quarta-feira, 28 de março de 2012

O polvo-medusa

O polvo-medusa
Viegas Fernandes da Costa
Contei para meu sobrinho de três anos do dia em que a vida se transformou neste enorme polvo-medusa. Ele, claro entendeu perfeitamente. Abriu os olhos assim ó, e deu uma enorme gargalhada. Pegou-me pelo braço e levou-me até o quintal. Eu sei, devia ser o contrário, mas foi assim que aconteceu. Ele pegou-me pelo braço e levou-me pelo quintal. Lá, bem nos extremos do terreno, sob a sombra de uma jabuticabeira, parou, agachou-se e cavou a terra. Fiquei obviamente curioso, mas quieto. Penso que senti um pouco de medo, mas não ao ponto de dizer ao meu sobrinho de três anos que parasse de cavoucar. Não durou muito, e do buraco suas mãozinhas puxaram um pequeno exemplar do mais bizarro polvo-medusa que possa existir. Subiu-me um frio pela espinha. Meu sobrinho, entretanto sorriu e disse: "tô criando na sombra, pra crescer devagar".
Imagem: Marc Chagall

terça-feira, 27 de março de 2012

Das coisas que andam rolando no reino encantado da FURB

O que dizem os guizos do Bobo da Corte?

Viegas Fernandes da Costa

As observações de Noé
Sempre acreditei que é no pequeno detalhe que mora a alma de uma ação, assim como no ato falho mora a verdade de uma intenção. Na paisagem, a maquiagem; mas há sempre aquele canto escuro, a dobra de uma margem, uma nesga de sinceridade. Escrevo sentado em um banco úmido no largo da Biblioteca (como gosta de dizer o professor Jorge Gustavo, grande figura!), e está chovendo. Claro, dizer chuva é um agrado. Noé me cutuca o ombro, está sentado ao meu lado e usa antiquadas polainas. Aponta seu dedo curvo e enrugado para o sujeito recém arrebentado, duas muletas sob os braços, um tanto de machucados. Chove, chove muito! O sujeito vem abrigado pelo telhado de uma passarela mal engendrada, logo adiante, e estanca diante da escadaria coberta da Biblioteca Universitária. Além do dedo curvo e enrugado de Noé, e da minha curiosidade, há ainda o professor Martinho Cardoso da Veiga, cuja imagem impera em taciturno busto de pedra, observando o espetáculo bizarro. Sim, “bizarro” é mesmo a palavra correta para descrever a situação. O rapaz de muletas, parado, mira a escada, e esta lhe sorri desdém e deboche. Os demais que se esbarram pelo pátio, escondidos sob imensos guarda-chuvas, nada percebem, preocupados que estão em não ensopar seus próprios umbigos. Não demora, resignado, o rapaz de muletas, impossibilitado de subir escadas e segurar um guarda-chuva, toma o rumo da rampa de acesso paralela à escadaria, e segue seu destino.
“Uma vergonha” – diz Noé.
“Como?” – pergunto.
“Uma vergonha a alma desta universidade! Por acaso não há aqui cursos de Arquitetura e Engenharia Civil? Como então permitem construir uma aberração como esta!? Se há de se colocar uma cobertura para proteger da chuva aqueles que necessitam acessar a Biblioteca, que esta seja colocada sobre a rampa, que atende a todos, e não sobre a escadaria, que atende alguns. Parece óbvio, não?”
 “E digo mais!” – completa Noé. “O sujeito responsável pelas políticas de acessibilidade desta Universidade só pode mesmo ser sádico. Porque veja você o piso tátil; para onde indica? Para a escada! Sempre a escada! Será que cego não tem o direito de ter dificuldade de locomoção? E se o cego for cadeirante? Se for um idoso com reumatismo? Se estiver com algum problema de coluna? Por que não indicar a rampa, já que há uma? Para uma Universidade que se diz preocupada com o desenvolvimento humano e dotada de espírito crítico, a imagem do rapaz de muletas completamente molhado ao final da rampa, ou do cego rolando degraus abaixo, é mesmo um acinte!”
Tem razão o velho Noé! De que valem os discursos de acessibilidade quando o pequeno gesto nos denuncia? Qual o engenheiro ou arquiteto que projetou uma cobertura sobre a escada de acesso à Biblioteca, e não sobre a rampa? Há marketing pior para nossos cursos que pretendem formar profissionais que pensem e projetem espaços para uso comum?
Por fim, as coisas óbvias são mesmo tão difíceis de serem percebidas? 

Momento “Non Sense” 

Eis o trecho da Wikipédia lido pelo Bobo da Corte em voz alta, sem motivo aparente:
“A Rainha de Copas é uma personagem do livro “Alice no País das Maravilhas”. Tem um pavio curtíssimo, é autoritária e responde a qualquer sinal mínimo de desrespeito com a pena de decapitação, pelos quais é famosa. O rei de Copas silenciosamente perdoa muitos condenados quando a rainha não está olhando, e seus soldados a humorizam, mas não obedecem as ordens. Não obstante, todas as criaturas no País das Maravilhas temem a rainha.”
Encerrada a leitura, o Bobo da Corte guarda seu tablet e desiste de novas pesquisas. Pensava consultar conceitos como demagogia e populismo, mas viu romper à sala o Rei de Copas, afoito e gritando: eu quero, quero e quero! Logo atrás via-se a sombra do Alcaide do Burgo de Gaspar e o Chapeleiro Mor, importante funcionário da administração responsável por tirar coelhos da cartola. O Alcaide do Burgo de Gaspar dava pulinhos de excitação, pois vislumbrava a possibilidade de engabelar o Rei de Copas, oferecendo-lhe um hospital há muito gerido pelos gregos (não por acaso, na entrada do Burgo de Gaspar, há a estátua de um vistoso Cavalo). Já o Chapeleiro Mor trazia um semblante preocupado e a cada “eu quero” do Rei, respondia com um “majestade, não há mais coelhos nesta cartola”. A Rainha, ouvindo o berreiro, chega à porta e cala a todos com seu olhar fulminante. Não precisou fazer mais nada. O Rei de Copas voltou ao seu passatempo preferido, que é dançar agarrado ao globo terrestre, tal qual no filme de Chaplin, onde Hinkel brinca com o mundo. O Chapeleiro Mor, por sua vez, voltou ao estafante trabalho de encontrar a fórmula mágica da multiplicação dos coelhos, enquanto o Alcaide de Gaspar, bem, este retornou ao seu burgo, em silêncio, crente que seus eleitores irão esquecer a patuscada publicada na imprensa e que dizia do interesse da FURB em assumir o Hospital do Burgo.
O Bobo da Corte, sem motivo aparente, chacoalhou seus guizos.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Diga não ao bullying

Diga não ao bullying

Viegas Fernandes da Costa

A palavra “bullying” (originária do termo ingês bully) refere-se a todo tipo de constrangimento físico e/ou moral praticado a alguém por uma pessoa ou um grupo no contexto das relações interpessoais. A prática não é recente, muito pelo contrário, mas no Brasil vem recebendo a atenção especial da mídia, dos educadores e das famílias, principalmente após o caso conhecido como “Chacina do Realengo”, no qual um jovem invadiu armado uma escola do Rio de Janeiro, ferindo e matando diversos estudantes.
A literatura e o cinema em diversas oportunidades exploraram o tema do bullying, como é o caso, por exemplo, do romance “A cidade e os cachorros” (1963), obra que popularizou o escritor peruano e Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa. Em “A cidade e os cachorros” Llosa narrou as dificuldades, humilhações e desmandos sofridos pelos alunos do colégio militar Leôncio Prado. A obra, à época da sua primeira edição, chegou a ser queimada pelos professores do Leôncio Prado em praça pública.
Crianças e jovens são as pricipais vítimas de Bullying, e quando falamos em vítimas, não nos referimos apenas aos agredidos, mas também aos agressores. Por se tratar de um tema complexo, não há espaço para maniqueísmo. Na maioria dos casos a criança ou jovem que submete seu colega de escola ou de brincadeiras ao constrangimento físico e/ou moral através de ameaças, humilhações ou agressões físicas possui também um histórico de carências sociais, materiais ou afetivas. Carências que procura compensar por meio de algum atributo violento. Assim, ao refletirmos a respeito do bullying, principalmente no contexto escolar, o principal desafio é justamente considerar a complexidade do tema para que não se caia em soluções simplistas e ineficazes.
É neste sentido de compreender a complexidade do tema e de fugir dos maniqueísmos que a escritora Nana Toledo lançou uma série de seis livros que integram a coleção “Diga não ao bullying”, publicados pela editora Vale das Letras. Criativamente ilustrados pela argentina Sole Otero e pelo blumenauense Guilherme Karsten, “As cores da zebra”, “A mensagem de augusto”, “Me chame pelo nome”, “O touro e o porquinho”, “O príncipe Ranieri” e “Zeca no dia do brinquedo” contam histórias que retratam as diferentes formas de bullying, os sofrimentos que a prática provoca, suas causas e consequências. Para além, os livros apresentam agressor e agredido na condição de vítimas e propõem o diálogo, a solidariedade e a responsabilização da sociedade como possibilidades de resolução dos problemas vivenciados pela criança nas suas relações interpessoais.
Com uma linguagem voltada principalmente às crianças das primeiras séries escolares, e ilustrações que estimulam a criatividade, os títulos da coleção “Diga não ao bullying”, de Nana Toledo, são uma boa opção para familiares e educadores que desejam discutir a questão com seus filhos e alunos de uma forma inteligente, lúdica e problematizadora.

* Viegas Fernandes da Costa é escritor, historiador e editor do Sarau Eletrônico, para o qual este texto foi originalmente escrito.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Síndrome Casas Bahia

Síndrome Casas Bahia

por Viegas Fernandes da Costa

Suspeito que Eduardo Deschamps, Secretário de Educação de Santa Catarina, deva sofrer de grave mania desenvolvida desde a infância. Vale investigar, mas algo me diz que Dudu sofre da "SÍNDROME CASAS BAHIA", grave enfermidade mental que acomete o doente da compulsão do parcelamento, principalmente quando se trata de pagar algo. Quando Reitor da FURB, parcelava a reposição da inflação na negociação salarial. Até hoje os servidores da FURB têm pesadelos com frações. Agora, como Secretário de Estado, quer parcelar o pagamento do piso mínimo do magistério aos professores estaduais catarinenses.
Está comprovado que doentes portadores da "Síndrome Casas Bahia" tendem a ampliar os prazos para efetuar os pagamentos que prometem, talvez por isso Dudu (também conhecido pela alcunha de "Pinóquio" pelos corredores da FURB) apresentou 2014 como prazo para pagar à integralidade dos servidores do magistério estadual o piso de 2012.
Cuidado, a "Síndrome Casas Bahia" não tem cura, e seus portadores não devem ocupar cargos que impliquem na gestão de pessoas e recursos financeiros, sob pena de provocar danos irreversíveis à sobrevivência financeira dos seus subordinados. Sugere-se assim a defenestração imediata do doente do cargo que ocupa.

P.S.: Aos viajantes, só um aviso: os servidores da FURB não aceitam devolução de DUDU. Lembramos ainda que a Base Comandante Ferrraz, na Antártida, está necessitando de um Engenheiro Eletricista.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Um Japão de isopor e papelão

Um Japão de isopor e papelão

Viegas Fernandes da Costa

Spectreman,
personagem criado por Souji Ushiro em 1970.
Lembro-me muito bem, fazia um dia bonito de muito sol. Onze de março, Fernanda e eu havíamos pego a estrada rumo à serra gaúcha e em nada suspeitávamos o que corria no mundo. Na parada para o almoço em uma churrascaria à beira da rodovia em Caxias do Sul, deparo-me com as impressionantes cenas exibidas pelo telenoticiário: seria o Armagedom? De imediato reportei-me à janeiro de 1995, quando um terrível terremoto destruíra a cidade portuária de Kobe, no Japão. À época trabalhava no Jornal de Santa Catarina, e tive que selecionar e reproduzir para aquele diário as fotos que chegavam via satélite: viadutos retorcidos como molas, edifícios tornados escombros, automóveis tragados por enormes crateras e as expressões de horror nos rostos da população vitimada. Eram apenas fotos, mas carregavam uma verdade aterrorizante. Entretanto, o que aquela televisão de churrascaria exibia naquele dia bonito de muito sol, há um ano, era muitíssimo pior do que aquelas cenas fotografadas em 1995. Para além do terremoto, enormes vagas assenhoreavam-se da costa leste japonesa, lavando do mapa cidades inteiras. Caminhões empilhados sobre telhados, aeronaves boiando como canoas surreais em um aeroporto transformado em mar, barcos atracados nas coberturas de prédios próximos à praia. O hiper-realismo fazia-nos suspeitar tratar-se da exibição de algum filme de ficção. Incrédulos, nossos olhos teimavam desconfiança. Mas a estética grave que cabe ao telenoticiário devolvia-nos aos fatos: estava acontecendo e iria piorar! Logo chegariam as notícias da Central Nuclear de Fukushima e seus reatores expostos como feridas pulsantes espalhando radioatividade no ar e nas águas. E aquele dia que amanhecera bonito ante nossa ignorância do mundo, turvara-se na dor e nas incertezas ecoadas a partir da Ásia.
Nada de novo poderia escrever, transcorrido um ano desde os acontecimentos do 11 de março japonês. A mídia bombardeou-nos exaustivamente com as imagens do gigantesco tsunami afogando a tudo e a todos, e milhões de textos foram produzidos analisando e lamentando o episódio. Eu, que à época gozava férias e viajava com minha esposa para o Rio Grande do Sul, distante dezenas de milhares de quilômetros do epicentro dos acontecimentos, pouco poderia acrescentar senão minhas impressões e sentimentos diante dos fatos, o que também não possui lá grande importância porque pouco vi, então, a respeito. Para onde fui, não se assistia à televisão e, quando retornei às minhas rotinas, já se noticiavam as operações de rescaldo à incomensurável tragédia que assolou o povo japonês. Foi então que percebi que havia algo de familiar naquelas imagens de um Japão devastado e que me remetiam à infância. Mas que familiaridade poderia ser esta? Afinal, nunca pusera os pés na Ásia, tampouco experienciara um terremoto ou um tsunami; como então podiam falar-me à infância as imagens da tragédia?
Nossa memória é mesmo uma caixa-preta estranha que acessa ao vivido de forma inusitada. Em meio às cenas da tragédia do 11 de março no Japão e todo esforço das equipes de salvamento para reestabelecer um mínimo de tranquilidade à população atingida, vi-me criança assistindo aos episódios de seriados nipônicos exibidos na televisão brasileira. Criações de Eiji Tsuburaya e Souji Ushiro, as proezas de Ultraman e Spectreman preenchiam meus finais de tarde, no início da década de 1980. Esses dois herois pertencentes ao gênero dos tokusatsus – seriados de ficção científica repletos de efeitos especiais – possuíam uma essência alienígena e combatiam enormes monstros que tinham por objetivo destruir o mundo. Sei que a associação que faço aqui pode parecer bizarra, e talvez até mesmo desrespeitosa para com a dor do povo japonês, mas não é esta a intenção. Na realidade, não poderia domar a memória, cuja teia se tece a partir de uma lógica particular; de qualquer maneira, vejamos: o que significavam aqueles combates travados entre os monstros destruidores do mundo e herois como Ultraman e Spectreman? A criança fascinada que eu era diante daqueles episódios produzidos toscamente em maquetes de isopor e papelão não conseguia compreender o significado daqueles atos heroicos. Afinal, só depois dos monstros alienígenas instalarem o caos na metrópole, destruirem um bom par de prédios, pontes e estradas e atearem fogo em meia cidade, Spectreman ou Ultraman chegavam para acabar com a desordem e restabelecer a paz. A criança que eu era perguntava: meu deus, por que meus herois não chegavam a tempo de evitar tanta destruição? Por que não podiam agir como os super-herois ocidentais, Superman, Flash, Batman etc, que sempre chegavam antes que o mal pudesse provocar a destruição que pretendia? Foram necessários quase trinta anos para que a resposta surgisse, esboçada a partir das cenas exibidas naquele televisor de churrascaria.
Como toda manifestação cultural, também os tokusatsus dialogam com seu contexto social. Ao assistir as cenas dos cenários devastados produzidos pelo descomunal tsunami de 2011, compreendi que os enormes monstros alienígenas que Ultraman e Spectreman combatiam, podem ser compreendidos como a representação dos terremotos e tsunamis que periodicamente acometem o arquipélago japonês. Não há heroi capaz de evitar o poder destruidor destas forças que brotam imprevisíveis das entranhas do nosso planeta, entretanto, é possível minimizar riscos, medicar a dor e reconstruir o mais rapidamente possível tudo que foi transformado em escombros.
Neste e naquele Japão, ambos de isopor e papelão, os “monstros” sempre retornarão, crueis e imbatíveis, trazendo dor e destruição, restando aos humanos, herois sobreviventes, o rescaldo da tragédia.

Ultraman, 1966.
Vídeo de abertura de Spectreman, 1970.