terça-feira, 20 de setembro de 2011

Túnel do tempo: O sonho de Charles Steuck

Buscando no baú esta crônica de 2004, publicada na coluna semanal que mantínhamos no site "A Barata" (SP), editado pelo grande Luis Cichetto.

O sonho de Charles Steuck

Viegas Fernandes da Costa

Foto: Max de Lucca
www.fotografodigital.com.br

Sim, eu sei! Não é necessário me dizer que a maioria das crianças carrega consigo o sonho de voar, de ser aviador. Que correm ao som do primeiro avião que cruza os céus para que possam acariciá-lo com seus olhos de criança, principalmente se for este céu um céu de cidade do interior. Sim, eu sei, mas ainda assim quero falar deste sonho, deste sonho de Ícaro que Charles Steuck, certo dia, revelou-me. E já vou avisando que não se trata aqui de nenhuma revelação bombástica, de nenhum segredo íntimo que possa servir de furo jornalístico às grandes revistas e jornais, apenas breve lembrança aflorada numa conversa despretensiosa. Também não faço ideia das razões que me levaram a querer escrever sobre isto. Mas deve haver razão para tudo? Então apenas me deixo arrastar pelo narrado, pelo ouvido daquela boca acostumada a cantar, mas que tanto cala para poder melhor ouvir. Porque Charles Steuck é assim, silencioso quando não está cantando, ouvindo, vendo, construindo múltiplos mundos sobre este que seus pés tocam. E antes que me acusem de nepotismo literário, esclareço: somos primos, e quando crianças estudávamos no mesmo colégio público. É verdade, sentia-me meio constrangido quando entrava naquela sala de aula e aquele garoto magro e tímido lá do fundo anunciava a quem quisesse ouvir que éramos primos. Eu mesmo não sabia disso, afinal, nunca me apresentaram toda família. Hoje, além de primos, somos bons amigos, admiramo-nos reciprocamente. E quando o vejo pintando, cantando e fotografando com a desenvoltura com que pinta, canta e fotografa, sempre tenho a nítida impressão que desde zigoto já desejava ser este artista que está sendo. Mas não, queria ser aviador, como a maioria das crianças, queria ser aviador!
A memória aflorou ao acaso, sem premeditação. Conversávamos conversa cotidiana, ao nosso redor rolava uma festa de aniversário. Nada fazia supor que Charles retrocederia à infância, aos tempos em que tinha as pernas cobertas de curativos e em que o bairro em que morava era um imenso território a ser desbravado e não este pátio asfaltado que é hoje. Mas a memória retrocedeu, e trouxe à luz um menino magro sobre uma “caloi-cross” verde envolto numa nuvem de poeira num sábado à tarde. Pedalava com os olhos fixos na estrada repleta de seixos traiçoeiros. Destino: o aeroporto. Quer dizer, não bem um aeroporto, talvez aeroclube com pista de pouso soe melhor, mas que importa? Importa mesmo saber que era para lá que o ansioso menino Charles pedalava, o guidão da bicicleta transformado no painel de controle de uma imensa aeronave prateada.
O ritual se repetia todos os sábados. Depois do almoço, fizesse sol ou chuva, deixasse seu pai ou não, lá estava o Charles voando pelas ruas poeirentas de Blumenau para passar a tarde no Aeroporto Quero-Quero. Ficava por lá, ora sentado na cerca, ora perambulando pelos hangares, observando o trabalho dos mecânicos, ouvindo a conversa dos pilotos e até ajudando a empurrar os monomotores para a pista. Observava cada detalhe, as cores, a posição de cada peça, todo o ritual, enfim, e tanto andava por lá que chegou o dia em que se transformou numa espécie de mascote do aeroclube. Convidavam-no para as palestras, pagavam-lhe refrigerante, deixavam-no sentar na poltrona do piloto, tocar nas hélices, falar ao rádio. Ah, e Charles exultava! Voltava para casa ansioso para que passasse depressa a semana e que o próximo sábado chegasse logo e trouxesse consigo novas emoções e, quem sabe, a possibilidade de voar, de voar de verdade, não aquele voar sobre a bicicleta, não aquele voar de sonhar acordado, mas de voar em um daqueles aviõezinhos que todos os sábados admirava e ternamente limpava com a estopa que levava consigo.
E o dia chegou! Chegou sem anúncio, sem que pudesse avisar a família, pedir autorização. Talvez fora melhor assim, talvez o zelo dos pais não permitiria que se arriscasse a tanto: voar! Ah não, prometer-lhe-iam, um dia, fazer uma viagem em avião de verdade, destes de aeroporto grande, com mais de cem lugares. Não naqueles aviõezinhos frágeis, tão volúveis! Não autorizariam, perigoso que era. Principalmente porque era dia de exames, de provas de voo! A primeira vez dos pilotos. Definitivamente não permitiriam! Mas o acaso tratou de mexer seus pauzinhos, e lá estava o Charles sendo convidado por um dos alunos a embarcar no bimotor e acompanhar o exame. Charles aceitou de pronto, claro! Mas sequer podia supor que a aeronave levantasse do solo. Pensou que fosse mais um daqueles testes teóricos em que o candidato a piloto deve dizer o nome de cada um dos comandos do painel, depois sacoleja pela pista e estaciona no hangar. Mas quando viu que o piloto levou o bimotor até o final da pista, alinhou e tomou velocidade... Ah, então seu coração entendeu que aquele dia valeria toda a angústia de esperar chegar todos aqueles sábados e de passar tantas noites acordado imaginando como seria ver sua casa lá do alto, e os pastos do seu bairro, e a escola que frequentava, e o rio que serpenteia sua cidade. E valeu! Sobrevoou a casa, o pai capinando o terreno, a mãe recolhendo a roupa. Acenou, o pai parou, olhou para cima, acenou mecanicamente e voltou à enxada; decerto jamais poderia supor que o filho estava lá, a cara contente esparramada na janela do avião, mal acreditando naquilo que seu corpo vivia!
Bem, depois outros sonhos foram ocupando o Charles. Os sábados preenchidos com novas atividades, novos voos. A vontade de pilotar pouco a pouco dando lugar a novas vontades e o aeroporto Quero-Quero parecendo cada vez menor aos seus olhos. Foi cantar, foi pintar, fotografar. Mas a centelha do desejo que o acalentou quando criança ainda persiste. Pude vê-la quando Charles me contou a história, o sorriso na face e o entusiasmo na memória narrada. E é isso. Talvez algum dia, talvez... ainda veremos o Charles fazendo arte nos céus.

Blumenau, 05 de setembro de 2004.

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