O que dizem os guizos do Bobo da Corte?
Viegas Fernandes da Costa
As observações de Noé

Sempre acreditei que é no pequeno detalhe que mora a alma de uma ação, assim como no ato falho mora a verdade de uma intenção. Na paisagem, a maquiagem; mas há sempre aquele canto escuro, a dobra de uma margem, uma nesga de sinceridade. Escrevo sentado em um banco úmido no largo da Biblioteca (como gosta de dizer o professor Jorge Gustavo, grande figura!), e está chovendo. Claro, dizer chuva é um agrado. Noé me cutuca o ombro, está sentado ao meu lado e usa antiquadas polainas. Aponta seu dedo curvo e enrugado para o sujeito recém arrebentado, duas muletas sob os braços, um tanto de machucados. Chove, chove muito! O sujeito vem abrigado pelo telhado de uma passarela mal engendrada, logo adiante, e estanca diante da escadaria coberta da Biblioteca Universitária. Além do dedo curvo e enrugado de Noé, e da minha curiosidade, há ainda o professor Martinho Cardoso da Veiga, cuja imagem impera em taciturno busto de pedra, observando o espetáculo bizarro. Sim, “bizarro” é mesmo a palavra correta para descrever a situação. O rapaz de muletas, parado, mira a escada, e esta lhe sorri desdém e deboche. Os demais que se esbarram pelo pátio, escondidos sob imensos guarda-chuvas, nada percebem, preocupados que estão em não ensopar seus próprios umbigos. Não demora, resignado, o rapaz de muletas, impossibilitado de subir escadas e segurar um guarda-chuva, toma o rumo da rampa de acesso paralela à escadaria, e segue seu destino.
“Uma vergonha” – diz Noé.
“Como?” – pergunto.
“Uma vergonha a alma desta universidade! Por acaso não há aqui cursos de Arquitetura e Engenharia Civil? Como então permitem construir uma aberração como esta!? Se há de se colocar uma cobertura para proteger da chuva aqueles que necessitam acessar a Biblioteca, que esta seja colocada sobre a rampa, que atende a todos, e não sobre a escadaria, que atende alguns. Parece óbvio, não?”
“E digo mais!” – completa Noé. “O sujeito responsável pelas políticas de acessibilidade desta Universidade só pode mesmo ser sádico. Porque veja você o piso tátil; para onde indica? Para a escada! Sempre a escada! Será que cego não tem o direito de ter dificuldade de locomoção? E se o cego for cadeirante? Se for um idoso com reumatismo? Se estiver com algum problema de coluna? Por que não indicar a rampa, já que há uma? Para uma Universidade que se diz preocupada com o desenvolvimento humano e dotada de espírito crítico, a imagem do rapaz de muletas completamente molhado ao final da rampa, ou do cego rolando degraus abaixo, é mesmo um acinte!”
Tem razão o velho Noé! De que valem os discursos de acessibilidade quando o pequeno gesto nos denuncia? Qual o engenheiro ou arquiteto que projetou uma cobertura sobre a escada de acesso à Biblioteca, e não sobre a rampa? Há marketing pior para nossos cursos que pretendem formar profissionais que pensem e projetem espaços para uso comum?
Por fim, as coisas óbvias são mesmo tão difíceis de serem percebidas?
Momento “Non Sense”
Eis o trecho da Wikipédia lido pelo Bobo da Corte em voz alta, sem motivo aparente:
“A Rainha de Copas é uma personagem do livro “Alice no País das Maravilhas”. Tem um pavio curtíssimo, é autoritária e responde a qualquer sinal mínimo de desrespeito com a pena de decapitação, pelos quais é famosa. O rei de Copas silenciosamente perdoa muitos condenados quando a rainha não está olhando, e seus soldados a humorizam, mas não obedecem as ordens. Não obstante, todas as criaturas no País das Maravilhas temem a rainha.”
Encerrada a leitura, o Bobo da Corte guarda seu tablet e desiste de novas pesquisas. Pensava consultar conceitos como demagogia e populismo, mas viu romper à sala o Rei de Copas, afoito e gritando: eu quero, quero e quero! Logo atrás via-se a sombra do Alcaide do Burgo de Gaspar e o Chapeleiro Mor, importante funcionário da administração responsável por tirar coelhos da cartola. O Alcaide do Burgo de Gaspar dava pulinhos de excitação, pois vislumbrava a possibilidade de engabelar o Rei de Copas, oferecendo-lhe um hospital há muito gerido pelos gregos (não por acaso, na entrada do Burgo de Gaspar, há a estátua de um vistoso Cavalo). Já o Chapeleiro Mor trazia um semblante preocupado e a cada “eu quero” do Rei, respondia com um “majestade, não há mais coelhos nesta cartola”. A Rainha, ouvindo o berreiro, chega à porta e cala a todos com seu olhar fulminante. Não precisou fazer mais nada. O Rei de Copas voltou ao seu passatempo preferido, que é dançar agarrado ao globo terrestre, tal qual no filme de Chaplin, onde Hinkel brinca com o mundo. O Chapeleiro Mor, por sua vez, voltou ao estafante trabalho de encontrar a fórmula mágica da multiplicação dos coelhos, enquanto o Alcaide de Gaspar, bem, este retornou ao seu burgo, em silêncio, crente que seus eleitores irão esquecer a patuscada publicada na imprensa e que dizia do interesse da FURB em assumir o Hospital do Burgo.
O Bobo da Corte, sem motivo aparente, chacoalhou seus guizos.