Aquilo que me diz Wim Mertens
Viegas Fernandes da Costa
Somos pequenas fagulhas, espalhadas pelo vento. Pequenas fagulhas que têm seu tempo de queimar, aquecer e brilhar. É impressionante como a música de Wim Mertens é capaz de nos dizer isto. Somos o vento em nossa pele, somos a luz que nossos olhos percebem, a canção do mar e os seixos sob nossos pés. Somos um sopro de fogo que voa, libertado da fogueira, para depois se apagar, misturado a um chão qualquer.
Leio nos jornais que a ciência acredita estar próxima de encontrar a “partícula de Deus”. Demócrito já pensava o mesmo, ainda que a chamasse singelamente de átomo. Percebo que o tempo nos tornou mais pretensiosos, mas nada disso importa, em verdade. Importa mesmo aquele menino de quatro anos abrindo com suas pequenas e ávidas mãos os olhos do pai morto no caixão. “Acorda pai” – diz o menino, e quem fica sem poder dizer nada somos nós diante do absurdo que é o imponderável.
Cultivamos memórias porque nos desejamos eternos. De alguma forma, a música de Wim Mertens que ouço agora, também me diz isto. Não necessariamente as palavras de “What you see is what you hear”, mas tão simplesmente as mãos que dedilham poesia nas teclas de um piano, e as vibrações das cordas vocais de mulheres das quais desconheço nomes e histórias. Mas como se pode querer eterna uma fagulha? Há fogos que se demoram mais, que queimam mais, que reverberam seu calor em labaredas intensas e se espalham pela superfície árida. Ainda assim, perecem, assim como certamente perecerá a memória do fogo. Nossas cidades, tão apressadamente edificadas, nossos templos, nossas certezas, nossa moral de formigas atarefadas... e a tal “partícula de Deus”!
Somos um sopro de fogo que voa, libertado da fogueira, para depois se apagar, misturado a um chão qualquer. Wim Mertens me diz isto, agora, tal qual me disse o gesto daquele menino de quatro anos ao tentar acordar seu pai morto. Há vento lá fora, e a janela está aberta...
1 comentários:
"Somos um sopro de fogo que voa, libertado da fogueira..."Possibilidades de viagem infinita !Lindo Viegas e belíssima canção.
Graça
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