A ditadura do lúdico
Viegas Fernandes da Costa
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| Cena de "The Potter", de Josh Burton (2005) |
“The Potter” (O Oleiro, em tradução livre), dirigido por Josh Burton, é um curta-metragem de animação que conta a história de um aprendiz de oleiro na árdua aprendizagem de produzir seu primeiro vaso de cerâmica. Há muitas possibilidades de leitura do filme, considerando principalmente seus elementos simbólicos, porém, o que me provocou este texto é a possibilidade de reflexão sobre o processo de ensino-aprendizagem que “The Potter” promove.
O aprendiz de oleiro, orientado por seu mestre, tem a sua frente um modelo de vaso que deve copiar. Não há alternativa para este personagem, se deseja produzir seus próprios vasos e demais objetos de cerâmica, deve simplesmente exercitar o trabalho de moldar o barro. Obviamente não é fácil seguir um modelo, mais difícil seria criar algo a partir do vazio. O aprendiz, então, costura horas na tarefa, e cada vaso disforme que brota das suas mãos, expõe na janela, para que possa medir a evolução do seu trabalho. Há cansaço físico e mental em sua atividade, há dificuldade, muita dificuldade. O filme de Burton envereda por algumas soluções mágicas, entretanto, interessa-me aqui a sequência inicial da história, que resulta, depois de muitas tentativas e erros, em um vaso similar, em forma e qualidade, ao vaso modelo.
Podemos questionar se o processo de aprendizagem deve partir da cópia de modelos, mas esta é outra questão. Porém o que me parece certo é a ideia de que a aprendizagem está associada a uma cota de “sofrimento”, e ponho assim, entre aspas, porque gostaria de entender este “sofrimento” sem sua carga pejorativa. Sofrer, neste caso, aproxima-se das ideias de dedicação, persistência e atenção.
Como professor, noto a força do discurso que procura afastar o processo de aprendizagem do “sofrimento”. Há até alguns educadores que cunharam a simpática expressão “pedagogia da alegria”, que pretende transformar o processo ensino-aprendizagem em atividade essencialmente lúdica. Não discordo. Também compartilho do atual senso comum da pedagogia que defende a tese de que é mais fácil aprender quando há ludicidade na educação. Mas o que me incomoda é a “ditadura do lúdico” que tomou conta das nossas escolas e discursos pedagógicos.
Tal qual em “The Potter”, aprender exige disciplina, dedicação, persistência. Aprender exige cometer e compreender erros. Nem sempre o processo ensino-aprendizagem é algo prazeroso; prazeroso pode ser o resultado final, a consciência da aprendizagem, o que em muitos casos depende mais do educando do que do educador. Não se trata de eximir deste educador sua responsabilidade de instigar interesses e atuar como facilitador de saberes, porém, não se pode exigir deste profissional uma dimensão heroica na qual estaria capaz de moldar a realidade para atender às necessidades de prazer dos seus educandos. Não, educadores não moldam a realidade. Educadores interagem com ela.
Em “The Potter” o aprendiz de oleiro viu-se frustrado ante os resultados pífios que obtinha, mas prosseguiu incentivado por seu mestre que lhe apresentava o campo das possibilidades. Aprender pode sim implicar “sofrimento”, o que não significa que deve. E é esta a questão. Diferentemente da “pedagogia da palmatória” que associava a aprendizagem obrigatoriamente ao sofrimento, hoje caímos no extremo de acreditar que a pedagogia deve obrigatoriamente estar associada ao prazer. Neste sentido, a “ditadura do lúdico” pode ser tão nociva quanto a “pedagogia da palmatória”. Prima-irmã da “ditadura da felicidade”, tão comum em nosso Ocidente contemporâneo, a “ditadura do lúdico” impõe ao educador a exigência de desenvolver atividades prazerosas que facultem a aprendizagem. Entretanto, isto nem sempre é possível e pode ser extremamente angustiante, provocando a sensação de incompetência no educador ou relegando o processo educativo ao mero pragmatismo.
Aprender muitas vezes doi, aprender muitas vezes é difícil e pode até ser frustrante. Precisamos, entretanto, aprender a lidar com nossas frustrações; precisamos assumir o “sofrimento” enquanto uma das dimensões do ato pedagógico.
Assista aqui ao filme "The Potter".
