domingo, 28 de março de 2010

Túnel do tempo

PANGARÉ DOS TEMPOS
Viegas Fernandes da Costa

Não me perguntem por que fui cursar História. Não saberei responder. Bem como não saberei dizer por que, certo dia, pus na cabeça idéia fixa de escrever, publicar livro. Já lecionar, lembro-me, veio naquele sonho sonhado no sótão em que morava meu quarto, na casa dos meus avós, agora dilapidada pela cobiça familiar. Sonhei-me lecionando, coisa inconcebível na minha puberdade, aluno medíocre que era, e por isso não prestei muita atenção. Mas aconteceu sem programação: certo dia uma feira de profissões, a oferta do curso de magistério e um adolescente convencendo a família de que seria professor. Estamos aí. Quanto à História, não sei; literatura então, muito menos. Simplesmente aconteceu, como acontecem as coisas realmente importantes: uma lufada de vento, o pólen no infinito e a pedra no rio, petardo certeiro moldando um destino. Tchibum! E assim foi! Não cometerei o erro do dom.
O erro do dom... Sim, recordo-me de um artigo de Pierre Bourdieu onde este questionava o mito da predestinação. Aquela história de que “desde criança fulano já demonstrava suas inclinações para ser isto ou aquilo”. Nem isto, muito menos aquilo: em criança desejava apenas brincar e olhar o que se escondia sob as saias das vizinhas – tão bonitas! Nada mais. Mas conta a Dona Anneli - minha mãe - que eu era uma criança chorona e que, para aplacar lágrimas e berros, entregava-me exemplares da sua revista Pais & Filhos. Não os rasgava, como precipitadamente o amigo leitor, a amiga leitora, já deve estar supondo. Os dedinhos gordinhos da criança de então pegavam exemplar por exemplar e folheavam as páginas de trás para frente, com cuidado, os olhos se demorando nas ilustrações e nas fotos de outros bebês. Dona Anneli pendurando roupa no varal, olhar de soslaio, meu sorriso e meus olhos espantados, os dedinhos gordinhos tocando o papel. É certo, assim começou o desejo pelo impresso, este poder erótico que livros e revistas sempre exerceram sobre mim, tanto que os namoro na estante, nas pilhas sobre a mesa, nas vitrines das livrarias. Mas daí a dizer que estive destinado, desde zigoto, a plantar palavras, vai uma grande distância; que o digam meus professores de português, verdadeiros heróis.
Hoje, escrevo porque a vida dói, parafraseando o artista plástico Iberê Camargo, e é tudo! Quanto ao resto, construí-me leitor, palavra a palavra, livro a livro, como a máxima da galinha que enche seu papo comendo de grão a grão o milho. A vida dói, pois é! Talvez também isto tenha me empurrado à historiografia, da literatura a outra face da moeda, pois como escrevia, em crônica de 1877, Machado de Assis, “um contador de histórias é justamente o contrário de historiador, não sendo um historiador, afinal de contas, mais do que um contador de histórias”, e explica: “o historiador foi inventado por ti, homem culto, letrado humanista; o contador de histórias foi inventado pelo povo, que nunca leu Tito Lívio, e entende que contar o que se passou é só fantasiar”. Entender a cartografia da dor, talvez, e dialogar com o mundo, quem sabe? Novamente a lembrança do velho sótão onde morava meu quarto; a casa, uma mansarda que abrigava nos cantos do telhado pequenos depósitos de coisas velhas dos tempos de juventude dos meus avós e tios. Quartinhos quentes e escuros, teto baixo e inclinado, onde investia horas e horas das minhas adolescentes tardes de ócio fuçando naquelas malas...
Sim, aquelas malas de madeira, enormes, empilhadas no fundo do quartinho. Afastava as telhas para que o dia pudesse clarear os seus segredos: antigas cartilhas e cadernos escolares, as revistas Cruzeiro, as primeiras edições das Seleções e o número um da Manchete, traças, muitas traças, e os enormes negativos das fotos tiradas na antiga “América Box” – quem seriam os personagens nas imagens desbotadas e nunca mais reveladas? Então... também as cartas, de amor, de paixão, escritas em alemão e péssima caligrafia de homem do campo - meu avô - semi-alfabetizado , empilhadas a um canto, ao lado dos postais, das revistas em quadrinhos e dos almanaques de farmácia com suas propagandas de xaropes e laxantes. Ah... os almanaques! Neles descobri: como sofriam de sífilis os castos homens de antanho! Sífilis e prisão de ventre, que o digam os tantos anúncios! Mas como a casa, também este tesouro particular que escavavam meus olhos e mãos em segredo – proibida que era esta arqueologia pelo zelo de um passado desejado morto que cultivava minha avó – foi perdido na rapinagem familiar. Muito acabou no lixo reciclável, o que sobrou, sumiu. Ficaram mesmo foram estas lembranças de um arqueólogo mirim escavando o passado da família e o sentimento de sacrilégio: o devassar dos segredos esquecidos, das vergonhas escondidas. Naqueles quartinhos descobri o fascínio que o antigo exercia sobre mim, e me deixei seguir atrás dos ácaros, traças e manchas de mofo. E também nisto aqui estamos. Quixotescamente, sim, também nisto aqui estamos!
Afinal, eis onde me encontro, sobre o pangaré dos tempos que trota além das suas patas, os cascos soltos e perdidos em alguma curva lá atrás. Lecionar, historiar ou escrevinhar, todas faces deste mesmo Quixote montado nas utopias brotadas das sementes que o vento nos trouxe.
Pangaré sem viseiras, sem cascos, por isso aprender a pisar diferente. Não me arrependo.

Blumenau, 25 de junho de 2005

quarta-feira, 24 de março de 2010

Confissão

Confissão

Viegas Fernandes da Costa


Trazes contigo
o segredo e a chave

trago comigo
o alento das mãos
e a força do beijo
na face

trago comigo
a carne que cede
ao golpe da sorte

sim, a carne que cede
ao golpe da sorte
pois a força do homem
está neste flerte

Trazes contigo
o segredo e a chave

trago comigo
amigo
judas iscariotes
e a puta que se entrega

     [esta que não tem paga
     aquele que não tem escolha]

trago comigo
a estrada que não calcei
ainda que calceteiro
os moinhos que não movi
ainda que cavaleiro

     [de triste figura?]

Trazes comigo
a têmpera do homem
qual aço
mergulhado em água fria

qual pedra
depurada pelo tempo

qual magma
inóspita rebeldia

Trazes contigo
o segredo e a chave
Trago comigo
língua e silêncio

ainda assim
caminhamos, de mãos dadas
de mãos dadas
porque é disso que se faz poesia

domingo, 21 de março de 2010

Notas sobre a literatura catarinense 05

Os cruzeiros de Urda Alice Klueger

Viegas Fernandes da Costa

Ao observarmos a história da literatura produzida a partir de Santa Catarina, percebemos a força do seu caráter fálico. Em outras palavras, percebemos o quanto nomes masculinos hegemonizam, no transcorrer do tempo, o fazer literário catarinense. Poucas são as escritoras que figuram no cânone literário deste Estado, no qual se destacam Delminda Silveira de Souza (1854?-1932), Maura de Senna Pereira (1904-1991), Lausimar Laus (1916-1979) e Eglê Malheiros (1928). A estas autoras podemos incluir, mais recentemente, o nome de Urda Alice Klueger, nascida no município de Blumenau em 1952 e atualmente em plena atividade literária e acadêmica.
Urda estreou na literatura em 1979, com o romance “Verde Vale”, seu livro mais conhecido e que já conta com mais de dez edições. Depois de “Verde Vale”, publicou “As Brumas Dançam Sobre o Espelho do Rio” (1981), “No Tempo das Tangerinas” (1983), “Te Levanta e Voa” (1988), “Cruzeiros do Sul” (1992) e “Sambaqui” (2008) – todos romances. A autora escreveu também livros de crônicas (destaque para “No Tempo da Bolacha Maria”, de 2002), relatos de viagens (destaque para “Entre Condores e Lhamas”, de 1999), além de literatura infantil e historiografia. Sua obra vasta e de gêneros diversificados tem sido objeto de estudos acadêmicos e da crítica literária, cuja apreciação não é unânime: há quem reconheça na prosa de Urda Alice Klueger inovação e qualidade literária; e há outros, como Antonio Hohlfeldt, em que a crítica aponta para problemas estruturais e pouca inovação. Divergências a parte, inegável é a importância do conjunto da obra de Urda Alice Klueger na conjuntura cultural catarinense e grande é a quantidade de leitores que acompanham suas publicações.
A ficção de Urda sempre esteve muito associada à temática da imigração germânica no Vale do Itajaí, principalmente quando tratamos dos seus primeiros títulos. Entretanto, há um diferencial entre o texto desta escritora e o de outros autores que abordam o tema de forma mais ortodoxa, como é o caso, por exemplo, de Gertrud Gross-Hering (1879-1968). Já desde “Verde Vale”, Urda procura trabalhar o elemento germânico miscigenando-se aos demais grupos étnicos presentes na região, e a miscigenção é sempre um ato de ousadia, um enfrentamento social que tende ao aprimoramento material da sociedade e ao seu desenvolvimento civilizatório. É o descendente de alemães que se relaciona com o negro, com o índio, com o italiano ou com o brasileiro; seus personagens exercitando, assim, a democracia racial defendida por Gilberto Freyre (1900-1987). Não há, portanto, no universo ficcional de Urda Alice Klueger, o retrato de uma colonização de raiz identitária única, mas a construção de uma sociedade rica porque resultante do encontro multiétnico. A este respeito, manifestou-se a autora em entrevista ao “Sarau Eletrônico” em 2008:
“Tive contato com a obra do Gilberto Freyre depois que escrevi ‘Verde Vale’ e ‘No Tempo das Tangerinas’. Parece que ganhei um rótulo: a escritora que escreve sobre Blumenau e sobre o alemão. As pessoas esquecem dos meus livros que são totalmente diferentes. Acho que o que pegou foi a miscigenação que havia dentro da minha casa. Nós éramos híbridos em tudo: culturalmente, etnicamente e religiosamente. E as rejeições que minha mãe sofreu refletiam muito na gente. (...) Tenho lembrança de aniversários, casamentos, dessas festas que reúnem toda a família. Nós éramos três meninas muito bonitinhas, e pessoas da família me pegavam no colo e diziam: “estás vendo essa aqui, como é bonitinha? É do Rolando!” – que era meu pai. E aquilo tinha toda uma carga de preconceito. Ela era do Rolando, mas era também filha da brasileira. Isso reflete profundamente em mim, tanto é que nunca me senti alemã, mas sempre uma brasileira de muitas origens. E a partir de um certo momento, além de brasileira, passo a me sentir americana. Hoje, se me perguntarem, não diria cidadã do mundo, mas cidadã da América.”
Além de Gilberto Freyre, é possível encontrarmos outras referências autorais em sua obra, notadamente de Érico Veríssimo (1905-1975), com sua saga “O Tempo e o Vento”; e do norueguês Knut Hamsun (1859-1952), com seu romance “Os Frutos da Terra”. De Veríssimo a predileção pela saga histórica, e de Hamsun a força do trabalho humano domesticando a natureza e construindo a civilização. Todos esses elementos que elencamos aqui aparecem com muita força no romance “Cruzeiros do Sul” que, acreditamos, constitui-se no livro mais rico e bem construído de Urda Alice Klueger até o momento. O título tem importância especial se considerarmos o fato de “Cruzeiros do Sul” marcar uma ruptura ideológica na produção da autora. Diferentemente dos textos anteriores, a construção idílica da narrativa sofre a irrupção de um realismo cruel e desestruturador dos acordos sociais, como que se “Germinal” de Émile Zola (1840-1902) passasse a ditar as palavras até então paridas por Hamsun.
Quando Urda escreve “Cruzeiros do Sul”, o Brasil recém sofrera o choque econômico do Plano Cruzado, promovido pelo governo José Sarney em 1986. Enquanto bancária (profissão que exerceu até sua aposentadoria), a autora presenciou o desespero daqueles que venderam suas propriedades rurais, aplicaram o dinheiro na poupança a fim de viverem da correção monetária e, depois do novo plano econômico, viram sua segurança financeira desaparecer. É procurando contar a história dessas famílias, cuja origem estava no campo, que a autora retrocede no tempo e, flertando com a historiografia, passa a narrar a história daqueles que descenderam do encontro, ainda no século XVI, da índia xokleng Madjá-Aiú e do degredado europeu “Cabelo Amarelo”, e que participaram da construção de Santa Catarina. Assim, o “cruzeiros” do título torna-se duplamente referente: a constelação sob a qual se desenrola a narrativa e a moeda, cujo desaparecimento abrupto, interrompe uma trajetória familiar que até então parecia destinada à felicidade.
Se por um lado “Cruzeiros do Sul” reproduz alguns clichês do romantismo literário e omite alguns eventos importantes da historiografia catarinense (como a Guerra do Contestado), por outro, constitui-se enquanto marco na obra da autora e na literatura produzida a partir de Santa Catarina justamente por este seu caráter de ruptura e de denúncia social.

* Viegas Fernandes da Costa é historiador e escritor. Autor de "Sob a luz do farol" (2005), "De espantalhos e pedras também se faz um poema" (2008) e "Pequeno álbum" (2009). Edita o site de literatura Sarau Eletrônico, da Biblioteca da FURB. A coluna "Notas sobre a literatura catarinense" é mensalmente publicada no jornal Expressão Universitária, no site Sarau Eletrônico e no blog Alpharrábio. Permitida a reprodução desde que citado o autor e o texto mantido na íntegra.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Entrevista concedida a Fabrício Wolff

A quem tiver interesse, segue o link da entrevista que concedi ao programa TVL Cultura, da TV Legislativa de Blumenau, apresentado por Fabrício Wolff. O programa foi ao ar em 12/03/2010.
O endereço para assistir ao programa é:

Entrevista concedida ao escritor Maicon Tenfen

Entrevista concedida ao escritor Maicon Tenfen, em seu Blog

Depois das crônicas de Sob a Luz do Farol (2005) e dos poemas de De espantalhos e pedras também se faz um poema (2008), agora você retorna com esse Pequeno Álbum composto de textos de prosa poética. Fale um pouco sobre o livro. Como você o situa na sua obra?

Cada um dos livros possui a sua particularidade, entretanto, Pequeno Álbum apresenta um diferencial na minha caminhada literária. Os dois livros anteriores pretendem-se antologias, já este foi pensado enquanto uma unidade, talvez não tanto temática, mas estética. Cada um dos 44 textos de Pequeno Álbum foi escrito tendo em vista a publicação nesta obra. Agora, quanto ao gênero, como classificá-lo? A ideia para o livro surge há muito tempo, depois que li o Caderno H do Quintana. Quintana chamou aqueles seus textos de poesia epigramática. Prefiro chamar aqueles textos de aforismos e contos. Não importa. Pequeno Álbum pode ser lido como um livro de contos, como um livro de poemas em prosa, como um livro de poesia epigramática. O que interessa mesmo é que o livro seja lido, e que as imagens verbais de Pequeno Álbum possam provocar o leitor. Além dos textos, o livro conta também com a participação da artista plástica Daiana Schvartz, autora das ilustrações que agregam valor artístico à obra.

De todos os textos do livro, o que mais me chamou atenção foi Italo. Você poderia comentar o conto? Como ele surgiu? Já foi publicado antes?

Escrevi o conto Italo enquanto lia o romance Se um viajante numa noite de inverno, de Italo Calvino. Italo é um conto metaliterário, que procura dialogar com o universo ficcional de outros escritores (como o próprio Calvino, Kafka, Borges, Sartre etc), bem como pretende pensar a produção intelectual ao longo dos tempos e seu significado existencial. Quando comecei a escrever este conto, não sabia como se desdobraria. Diria até que a história (se é que há uma história em Italo) desfiou-se por si só. Sabia apenas que precisava escrever algo a respeito da angústia (e esta angústia é pessoal) de um leitor que se fez escritor, e que questiona a pertinência e significa do seu fazer literário. O texto foi premiado no 3º Concurso de Contos de Niterói (RJ), em 2008, e originalmente publicado pela Fundação Cultural daquele município.

Você acredita que a intertextualidade, ou seja, um texto que se reporta a outros textos, seja uma marca da literatura contemporânea? Além disso, que impacto esse tipo de construção literária tem sobre os leitores? É provável que muitos não compreendam as referências...

A intertextualidade não é uma exclusividade do autor contemporâneo, apesar desta ser uma das características daquilo que chamamos de pós-modernidade. Mas veja, Dom Quixote, de Cervantes, já é intertextual. Intertextual e metaliterário. Minha produção tem esta característica: o diálogo com o patrimônio cultural que tive a oportunidade de acessar. Enquanto escritor, sou, primordialmente, um leitor e consumidor de bens culturais. Sou influenciado por aquilo que experiencio. Assim, torna-se quase inevitável que estes autores, diretores, compositores, artistas de uma forma geral, rompam no meu trabalho e se anunciem para os leitores dos textos que escrevo. Agora, que impacto isso terá sobre meus leitores? Não sei. Talvez os próprios leitores poderiam vir a responder esta questão. Se compreenderão ou não as referências não é uma preocupação minha. Minha única preocupação é desafiar o leitor produzindo uma literatura que possa ter qualidade estética e honestidade intelectual.

Você está trabalhando em algum novo projeto? Quais são os planos para o futuro?

Estamos sempre trabalhando em algo. Como editor de um site de literatura, o Sarau Eletrônico, continuo produzindo ensaios a respeito do mundo lítero-cultural. Também estou escrevendo um romance, cujo título provisório é Eleonora. Quando ficará pronto é coisa que não posso imaginar.
 
 
Originalmente publicada em 11/03/2010.