”, não tivemos dificuldades em aceitá-los como peças exemplares de uma literatura do mais alto nível. Ainda que textos estruturados sobre reminiscências, são, essencialmente, criação, porque a memória é, tal qual em “Caixa preta”, criação. E não importa se fato experienciado fisicamente, se interpretação dos sentidos ou construção do inconsciente, a memória estabelece sua verdade, tornando-se, assim, verossímil. E é nesta verossimilhança que se constrói “Chove sobre minha infância”, livro que, segundo o narrador-protagonista, não se pretende de memórias, mas de “retalhos, alguns falsificados pela recordação e pela fantasia” (p.17).
Romance de estreia de Miguel Sanches Neto, “Chove sobre minha infância” conta a história da sua infância e adolescência a partir dos seus próprios olhos. Não se trata, entretanto, de autobiografia, já que o narrador-protagonista (o próprio Miguel), narrando ou vivenciando os fatos no tempo presente em que supostamente aconteceram, em alguns momentos sofre a intromissão do narrador adulto, deste outro Miguel, capaz de compreender e julgar a criança de antanho. E é nesta tensão entre recordação e ficcionalização, entre revelação e moralização, que se constrói a história de um menino nascido na pequena Bela Vista do Paraíso, no interior do Paraná, que, órfão do seu pai, um homem de “coração bom, mas prisioneiro de suas misérias” (p. 12), migra com sua mãe e irmã para Peabiru, cenário onde se desdobra o enredo.
Viúva e vivendo muito humildemente com o dinheiro que recebia costurando para prostitutas, apesar de filha de rico fazendeiro, a mãe do narrador-protagonista resolve se casar com Sebastião, um caminhoneiro sem muito estudo. Homem austero, trabalhador, honesto, incapaz de lograr um agricultor, Sebastião nutre profundo desprezo a todo trabalho que não seja braçal, e procura educar a família na doutrina do trabalho duro no campo ou junto a cerealista de que se torna proprietário. Educação contestada pelo narrador-protagonista, que desde muito moço inclina-se para as letras. Letras inúteis, improdutivas e que impedem Miguel de ser o homem forte e trabalhador com que sonha o padrasto. Há uma cena na obra em que o narrador-protagonista conversa com Zé Carlos, filho do padrasto, que lhe explica que o pai teve que comprá-lo, juntamente com seus irmãos, depois de tentar convencer, com argumentos, a mãe a entregá-los: “O pai teve que comprar a gente. A mãe não queria ele deixar trazer. O pai falou bastante coisa pra ela, mas não adiantou. Daí ele deu dinheiro e ela deixou.” E a reflexão de Miguel, ainda criança: “Fico pensando se Sebastião não tem razão. As palavras não valem grande coisa mesmo. O que vale são os números.” (p. 78). Mas é esta uma exceção, escrever, preencher todas as folhas do caderno, é não deixar morrer seu pai, analfabeto e morto trágica e precocemente. Escrever é, antes de tudo, libertar-se. Libertar-se dos desmandos do padrasto e sua família, libertar-se da vida dura do campo, libertar-se do atraso.
Sob o verniz dos conflitos familiares, das vicissitudes próprias de um menino que adolesce e descobre os prazeres e dores do corpo, “Chove sobre minha infância” impõe-se como uma obra que marca a desterritorialização do retirante no confronto campo e cidade. Ao defender o trabalho forçado, Sebastião defende a manutenção dos filhos na terra. As letras implicam vida urbana, o êxodo rural. Neste contexto, torna-se emblemática a reflexão do narrador-protagonista quando afirma: “Pertenço a uma geração que não encontra mais espaço no Paraná. Não dá mais pra iniciar uma vida de pioneiro em nossas terras, elas já foram desbravadas, já deram o seu sangue, suas matas, seus rios” (p. 215). É o campo que sucumbe à cidade, aos bancos, à indústria e seus empregos de fome. A Peabiru que viu crescer Miguel, já não o é, “a lama e a poeira de então eram a da cidade que estava sendo feita, a dos destinos em construção – hoje são de decadência” (p. 253).
Também a metaliteratura se faz presente na obra. Para Miguel – narrador-protagonista – literatura é missão que dá voz a quem sempre se calou: “Vindo de um povo basicamente iletrado, recebi a tarefa de ser seu porta-voz. Escrevo por isso, para fazer com que falem estes entes sem discurso” (p. 240). Missão e catarse, diga-se ainda, pois pretende o narrador-protagonista libertar-se da carga, do peso que sua história imprime sobre seus ombros, como quando jovem descarregava os caminhões que chegavam à cerealista, as sacas de soja estourando-lhe a coluna, a poeira arrebentando-lhe os pulmões.
“Chove sobre minha infância”, neste pântano da memória, ato de desvelamento, ao dizer de Miguel, diz mais, diz de uma ordem que esboroa, calcinada na terra empobrecida, diz da escrita e do ato de se construir autor, mas diz, principalmente, de uma liberdade nunca plena.

Viegas Fernandes da Costa é historiador e escritor, autor de “Sob a luz do farol” (2005) e “De espantalhos e pedras também se faz um poema” (2008) e editor do Sarau Eletrônico/FURB.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

"No mundo dos livros" de José Mindlin

“No mundo dos livros” de José Mindlin

Viegas Fernandes da Costa

Nestes tempos em que tantos vaticinam o fim do livro, é sempre bom ler o que um bibliófilo tem a nos dizer, principalmente se este for um senhor absolutamente lúcido de 95 anos de idade e que constituiu uma das maiores e mais importantes bibliotecas particulares do Brasil. Trata-se de José Ephim Mindlin, advogado e empresário do setor metal-mecânico nascido em 1914, mesmo ano em que uma Europa assustada via a ruína da Belle Époque e, sobre seus escombros, a ascensão da primeira grande guerra mundial. Mindlin é também membro da Academia Brasileira de Letras e autor de “Uma vida entre livros” (1997), “Reinações de José Mindlin” (2008) e “No mundo dos livros” (2009), este último alvo de nossa leitura e comentário.
Em “No mundo dos livros”, obra de poucas páginas e linguagem despretensiosa – uma “conversa”, como o próprio autor o define – Mindlin socializa conosco suas experiências de leitura, principalmente sob o aspecto afetivo, procurando incentivar o hábito da leitura e o culto a seu representante mais simbólico: o livro. Na tentativa de se fazer o mais próximo possível do leitor, entretanto, José Mindlin peca na estrutura da sua narrativa. Em alguns momentos interrompe sua exposição para lançar ao leitor perguntas do tipo “quem é que o(a) levou aos livros?”, “você já leu algum desses livros?”, entre outras, dando-nos a impressão de falar a um público adolescente. Suas sugestões, porém, de títulos como “A retirada de Laguna”, de Alfredo d’Escragnolle Taunay, ou “O espírito das leis”, de Montesquieu, inevitavelmente acabam por exigir leitores mais experientes e minimamente disciplinados. Há então esta narrativa pantanosa, uma espécie de desconforto quanto ao tipo de leitor que “No mundo dos livros “ pretende alcançar.
Também em seu inventário de obras e autores que lhe marcaram a memória, Mindlin não corre riscos, e limita-se a sugerir uma bibliografia já canonizada. Assim, na poesia brasileira, por exemplo, sugere poetas como Gonçalves Dias, Castro Alves, Olavo Bilac, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, entre outros. Manoel de Barros e Adélia Prado são honrosas exceções. Cabe lembrar, a título de atenuante a esta pouca ousadia em não citar autores e obras de pouco ou nenhum reconhecimento, que a experiência de Mindlin a este pertence, e é desta experiência que fala “No mundo dos livros”.
Se há pecados, há também virtudes. Vale a pena conhecer um pouco mais da vida de bibliófilo de José Mindlin, como quando, já nas primeiras páginas, conta dos estratagemas de que lançava mão para conseguir comprar seus primeiros livros em sebos paulistanos, em 1927, aos 13 anos, e de como começa a qualificar suas aquisições, primeiramente procurando adquirir as obras completas do autor que apreciava, depois as primeiras edições e, por fim, as primeiras edições autografadas, transformando a sua biblioteca em algo único e precioso. Há nisto tudo verdadeira reverência não só ao objeto livro mas, fundamentalmente, à mão que o escreveu. Reverência exposta em trechos como este que aqui destacamos: “(...) comecei a procurar exemplares que tivessem passado mais diretamente pelas mãos dos escritores, com dedicatórias. Foi um novo mundo que se abriu para mim, uma espécie de contato direto com os autores e os leitores a quem os livros eram dedicados”.
Como dissemos lá em cima, nestes tempos em que tantos vaticinam o fim do livro, é sempre bom ler o que um bibliófilo tem a nos dizer. E a este nosso quase desamparo em meio ao universo de bits e bytes, consola-nos Mindlin quando diz que “o manuseio de um livro convencional não só estabelece o ritmo de aquisição de conhecimentos pelo autor, como chega a constituir um prazer físico”, e ainda: “o que aparece nas telas é necessariamente efêmero se não for transportado para o papel.”
Palavras de um apaixonado, sem dúvida!
* Texto originalmente publicado no Sarau Eletrônico.

domingo, 14 de junho de 2009

Túnel doTempo

Hoje quero resgatar mais um texto publicado na coluna Crônica da Semana, no dia 20 de julho de 2002. O texto chama-se Perijil, nome de uma ilha inóspita no Mediterrâneo que, à época, foi alvo de disputas entre o Marrocos e a Espanha. Apesar de não ter sido escolhido para integrar meu primeiro livro, "Sob a Luz do Farol", diverti-me muito escrevendo esta crônica.
PERIJIL

Viegas Fenandes da Costa

Penso que a maioria daqueles que nos acompanham neste momento conhecem, se não de ter lido, ao menos de ter ouvido, a clássica estória de Dom Quixote de La Mancha, escrita por Cervantes. Se acaso alguém não a conhecia, certamente passou a conhecê-la por estes dias, com algumas adaptações, é verdade, mas ocorrida de fato. Claro que hoje os cavaleiros andantes não morrem mais por suas amadas, atualizados como estão, mas certamente por ilhas ainda duelam, a fim de estabelecer a honra da propriedade. E que duelos! Com direito a helicópteros "Super Puma", aviões de combate F-18, tropas especiais e apoio naval! Seria Perijil a ilha prometida pelo "Cavaleiro da Triste Figura" a Sancho Pança como recompensa por seus préstimos de fiel escudeiro, e por isso toda esta celeuma em torno de um pedaço de pedra desabitado e desprovido de qualquer atrativo, até então abandonado no Mediterrâneo? Fato é que aconteceu, e até a Organização das Nações Unidas já foi intimada a intervir, como se questões mais importantes não necessitassem a sua atenção.
Penso que a coisa se deu da seguinte maneira:
Estava lá o rei do Marrocos um pouco preocupado, talvez, com sua popularidade, arranhada com a insistência dos separatistas do Saara Ocidental em declarar a independência daquele monte de areia, quando mandou chamar seu séquito de puxa-sacos para uma consulta. Entre os tantos assuntos discutidos, lembrou um dos ilustres presentes, quem sabe tenha sido o próprio primeiro-ministro, que a melhor forma de se resolver um problema é desviar a atenção do povo sobre o mesmo. "É, taí uma boa resposta!" - deve ter meditado o monarca, dando corda para que o brilhante proponente desse prosseguimento a sua reflexão. "E a melhor forma de fazermos isto é conquistando novos territórios!" Esta sim era uma idéia que em muito agradava ao rei, pois além de solucionar seu problema imediato - o da impopularidade - , ainda lhe ampliava os domínios. "Mas que territórios havemos de invadir?" - indagou o secretário de uma pasta qualquer e que só estava lá porque era cunhado de uma das irmãs do príncipe. "Perijil!" - altissonante resposta que quase fez estremecer o palácio. "Perijil? Mas que diabo de lugar é este?" - indaga o ministro da guerra, que já estava a se tremer todo. "Vossa Majestade há de compreender que esta não é uma terra muito vasta, muito menos preciosa, mas terra é, e para uma boa residência de férias aos nobres desta nossa pátria há de servir". "Acatado, invade-se então Perijil e depois vê-se no que dá, e não temamos, pois Alá há de nos proteger nesta santa batalha!" - bradou alvissareiro o monarca. E foi assim que se decidiu o envio de doze Gendarmes (uma espécie de policial militar marroquino) para a perigosíssima ocupação da ilha, que de área é um pouco maior que um campo de futebol (interessante observar como campo de futebol se transformou em unidade de medida) e de população só pode contar mesmo com os líquens cravados em suas pedras.
Agora, de estupefação mesmo foi tomado o governo espanhol, a cujos domínios pertence o pedregulho, segundo comprova uma carta de 1746, confeccionada por um tal de Luis Huet, que deve estar a vibrar em seu túmulo pois fora tirado do esquecimento por uma maluquice marroquina.
Discussão daqui, discussão dali, e dá-lhe porrada na mesa do Conselho de Segurança Nacional Espanhol: "É uma afronta, um insulto, fere a soberania nacional" - grita um mais exaltado; já outro afirma: "qualquer resposta será interpretada como de legítima defesa do povo espanhol". É? Eu, que de entendido em política internacional não tenho nada, apenas vejo Dom Quixote sentar em seu cavalo, vestir sua lata e correr na direção do inimigo. Só fiquei com pena dos tais gendarmes, que devem ter se aterrorizado com a imagem dos enormes helicópteros "Super Puma" lançando sombra sobre a ilhota e açoitando suas barracas com o vento das hélices. Tanto que se renderam sem dar um único tiro. Melhor para eles.
Quanto ao Marrocos, que viu sua bandeira ser destituída dos seus mais novos domínios em menos de uma semana, brada por reparações e exige da comunidade internacional um posicionamento sobre o assunto. Mas a ONU já disse: nem Espanha, nem Marrocos, a ilha é de Sancho Pança!

Blumenau, 20 de julho de 2002.

domingo, 7 de junho de 2009

Enquanto isso em Dom Casmurro

Enquanto isso em Dom Casmurro


Viegas Fernandes da Costa*

Antes mesmo de lançar Enquanto isso em Dom Casmurro, em 1993, José Endoença Martins já suscitara polêmicas com o conteúdo e a forma dos seus versos, inauguradores daquilo que mais tarde chamaria de Poema Minuto. O negro, a mulher, o sexo, a vida e seu simulacro explodiam em seu texto, que tinham em Blumenau seu cenário e suporte. Não foi diferente com este seu romance, que tem sua 2ª edição lançada agora pela Edifurb.
Em Enquanto Isso em Dom Casmurro a linguagem, e tão somente ela, torna possível aproximar 1899, ano em que Machado de Assis dá à luz Capitu e Bentinho, e 1993, ano em que Martins imprime seu sopro a Capitu, e esta se liberta do realismo de “Dom Casmurro” para encontrar o pós-modernismo neste livro ambientado em uma Blumenau preconceituosa e hipócrita que vive a crise do setor têxtil, no início da década de 1990. Uma Capitu kitsch, amoral, bissexual, sadomasoquista, negra e drogada que se move pela linguagem e pelo desejo e que escolhe esta cidade do Vale do Itajaí para viver esta sua nova vida fantasiada de cantora sertaneja.
Provocador e experimental, Enquanto Isso em Dom Casmurro, no tempo do seu primeiro lançamento, dividiu águas na literatura produzida no interior de Santa Catarina, e reaparece agora ainda mais atual, problematizando esta nossa sociedade do pastiche, das aparências, onde tudo pode ser valorado pela plástica e pela capacidade de se tornar mercadoria, inclusive a própria Capitu, que paga com seu corpo o cachorro quente vendido na esquina.
Neste romance José Endoença Martins questiona os fundamentos identitários blumenauenses, cidade onde nasceu o autor, sempre tão prussiana com seu discurso higiênico de ordem e trabalho. Aqui temos uma Blumenau que já foi negra, que já foi italiana, que já foi até mesmo alemã, para hoje ser qualquer outra coisa indefinida, uma terra onde as “enchentes anuais perderam leveza e novidade” para “ganhar angústia”, uma cidade cheia de ruídos, mas sem som próprio.
Enquanto Isso em Dom Casmurro constitui-se como um romance rico em intertextualidades, que flerta com a história e com nossa sociedade pós-industrial, que discute as relações interétnicas e, acima de tudo, que mostra que na ficção tudo é possível, desde que haja desejo.

*Viegas Fernandes da Costa é historiador e escritor, autor de "Sob a luz do farol" (2005) e "De espantalhos e pderas também se faz um poema" (2008).