quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Enquanto Godot não chega...

Enquanto Godot não chega...


Viegas Fernandes da Costa

... cai-me à mesa uma edição do caderno de Cultura do Zero Hora de 21 de novembro de 2009. Na capa, Itálico Marcon. Nunca tinha ouvido falar! Segundo Luiz Antônio Araujo, o autor da reportagem, Marcon é (ou era, haja visto os últimos eventos) o segundo maior bibliófilo do Brasil. Perde (perdia), apenas para Delfim Netto, este sim o maior juntador de livros brasileiro. Claro, falamos aqui dos maiores bibliófilos considerando o número de títulos que possuem sob sua guarda, e não a qualidade e raridade dos mesmos. Não importa! Marcon virou meu herói dado seu desprendimento! Sua biblioteca atulhava três apartamentos em Porto Alegre, livros adquiridos durante seus setenta anos de vida. Apartamentos que agora estão esvaziados de tanto papel e verbo. Itálico Marcon simplesmente resolveu doar 180 mil volumes da sua coleção para um projeto chamado “Banco de Livros”, que tem o apoio de Luis Fernando Veríssimo. O objetivo do “Banco de Livros” é montar acervos em comunidades carentes.
Fico aqui pensando na dimensão do gesto. Todo bibliogâmico sabe dos ciúmes que um livro (ou toda uma biblioteca) pode provocar. Diria até que os livros nos chantageiam emocionalmente, atiçam-nos a libido, oferecem-se às nossas mãos, olhos, bocas, e depois nos põem escravos de si. Imploram cuidados, atenção permanente, frágeis e melindrosos que são. Mas sem tergiversações, dizia do gesto, da dimensão do gesto de Itálico Marcon.
“Não foi o primeiro a fazê-lo”, Pode argumentar alguém. “Está aí José Mindlin, que doou sua rica biblioteca à USP”. “É diferente”, responderei. Ainda que também bastante admirável a atitude de Mindlin, há uma diferença substancial entre o gesto deste e o de Marcon. Mindlin doou sua biblioteca a uma única instituição universitária, e o fez cercado de exigências. Justo, claro. Bibliogâmico que é, quer ver seus livros bem preservados, tratados com o zelo de que nunca se viram privados. Além disso, Mindlin constitui um monumento à sua memória na medida em que entrega uma coleção que preservará seu nome e ficará reunida em um único espaço. As gerações futuras saberão que aqueles livros foram reunidos por uma figura lendária, chamada José Mindlin, que dedicou boa parte da sua vida caçando pelo mundo livros únicos. Não neguemos, a imortalidade é boa paga ao desprendimento de Mindlin. Já no caso de Itálico Marcon, o desprendimento se dá em outro nível.
Ao doar os 180 mil volumes da sua biblioteca particular ao projeto “Banco de Livros”, Marcon pulveriza sua coleção e dissolve a possibilidade de transformar seu gesto em ato monumental. Fica, claro, o registro da doação na imprensa e nas comendas que certamente receberá, porém o “lugar de memória” físico, acessível por corpos humanos não virtuais, este não existirá. É como o sujeito cujo cadáver sepultamos no mar. A lápide de uma sepultura é sempre a garantia de uma certa imortalidade, ainda que efêmera; de um certo estar no mundo, ainda que ausente. E é justamente esse sepultamento no mar, essa entrega de uma biblioteca, razão de ser de toda uma vida, para que se pulverize e chegue, de fato, às mãos de leitores anônimos e espalhados pela periferia portoalegrense, que torna a doação de Marcon tão significativa e magnânima.
Que sejam lidos, entretanto, os livros doados, e não se percam, nas obscuras prateleiras da burocracia ou em bibliotecas ora suntuosamente inauguradas e futuramente abandonadas e esquecidas, os livros mofados destinados à reciclagem. É isto o mínimo que podemos devolver a Marcon.
Itálico Marcon em meio aos seus livros (Foto: Zero Hora)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Notas sobre a literatura catarinense 04

Rocamaranha

Viegas Fernandes da Costa


A literatura em Santa Catarina tem como tema recorrente a imigração. Se comparado ao resto do país, o território catarinense foi alvo de um projeto de colonização bastante tardio e plural, e muitos foram os povos incentivados a ocupar este território desde o século XVIII, provindos principalmente do continente europeu. Ou seja, a miséria na Europa e a proliferação dos sem-terras era o estímulo que empurrava alemães, italianos, poloneses, ucranianos, portugueses, libaneses dentre outros, para o meio da selva a fim de lavrar o solo e afrontar os nativos, buscando melhores condições de vida, a posse da terra e a segurança material. Afronta esta que derramou muito sangue e quase exterminou povos e culturas como a Kaingang e a Xokleng, povos que agora procuram resgatar seus valores, língua e cosmologia.
Neste contexto, a literatura praticada em Santa Catarina, enquanto manifestação social do seu tempo, reflete esse processo de ocupação do território a partir de determinados olhares. Ou seja, é uma literatura comprometida com uma concepção de civilização própria, com um olhar próprio que nasce no bojo de identidades culturais específicas, ou ainda, que reflete a interpretação de cada corrente migratória sobre a sua história. Escritores nascidos no interior de núcleos culturais germânicos escreveram sobre a imigração germânica, o mesmo acontecendo com os escritores nascidos ou criados dentro de outros núcleos, constituindo, na maioria dos casos, uma literatura epopéica e ufanista.
Recentemente alguns autores catarinenses vêm se destacando no cenário nacional. É o caso, por exemplo, de Salim Miguel, com o livro "Nur na Escuridão", em que aborda a imigração libanesa, e da escritora Urda Alice Klueger, cujos romances enfocam o cotidiano dos colonos de ascendência germânica. Sobre esta autora, no entanto, há de se fazer uma ressalva. Ela mesma fruto da miscigenação, trabalha nos seus romances a mistura étnica, destoando assim do coro de escritores que criam personagens e enredos etnicamente "puros", ou seja, sem a mistura com outros povos e identidades culturais. Em seu romance "Cruzeiros do Sul", por exemplo, Urda aborda a formação do "povo catarinense" como resultado do encontro de muitos povos, de muitas culturas, e apresenta o estado de Santa Catarina como um grande caldeirão cultural, indicando aí uma influência dos estudos de Gilberto Freyre na sua ficção. Também Almiro Caldeira (1921-2007) abordou o tema da imigração, porém sobre o enfoque da presença Açoriana, a partir da publicação de sua primeira novela, “Rocamaranha”, cuja 1ª edição data de 1961.
"Rocamaranha" aborda as reações do povo açoriano frente ao tratado do rei português D. João V, que regulamentou e promoveu o processo de transferência de milhares de açorianos para as terras do Sul do Brasil durante o século XVIII, e as dificuldades e desmandos experimentados pelos imigrantes no interior dos navios que os transladaram pelo Atlântico. O eixo que norteia o enredo é o romance de Duda e Nanda. Porém, talvez o que mais importa nesta obra é justamente o trabalho de humanização dos personagens anônimos da migração açoriana, seu cotidiano e mentalidades.
Já nas primeiras páginas percebemos um conflito de gênero que nos dá uma idéia do papel da esposa açoriana. Ao saber do tratado de D. João V, Ricardo, um dos personagens, desejoso de tentar melhor sorte no Brasil, tenta convencer a esposa a aceitar a viagem, mas cabe a ela a última palavra, a de não migrar, a de não abandonar o solo onde nasceu, ainda que com todas as dificuldades que neste havia. Não dissemos, mas quando Portugal decide por incentivar a emigração dos açorianos, o arquipélago dos Açores vivia a realidade do superpovoamento e da carência de alimentos. Cabia assim à esposa uma decisão que afetaria todo o futuro da sua família, e não uma posição de submissão à vontade do marido. Também é interessante observar o efeito do determinismo religioso sobre a ação das personagens. Ao ser questionado pelo filho dos motivos pelos quais também eles não migrariam, Ricardo responde: "Deus Nosso Senhor quando nos colocou aqui foi sem mais aquela? Não faz ele tudo bem medido e pesado? Então é de ver que tinha lá um propósito, pondo a gente a viver neste canto do mundo. Se ele nos queria açorianos, vamos nós passar a brasileiros? É isto de boa razão?" Este mesmo determinismo aparece em outros momentos do livro, principalmente quando o autor retrata as condições a que eram submetidos os emigrantes no interior dos navios, sujeitos às doenças, aos ambientes insalubres e às inúmeras proibições de relações sociais. Uma das personagens chega a comparar as condições a que estavam submetidos os passageiros às dos escravos em um navio negreiro.
Importante destacar também a observação que a personagem Maria Amália, esposa de Ricardo, faz a respeito daquilo que entende por pátria. Ao se referir ao Brasil, diz: "seja como for, não é terra açoriana, não é nossa pátria... e ainda que seja, vá lá, pode bem ser, que o valor de Portugal anda rodeando o mundo, mas assim como assim nosso natural não é!" Ou seja, a noção de pátria enquanto solo de origem, de nascença, e não de unidade jurídica.
Apesar de se constituir como epopéia, "Rocamaranha" não esconde conflitos sociais e mazelas históricas. Não procura construir uma "idade do ouro", pelo contrário, mostra claramente as carências dos açorianos e a desorganização administrativa portuguesa, que em muitos casos não cumpriu com suas promessas de apoiar integralmente todas as famílias açorianas em território brasileiro, dando-lhes a posse de sesmarias, ferramentas para o trabalho agrícola e ajuda de custo. E são estes detalhes, além da qualidade literária e linguística do texto, recuperando expressões da cultura açorianas, que tornam esta pequena novela um importante referencial na nossa literatura e um documento para as reflexões da historiografia catarinense.

* Viegas Fernandes da Costa é historiador e escritor. Edita o site de literaturatura Sarau Eletrônico e mantém a coluna “Notas sobre a literatura catarinense” no Jornal Expressão Universitária.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Entre cadáveres e casas velhas, a literatura

Entre cadáveres e casas velhas, a literatura


Viegas Fernandes da Costa

Quando Maicon Tenfen lançou a primeira edição da novela “Um cadáver na banheira”, em 1997, lembro-me de uma entrevista que concedeu a um programa televisivo, onde afirmou que sua preocupação, enquanto escritor, era apenas escrever uma boa história. Em 2008 tive a oportunidade de entrevistar Tenfen para o “Sarau Eletrônico”, e perguntei a ele se escrever era isso, apenas contar uma boa história. A resposta? “Continuo com a idéia de que um bom conto deve contar uma boa história, um bom romance é aquele que conta uma boa história. Mas não apenas! Por trás daquilo você vai encontrar uma cosmogonia capaz de lhe fazer refletir sobre muitas coisas, sobre a sua própria vida, sobre a sociedade e o mundo em que você vive.” Ou seja, Tenfen continua acreditando na força da narrativa, em seu poder de enredar o leitor e de aprisioná-lo nas possibilidades da trama, entretanto, reconhece que a literatura não se limita à fruição.
Ainda que não o reconhecesse publicamente, quando lançou “Um cadáver na banheira”, Maicon Tenfen já começava a esboçar nesta novela um projeto literário que tem por objeto questionar e refletir a respeito do fazer literário e do mercado editorial. Projeto que o autor de certa forma explicita com a publicação da terceira edição de “Um Cadáver...” (2007) e, mais recentemente, com seu livro de contos “Casa Velha Night Club” (2009). Em ambos os títulos, a proposta metaliterária é clara, e a relação direta entre os dois livros é estabelecida abertamente pelo próprio autor, não só através das menções feitas pelo personagem Maicon Tenfen em “Canil para cachorro louco”, conto que fecha “Casa Velha...”, bem como nas referências que encontramos fora do espaço da fábula propriamente dita. Quando observamos, por exemplo, os créditos de revisão ortográfica e gramatical da terceira edição de “Um cadáver...”, vamos nos deparar com o nome de Genésio Campanelli, informação nova, já que nas edições anteriores dessa novela (1997 e 1999) não se fazia alusão ao revisor. Genésio Campanelli aparece novamente nos agradecimentos de “Casa Velha...” e, pasmem, como protagonista do já referido conto “Canil para cachorro louco” na pele de um pacífico e metódico professor universitário que se vê envolvido numa trama de sexo, chantagem e homicídio. Ultrapassando os limites tradicionais da fábula, Maicon Tenfen faz uso dos espaços extraliterários do livro para conferir maior verossimilhança a sua trama, brincando com as fronteiras da ficção e da realidade e enveredando por aquilo que Tzvetan Todorov chama de “autoficção”. É o caso, por exemplo, quando o professor Genésio Campanelli reconhece, na geografia do conto, o escritor Maicon Tenfen: “Era um colega seu, um amigo de muitos anos, um ex-aluno que recentemente se tornara professor da Universidade. Era Maicon Tenfen, o escritor.”
O excerto acima lembra o primeiro capítulo de “As palavras e as coisas”, de Michel Foucault, onde o filósofo analisa a cena apresentada no quadro “Las Meninas”, pintado em 1656 por Diego Velázquez. Foucault nos aponta a presença de Velázquez no interior da cena, pintando um quadro em que, muito provavelmente, retrata aquilo que se descortina aos seus olhos e que podemos supor sermos nós mesmos, a plateia. No meta-artístico “Las Meninas”, Velázquez aponta a existência de um autor e de um consumidor; na obra de Tenfen, e em especial nesses dois títulos que discutimos aqui, o autor também afirma sua existência, apesar de que no conto “Nick Fourier”, que abre o “Casa Velha...”, este autor seja morto por sua própria obra. Eis aqui uma escatologia. “Nick Fourier” dialoga diretamente com “Um cadáver...” naquilo que diz respeito ao tema e à posição do autor Maicon Tenfen diante do mercado editorial, ou seja, o recorrente conflito entre arte e artesanato, criação e reprodução. Em “Canil para cachorro louco” o autor estabelece sua catarse, assume sua existência, liberta-se da prostituição literária e define-se enquanto artista que deseja contar uma boa história, mas não apenas isso.
“Um cadáver na banheira” conta a história de Jorge Gustavo de Andrade, personagem que foge de uma pequena cidade do Alto Vale catarinense com sua namorada e se instala em Blumenau, onde espera realizar o sonho de publicar seu romance de estreia, “O retorno do Alquimista”, e assim se transformar em escritor de sucesso. Entretanto, Jorge Gustavo encontra os muros praticamente intransponíveis do mercado editorial, e se vê forçado a recorrer aos préstimos de Suzana Fischer, proprietária de uma editora que publica os livros de autores que desejam pagar pelo serviço. Em um dos trechos da novela, Jorge Gustavo diz para sua editora Suzana Fischer: “É difícil definir um editor que tenha a cara-de-pau de publicar um livro que não foi analisado, mesmo quando é pago por quem o escreveu. Você é tão sem-vergonha que não se preocupa se publica arte ou merda – desde que um otário como eu assine um cheque – pois seu lucro não vem do livro em si. Vem do bolso do autor.” Vale lembrar que a primeira edição de “Um cadáver...” – bem como a edição do primeiro livro de Maicon Tenfen, “Entre a brisa e a madrugada” (1996) – foi publicada através de uma editora que cobrava de seus autores os serviços de editoração e publicação e não possuía logística de distribuição. Assim, a crítica que a novela destila destina-se, no âmbito geral, ao mercado editorial, excludente e monopolista; e, no âmbito particular, muito provavelmente a uma editora em especial: à própria que publicou a primeira edição de “Um cadáver na banheira”.
Os oito contos que compõem “Casa Velha Night Club” discutem, de alguma forma, o fazer literário e a presença do livro em nossa sociedade. Entretanto dois contos estabelecem essa discussão de forma mais incisiva, e são justamente o primeiro e o último do volume, como já apontamos anteriormente. Em “Nick Fourier” conhecemos a história de um escritor fracassado em suas pretensões de produzir “alta” literatura, e que ganha a vida escrevendo livros policiais de bolso e descartáveis. Quando decide se libertar do personagem que criara, matando-o (como tantos autores realmente tentaram fazer, não obtendo sucesso, como no caso de Conan Doyle, que matou Sherlock Holmes para ter que “ressuscitá-lo” depois), é por este morto. A mensagem de Tenfen é clara: o escritor que se entrega à indústria da cultura de massa pode até encontrar sua sobrevivência financeira, mas terá suas possibilidades artísticas assassinadas. De certa forma Maicon Tenfen retoma a questão em “Canil para cachorro louco”. Há um trecho onde o personagem Tenfen narra a Genésio Campanelli uma história que está escrevendo e diz: “A menina do meu conto também é devorada. Depois que crescem, as criaturas não costumam poupar seus criadores”. Não é, porém, de canibalismos que trata “Canil para cachorro louco”, mas de autofagia. Ao se lançar nas tramas da enorme teia narrativa, dissolvendo ficção e realidade no grande mar da linguagem, Maicon Tenfen, o personagem e o escritor, reafirma-se enquanto artista capaz de se inventar outro, novo, estabelecendo um texto muito bem construído, contando uma boa história e apontando para algo a mais.
E é justamente este “algo a mais” de “Casa Velha Night Club” que nos permite crer que Maicon Tenfen ainda se autofagizará muito, “enchendo seus textos de mensagens e ligações ocultas, jogando com o leitor e dizendo coisas que jamais teria coragem de dizer diretamente”, como certa vez me confidenciou Genésio Campanelli.

* Viegas Fernandes da Costa é historiador e escritor. Autor de “Sob a luz do farol” (2005) e “De espantalhos e pedras também se faz um poema” (2008). Edita o Sarau Eletrônico, site de literatura da Biblioteca da FURB. O presente texto foi originalmente publicado no Caderno de Cultura do Diário Catarinense, Florianópolis, 09/01/2010, p. 3.