terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Currando a vaca

Currando a vaca

Viegas Fernandes da Costa

Foto: Eduardo Valente / Futura Press
Então é assim: o cara veste a farda de policial militar, pega a viatura, chama os colegas de plantão e vai tirar foto currando uma vaquinha bobinha, toda coloridinha, da tal “CowParade”, que pastava sozinha na noite florianopolitana. E tudo indica que a furunfada foi agressiva, porque segundo o pai da vaca, o artista plástico Marcos Rück, arrancaram um brinco da bovina e deixaram arranhado aquele seu excitante corpo azul.
Parece que a coisa toda aconteceu lá em novembro do ano passado, mas só agora imagens indiscretas apareceram comprovando a safadeza perpetrada pelo agente da lei. Ô praga! – as máquinas fotográficas, claro! Não há como escapar impune delas. Quanto ao policial, pior do que as punições disciplinares é o vexame público. Virou piada, zoado nas rodas de papo-furado, dançarino sobre as línguas afiadas dos salões de beleza e assunto da hora no banco do táxi. Tenho pena, vai pagar caro seu amor pela arte. Ele e os colegas voyeurs que assistiram ao ato libidinoso em plena via pública sem impor decoro e tomar providências.
A vaca, entretanto, parece não ter se importado. Como é peculiar às vacas, ficou lá, tomada de uma tranqüilidade boçal, quietinha, na dela. No fundo sabe que de nada adiantaria reclamar, mugir que fosse! Afinal, o que poderia ela, estrambótica vaquinha de “CowParade”, contra os pesados coturnos do Sistema? Aceitar tudo passivamente, claro, como condiz com sua personalidade. Não por acaso ela, a vaca, é o símbolo escolhido para representar este movimento artístico criado e perpetuado desde 1999 a partir de Chicago. Metáforas desta arte que nada mais tem a dizer, impotente e incapaz de provocar mudanças, preguiçosa, desta arte bovina que se satisfaz pastando, engordando, para depois virar hambúrguer, as vaquinhas da “CowParade” proliferam dóceis e pachorrentas em meio à esquizofrenia dos nossos centros urbanos, esperando apenas o momento do abate a ser decretado em um leilão qualquer.
Querem saber? Lá no fundo simpatizei com o gesto do sujeito que por acaso é policial militar. Não que eu ache bacana sair por aí praticando zoofilia com as vaquinhas bobinhas da “CowParade”, mas quem sabe uma orgia com elas não poderia gerar uns bezerros monstruosos, capazes de impor temor aos viventes? Seria bom se toda arte fosse mesmo monstruosa, bizarra, temerária. Pelo menos assim, poderíamos respeitá-la.

3 comentários:

Carlos R. disse...

Minotauro Policial.....

Aluno No. 33731 disse...

Não acredito que Respeito seja consequencia do Medo.

Viegas Fernandes da Costa disse...

Olá Aluno 33731...
Obrigado pela tua manifestação. Também não concordo que respeito seja consequência do medo. Veja bem, empreguei o termo "temerário", que pode significar, entre outras coisas, "audacioso", bem como utilizei "monstruoso" (porque o "monstro" é sempre um ser entre fronteiras, e não fechado em uma fronteira) e bizarro.Por isso, "impor temor" significa justamente "impor respeito".
Carlos, fico muito feliz com tua visita.
Abraços em ambos, Viegas.